quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Core


Bem-vindo ao meu planeta. Não é um astro especial, incomum. Não possui anéis reluzentes a sua volta, tampouco brilhos espetaculares ou órbitas erráticas dignas de nota. É um planeta pequeno, afastado de sua estrela, acanhado como milhares de outros dispersos pelo universo afora.

Não há vida em sua camada externa, tampouco atmosfera respirável. Somente uma crosta escura, espessa e rugosa, com aspecto de sangue seco, endurecida pela expectativa dos desastres que não ocorreram. Seu relevo desolador e acidentado é eventualmente escariado por cicatrizes e sulcos, cujo tamanho não justifica a robustez do manto. A casca do meu planeta aguarda a colisão de um cometa que nunca vem. Pulsa e lateja, algumas vezes como um botão em flor, outras feito uma chaga infecta.

A segunda camada é macia e branca, e jaz protegida pela solidez do nácar que a envolve. É amorfa e mole, e tornou-se tão vulnerável que provavelmente uma mera brisa bastaria para produzir-lhe mágoa. Nessa camada poderia crescer a vida, mas não lhe alcança a luz do sol para aquecer os corpos, e as sementes permanecem, então, latentes, esperando para acontecerem.

O estrato seguinte é um turbilhão alucinado de ventos provenientes de memórias e medos. Alísios que correm a velocidades assustadoras carregam a expectativa do pior das pessoas, e alimentam a dureza da camada externa. Nessa camada são gerados os golpes que poderiam acontecer, as traições que poderiam me magoar, as derrotas inevitáveis. É a área onde o futuro do pretérito, ao som do ulular dos ventos, personifica o presente do indicativo.

Por fim, resta o núcleo. Feito de amigos e amores, de infâncias e famílias, quente e denso, como uma floresta tropical. Nesse núcleo encontram-se os mares, os desertos, as matas, a montanhas. É nele que se acham os povos, as canções, os sorrisos e as vitórias. No coração do planeta há calor para o seu sistema inteiro. É capaz de atrair as luas e orientar as estrelas.

Contudo, no centro do astro, o coração dorme. E o meu planeta vive em órbita estacionária, sem invernos ou noites, mas sem vida e sem luz.

9 comentários:

lu disse...

ai que medo

Marcelo Faccenda disse...

Ahahahahahah... não se preocupa não, meu planeta não é desses conquistadores de outros mundos.. :o)

Irene disse...

Tenho a esperança de que, algum dia, esse astro entre na minha órbita, rasgando o céu deste manto negro que me cobre todas as noites.
Não como uma estrela cadente, que se dissolve no ar, mas com a força do impacto de um meteoro, fundindo-se à massa do meu ser e me resgatando do acaso movimento em torno da pequena estrela minha vida.
Antes que vire novamente uma nebulosa...
Adorei o post!!!
Vc, heim!!!!...
Sempre me surpreendendo!

Ju Borges disse...

Geralmente as cascas das frutas e leguminosas são as mais ricas em nutrientes.No meio vem a massa adocicada,apetitosa e que alimenta.
No núcleo concentram-se as sementes.

Existem diversos tipos de cascas e as vezes a ordem de localização de alguns desses itens inverte-se porém,a semente sempre é fértil :)

Pode reparar...dizem que a natureza é sábia.

Beijo \o/

Marcelo Faccenda disse...

Irene, vai ser dificil esse astro entrar na sua órbita, pq a sua galáxia amda meio perdida no meu mapa estelar. Ehehehehehe.. por onde vc anda? Vc precisa aparecer! Beijo!!

Marcelo Faccenda disse...

Ju, adorei o ccmentário. Saiba que vc é uma das pessoas que mais tem contribudo pra amolecer a minha casca... Beijos!!!

Irene disse...

Outra galáxia, Cielo???? Não...
estou bem pertinho, um quase satélite, talvez do outro lado de uma de suas luas. Por isso não me vês!!!!
Um beijo!

Patricia disse...

Pensei em um monte de coisas pra escrever aqui enquanto eu dirigia.
Mas acho que só dá pra dizer uma coisa: as pessoas são prejudiciais. Todas elas.

Beijos!

Marcelo Faccenda disse...

Ah, Paty.. as pessoas são pessoas, né? Com esse potencial enorme pra nos fazer felizes e pra acabar coma nossa raça.. O lance é sempre tentar achar esse equilibrio entre esperar o pior e aceitar quando o que é bom acontece... Beijos!