terça-feira, 26 de abril de 2011

No meio do caminho


Um dia você acorda, e depois de esticar os músculos numa espreguiçada, vai ao banheiro. Coçando o saco ou a bunda, claro, que é isso que se faz quando se acorda. Seu olhos cheios de remela ainda estão semicerrados, por isso você não a vê até dar literalmente de cara com ela. Limpa o nariz ardendo e sangrando e esfrega os olhos, buscando compreender totalmente a silhueta da figura que se apresenta. É uma pedra.

É gigantesca, ocupa quase todos os cantos do seu já pequeno apartamento. À esquerda e à direita, só se vislumbra a tal pedra, excetuando-se frinchas estreitas por onde talvez se possa - você imagina - passar apertadinho, em caso de necessidade. A presença da pedra só deixa perspassar tímidas nesgas de luz e aragens muito leves, que mal cuidam de iluminar e ventilar a pouca área de sua diminuta moradia.

Não é preciso pensar muito. A pedra é foliada, de arestas afiadas, com pontas que lanham sua carne, principalmente peito e membros, ao menor contato. O cheiro ajasminado característico e a fina poeira impregnante não deixam margem a dúvidas. Sua pedra não é a alegoria de um poema de Drummond (de onde eu roubei o título, aliás), muito menos servirá como escada como as pedras da Cora Coralina. Sua pedra nada mais é que o amor que você sente por ela, ocupando todo o seu lar e deixando marcas em você todos os dias.

Não há nada que você possa fazer, a não ser acostumar-se à sua pedra. Retoma suas atividades, inicialmente de forma muito penosa, mas gradualmente com mais desenvoltura. E um dia, sem perceber, você não sente mais a presença da pedra (embora ela ainda esteja lá). Seus amigos e vizinhos já se acostumaram aos arranhões e sua pele e às nódoas de poeira em sua roupa. As rotinas da casa já incorporam os desvios e as pequenas tralhas de uso diário já estão recolocadas de modo a estarem sempre à mão, nos locais onde a pedra permite. Já é possível, parcimoniosamente, até mesmo receber visitas em casa, explicando que só é preciso ignorar sua pedra, que ela não faz mal a ninguém. Mesmo algumas poucas mulheres podem adentrar sua casa e não se incomodam com a onipresença outrora opressiva da pedra.

E então, algum outro dia você acorda, como todos os outros, com vontade de ir ao banheiro. Coçando o saco ou a bunda, claro, que é isso que se faz sempre quando se acorda. Quando, com os olhos ainda cheios de remela, estica o braço buscando apoio para levantar-se, entretanto, o suporte outrora garantido da pedra lhe falta e você vai ao chão. Sua pedra sumiu. Simplesmente não está mais lá. Exultante a princípio, você corre os olhos pelo conjugado, conferindo a posição do sofá que não via há anos, da bancada da cozinha, dos quadros (a pedra arranhou os quadros, mas tudo bem). Abre as gavetas que antes não abriam, retira livros da estante, urina em pé, vai à sacada.

Alguns momentos depois, contudo, você percebe que caminhar pelo apartamento agora lhe é estranho. Mais de uma vez pisa em falso, se desequilibra. A sala agora parece um descampado, um deserto sem oásis, a mesa de centro é ridiculamente pequena, os livros da estante parecem estar em menor número. Então você pensa que seu lar já não é tão aconchegante quanto costumava ser. E logo você descobre o que é: a pedra lhe faz falta. A sua pedra. A pedra dela.

