terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Filma nóis, Galvão!

Certa vez conheci um produtor musical cuja maior conquista profissional, como ele mesmo alardeava, era ter quase descoberto a Maria Gadu para o mundo. Segundo ele, pessoas próximas o alertaram que havia uma menina muito talentosa tocando num bar na Barra da Tijuca. Por um motivo que não achei importante gravar na memória, o coitado faltou à apresentação da moça, outro produtor musical aproveitou a chance e nosso herói continuou sendo o merda de sempre.

Minha mãe tem uma foto onde ela aparece pendurada no ombro do Lula. Pelo que sei, foi num desses eventos que o ex-presidente costumava aparecer, tipo inauguração de obra em andamento, e juntava um monte de funcionários públicos de esquerda, que o consideram um pop star, quase um santo. Aí ficava um monte de gente pulando no pescoço dele e, se desse sorte, algum outro doido tirava uma foto. Não teve discussão filosófica, lição de vida, somente uma fração de segundo. Mas de qualquer forma, a tal foto foi sistematicamente distribuída nos e-mails da minha família, com textos de exaltação e como prova incontestável do caráter probo do conhecido político.

Por que nos dão satisfação essas manifestações? Qual a importância de eternizar um momento que não significou nada? Temos prazer em dizer: "Meu irmão é conhecido do motorista de Fulano" ou "Você não vai acreditar, ficamos no mesmo hotel de Sicrano". Já perdi algumas horas pensando sobre isso e não me vem nenhuma explicação satisfatória. Talvez nos seduza a informação meramente por ser pitoresca, tavez acreditemos na elevação espiritual que um momento cmo esse possa ter. Não sei e não me interessa.

De minha parte, pouco me apetecem essas demonstrações de fidalguia, principalmente as extremamente efêmeras. Se o Selton Mello viajar na avião ao meu lado, parabéns pra ele. Vai receber o mesmo tratamento que eu daria a uma pessoa comum: o completo desprezo pela sua existência. Desde, é claro, que não colocasse o braço no meu encosto. E, ademais, acho que tanto ele quanto o Lula ou a Maria Gadu teriam muito mais sorte em me conhecer do que o contrário.

Claro que eu tenho ídolos. Quase todos mortos, infelizmente. Mas se fosse pela tietagem, teria que valer a pena, como momento. Pra me mobilizar a tirar uma foto, puxar conversa, teria que rolar um desenho autografado do Laerte, uma discussão teórica com o Paulo Medes da Rocha, uma noite de maconha e rum com o Pedro Juán Gutiérrez. Sexo com a Marisa Tomei tamém seria uma boa pedida.

Nas minhas idas ao Rio, não raro topávamos com o digníssimo Chico Buarque de Hollanda, em seus shorts (esses não tão digníssimos), fazendo sua caminhada diária no calçadão do Leblon. Para valer o esforço de levantar do quiosque onde eu me encontrava e importuná-lo, só se ele estivesse de violão em punho, pronto pra tocar "Caçada" só pra minha galera. Ou, ainda, se ele sentasse na nossa mesa pra tomar umas com a gente. Se resolvesse pagar a conta então, melhor ainda. E aí eu até deixaria ele contar a história de como me conheceu pros netos.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Core


Bem-vindo ao meu planeta. Não é um astro especial, incomum. Não possui anéis reluzentes a sua volta, tampouco brilhos espetaculares ou órbitas erráticas dignas de nota. É um planeta pequeno, afastado de sua estrela, acanhado como milhares de outros dispersos pelo universo afora.

Não há vida em sua camada externa, tampouco atmosfera respirável. Somente uma crosta escura, espessa e rugosa, com aspecto de sangue seco, endurecida pela expectativa dos desastres que não ocorreram. Seu relevo desolador e acidentado é eventualmente escariado por cicatrizes e sulcos, cujo tamanho não justifica a robustez do manto. A casca do meu planeta aguarda a colisão de um cometa que nunca vem. Pulsa e lateja, algumas vezes como um botão em flor, outras feito uma chaga infecta.

A segunda camada é macia e branca, e jaz protegida pela solidez do nácar que a envolve. É amorfa e mole, e tornou-se tão vulnerável que provavelmente uma mera brisa bastaria para produzir-lhe mágoa. Nessa camada poderia crescer a vida, mas não lhe alcança a luz do sol para aquecer os corpos, e as sementes permanecem, então, latentes, esperando para acontecerem.

O estrato seguinte é um turbilhão alucinado de ventos provenientes de memórias e medos. Alísios que correm a velocidades assustadoras carregam a expectativa do pior das pessoas, e alimentam a dureza da camada externa. Nessa camada são gerados os golpes que poderiam acontecer, as traições que poderiam me magoar, as derrotas inevitáveis. É a área onde o futuro do pretérito, ao som do ulular dos ventos, personifica o presente do indicativo.

Por fim, resta o núcleo. Feito de amigos e amores, de infâncias e famílias, quente e denso, como uma floresta tropical. Nesse núcleo encontram-se os mares, os desertos, as matas, a montanhas. É nele que se acham os povos, as canções, os sorrisos e as vitórias. No coração do planeta há calor para o seu sistema inteiro. É capaz de atrair as luas e orientar as estrelas.

Contudo, no centro do astro, o coração dorme. E o meu planeta vive em órbita estacionária, sem invernos ou noites, mas sem vida e sem luz.