domingo, 10 de abril de 2011

Panteão da Pátria*


Quando eu era pequeno, meus livros do colégio ensinavam que a gente devia respeitar um tal de Luís Alves de Lima e Silva, que vinha a ser o Duque de Caxias. Eu achava aquilo tudo muito legal, porque além do cara ser duque, na foto do livro ele tinha tantas medalhas que inapelavelmente devia ter salvo a vida de milhares de pessoas pelo mundo afora. Depois, fiquei sabendo por livros que não são distrbuídos nas escolas, que, na verdade, foi um repressor consagrado da Balaiada e da Revolução Farroupilha, conflitos de gente que só queria reclamar do pouco caso que o governo imperial fazia dessas regiões na época. Sua capacidade em oprimir conterrâneos ficou tão conhecida, que foi enviado ao Paraguai pra exercer sua arte no chaco. Lá, pra justificar sua fama de patriota, assassinou soldados paraguaios aos pelotões, e tinha por costume jogar os cadáveres nos rios para envenenar os moradores dos vilarejos lindeiros com o vibrião colérico.

Temos péssimo gosto para escolher heróis, não tenho duvida disso. Ruy Barbosa, nosso Águia de Haia, foi um dos maiores combatentes do voto operário e da sindicalização dos trabalhadores. Como ministro, foi pai de um plano econômico que inventou a expressão "inflação galopante", e arrumou briga com Oswaldo Cruz ao fazer campanha contra a vacinação da varíola dizendo: "não vou me expor a envenenar-me com a introdução no meu sangue de um vírus em cuja influência existem os mais fundados receios de que seja condutor da moléstia ou da morte". Depois da morte do sanitarista, como bem lhe convinha, fez um discurso caloroso, onde popularizou-lhe a alcunha de "Pasteur dos Trópicos". Currículo de zé ruela mesmo.

José de Anchieta, nosso amado beato, cognominado Apóstolo do Brasil, tinha tanto desprezo pelos índios (esses brasileiros, imagine) que afirmava: "Para este gênero de gente, não há melhor pregação do que a espada e a vara de ferro". Isso não está nos livros. Euclides da Cunha viajou tanto pelo Brasil que deixou a mulher na seca. A pobre ficou grávida do amante, e nosso herói teve o descabimento de deixar o bastardinho nascer, mas proibiu a mãe de alimentá-lo e quando o menino morreu de fome, enterrou o cadáver no quintal, como um trofeu. No fim, o imbecil ainda resolveu vingar o chifre à bala, mas esqueceu que o amante da mulher era campeão de tiro no exército e acabou morrendo. Um dos maiores intelectuais da nossa história, veja bem. 

Os exemplos são inúmeros: Tancredo Neves, Getúlio Vargas, Lula, todos eles com estátuas e bustos espalhadas pelas praças, comendas em universidades estrangeiras, todos eles escrotos de marca maior. No Brasil, o cara pra ser heroi, tem que ser filho-da-puta senão nem aparece na mídia. Tem que vender a alma, senão não vira líder. Aliás, no mundo inteiro é assim, citei nosso país porque é o caso que eu acompanho de camarote. Mas é só olhar en passant por todos os lugares do globo pra ver que o problema é estrutural. Nas eleições do nosso mundo, os Vargas Llosa sempre serão derrotados pelos Fujimori da vida. E os Al Gore da vida então, nem se fale...

* - esse post foi chupado de um texto no Furio Lonza que eu li há muitos anos e que me detonou a cabeça. Furio Lonza é um baita autor, e quase completamente desconhecido no Brasil. Quem não conhece, vale a pena correr atrás.

2 comentários:

lu guedes que não entende nada de heróis disse...

uma das características da aleatoriedade é que após uma sucessão de merdas, se você tiver uma atitude mediana, você será lembrado e premiado por ela. não precisa ser boa, veja bem, só não pode ser uma merda. o importante então não é o que você fez, mas a ordem dos acontecimentos. isso inclui uma boa justificativa (do autor mesmo ou de algum fã) depois dos fatos ocorridos, e acho que os maiores cretinos da história não faltaram à nenhuma aula de retórica - enquanto a maioria de nós não faz nem muita questão de saber do que se trata.

o contrário também vale: você faz uma coisa notável e em seguida joga seu nome na lama. diferentemente dos números, nesse caso não podemos contar com o bom senso humano e aí dizemos que "o coitadinho perdeu o juízo, mas veja só tudo que já fez" ou coisa que o valha.

Marcelo Faccenda disse...

Vc sempre complementa o que eu penso de uma forma mais legal e original que a minha. A ideia era entrar por esse caminho, mas o post já tava ficando longo... Beijo!