É preciso achar outra pedra.

domingo, 10 de abril de 2011

Panteão da Pátria*


Quando eu era pequeno, meus livros do colégio ensinavam que a gente devia respeitar um tal de Luís Alves de Lima e Silva, que vinha a ser o Duque de Caxias. Eu achava aquilo tudo muito legal, porque além do cara ser duque, na foto do livro ele tinha tantas medalhas que inapelavelmente devia ter salvo a vida de milhares de pessoas pelo mundo afora. Depois, fiquei sabendo por livros que não são distrbuídos nas escolas, que, na verdade, foi um repressor consagrado da Balaiada e da Revolução Farroupilha, conflitos de gente que só queria reclamar do pouco caso que o governo imperial fazia dessas regiões na época. Sua capacidade em oprimir conterrâneos ficou tão conhecida, que foi enviado ao Paraguai pra exercer sua arte no chaco. Lá, pra justificar sua fama de patriota, assassinou soldados paraguaios aos pelotões, e tinha por costume jogar os cadáveres nos rios para envenenar os moradores dos vilarejos lindeiros com o vibrião colérico.

Temos péssimo gosto para escolher heróis, não tenho duvida disso. Ruy Barbosa, nosso Águia de Haia, foi um dos maiores combatentes do voto operário e da sindicalização dos trabalhadores. Como ministro, foi pai de um plano econômico que inventou a expressão "inflação galopante", e arrumou briga com Oswaldo Cruz ao fazer campanha contra a vacinação da varíola dizendo: "não vou me expor a envenenar-me com a introdução no meu sangue de um vírus em cuja influência existem os mais fundados receios de que seja condutor da moléstia ou da morte". Depois da morte do sanitarista, como bem lhe convinha, fez um discurso caloroso, onde popularizou-lhe a alcunha de "Pasteur dos Trópicos". Currículo de zé ruela mesmo.

José de Anchieta, nosso amado beato, cognominado Apóstolo do Brasil, tinha tanto desprezo pelos índios (esses brasileiros, imagine) que afirmava: "Para este gênero de gente, não há melhor pregação do que a espada e a vara de ferro". Isso não está nos livros. Euclides da Cunha viajou tanto pelo Brasil que deixou a mulher na seca. A pobre ficou grávida do amante, e nosso herói teve o descabimento de deixar o bastardinho nascer, mas proibiu a mãe de alimentá-lo e quando o menino morreu de fome, enterrou o cadáver no quintal, como um trofeu. No fim, o imbecil ainda resolveu vingar o chifre à bala, mas esqueceu que o amante da mulher era campeão de tiro no exército e acabou morrendo. Um dos maiores intelectuais da nossa história, veja bem. 

Os exemplos são inúmeros: Tancredo Neves, Getúlio Vargas, Lula, todos eles com estátuas e bustos espalhadas pelas praças, comendas em universidades estrangeiras, todos eles escrotos de marca maior. No Brasil, o cara pra ser heroi, tem que ser filho-da-puta senão nem aparece na mídia. Tem que vender a alma, senão não vira líder. Aliás, no mundo inteiro é assim, citei nosso país porque é o caso que eu acompanho de camarote. Mas é só olhar en passant por todos os lugares do globo pra ver que o problema é estrutural. Nas eleições do nosso mundo, os Vargas Llosa sempre serão derrotados pelos Fujimori da vida. E os Al Gore da vida então, nem se fale...

* - esse post foi chupado de um texto no Furio Lonza que eu li há muitos anos e que me detonou a cabeça. Furio Lonza é um baita autor, e quase completamente desconhecido no Brasil. Quem não conhece, vale a pena correr atrás.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Três Simpatias


Simpatia para encontrar a pessoa certa
Escreva em um papel "Eu quero muito encontrar a pessoa certa". Costure o papel na boca de um sapo. Jogue o sapo no mar. Aproveite o clima da praia para pensar em que tipo de pessoa quer alguém que costura papeizinhos na boca de animais inocentes. Vá à academia ou leia um livro. Beba muito.

Simpatia para enriquecer
Pense em dinheiro o tempo todo. Deixe de fazer as coisas que você gosta, pra economizar. Não viaje, não coma fora, não vá ao cinema e nem pense em beber. Pense em como ter uma vida de privações valeu a pena para juntar todo esse patrimônio. Ignore sua mulher infeliz e seu filho revoltado. Morra sozinho. De tanto beber.

Simpatia para ser feliz
Pense pouco. Confie nos amigos. Beba muito.