segunda-feira, 5 de setembro de 2011


Só quem armou o caração pingente nas catedrais dos amores mais pungentes.
Só quem envolveu os corpos mais ocos e se aqueceu no calor das paixões mais loucas.
Só quem teve a maldição de todos os talentos e a benção da placidez de nada ser.
Só quem chorou com os amigos, pelos amigos e para eles, somente.
Só quem perdeu a fé sem precisar encontrar nada em troca.
Só quem reconheceu no olho do filho adorado a hereditariedade da melancolia.
Só quem gosta com a avidez famélica dos náufragos.
E odeia com a preguiça nababesca dos pequenos burgueses. 

Pode encontrar na morte seu merecido descanso. E na vida, seu lucro certo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

¿Y Que?


Pra que serve você, afinal?

Você não mastiga a comida trinta vezes, no mínimo. Come carne vermelha e bebe líquido durante as refeições. Não escova os dentes com movimentos suaves e curvos durante dois minutos inteiros. Não lava nem a mão depois de urinar. Não se alonga ao acordar. Não inspira o ar pelo nariz e expira pela boca. Não atravessa a rua no sinal. As roupas da moda não cabem em você. Usa o celular que vai te provocar um tumor no cérebro.

Você não canta como Enrico Caruso. Não compõe como o Cole Porter. Não pinta como o Van Gogh. Nem ao menos se matou com estilo como a Virginia Woolf. Não é rico como Donald Trump. Seu pau não é grande como o do Rasputin. Muito menos você é capaz de comer tantas mulheres quanto o José Mayer. Você não é gostosa como a Monica Bellucci. Sequer chupa como uma prostituta tailandesa.

O mundo não é feito pra você. Você não é bom em nada. Mas se chupar melhor que a prostituta aí de cima, me liga.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Navio Fantasma

 
Tua presença em minha vida foi tão covarde que mesmo agora, anos depois, tua lembrança só me assombra quando meu barco esta à deriva...


terça-feira, 31 de maio de 2011

Dialética (antítese ao poeta)


É claro que a vida é dura
E a apatia, a resposta
mais óbvia
É claro que tu me achas inepto
E em mim maldizes a frieza da humanidade
E como amar é tão complicado
E tenho tudo para ser triste

Mas acontece que eu sou feliz...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Happy Birthday


De que estranha ideia eu nasci, feito pra durar a eternidade temendo a morte, chorar a vida? Que insensato objetivo me compele, senão o que não tenho, o que não vi, o que não posso? Quem me definiu, me projetou pra ser assim, tão perdedor de mim mesmo, tão juiz e tão carrasco?

Que arremedo de personagem é esse que eu sou, que tem coração de donzela sonhadora em alma de madrasta má, involucrados em corpo de ogro? Que herói é esse que não beija nunca a mocinha, não salva o mundo e ainda morre mil vezes antes do final? 

Que demagoga poesia é essa que eu tenho, que devaneia em ebriedade mas é covarde como um funcionário público? Que é mais manqué do que o Nabokov, mais gauche do que o Drummond, mais vencida do que o dos Anjos, neta do carbono e do amoníaco?

Que caminho é esse que eu devo traçar, por onde devo ir e o que devo fazer depois que chegar lá? Quantas velas devo soprar, quantas datas devo comemorar e de quantas vitórias devo me vangloriar? Quantas cicatrizes devo colecionar, quais medos devo conservar e quando devo apostar no amor?

Parabéns pra você. Nesta data querida.

terça-feira, 26 de abril de 2011

No meio do caminho


Um dia você acorda, e depois de esticar os músculos numa espreguiçada, vai ao banheiro. Coçando o saco ou a bunda, claro, que é isso que se faz quando se acorda. Seu olhos cheios de remela ainda estão semicerrados, por isso você não a vê até dar literalmente de cara com ela. Limpa o nariz ardendo e sangrando e esfrega os olhos, buscando compreender totalmente a silhueta da figura que se apresenta. É uma pedra.

É gigantesca, ocupa quase todos os cantos do seu já pequeno apartamento. À esquerda e à direita, só se vislumbra a tal pedra, excetuando-se frinchas estreitas por onde talvez se possa - você imagina - passar apertadinho, em caso de necessidade. A presença da pedra só deixa perspassar tímidas nesgas de luz e aragens muito leves, que mal cuidam de iluminar e ventilar a pouca área de sua diminuta moradia.

Não é preciso pensar muito. A pedra é foliada, de arestas afiadas, com pontas que lanham sua carne, principalmente peito e membros, ao menor contato. O cheiro ajasminado característico e a fina poeira impregnante não deixam margem a dúvidas. Sua pedra não é a alegoria de um poema de Drummond (de onde eu roubei o título, aliás), muito menos servirá como escada como as pedras da Cora Coralina. Sua pedra nada mais é que o amor que você sente por ela, ocupando todo o seu lar e deixando marcas em você todos os dias.

Não há nada que você possa fazer, a não ser acostumar-se à sua pedra. Retoma suas atividades, inicialmente de forma muito penosa, mas gradualmente com mais desenvoltura. E um dia, sem perceber, você não sente mais a presença da pedra (embora ela ainda esteja lá). Seus amigos e vizinhos já se acostumaram aos arranhões e sua pele e às nódoas de poeira em sua roupa. As rotinas da casa já incorporam os desvios e as pequenas tralhas de uso diário já estão recolocadas de modo a estarem sempre à mão, nos locais onde a pedra permite. Já é possível, parcimoniosamente, até mesmo receber visitas em casa, explicando que só é preciso ignorar sua pedra, que ela não faz mal a ninguém. Mesmo algumas poucas mulheres podem adentrar sua casa e não se incomodam com a onipresença outrora opressiva da pedra.

E então, algum outro dia você acorda, como todos os outros, com vontade de ir ao banheiro. Coçando o saco ou a bunda, claro, que é isso que se faz sempre quando se acorda. Quando, com os olhos ainda cheios de remela, estica o braço buscando apoio para levantar-se, entretanto, o suporte outrora garantido da pedra lhe falta e você vai ao chão. Sua pedra sumiu. Simplesmente não está mais lá. Exultante a princípio, você corre os olhos pelo conjugado, conferindo a posição do sofá que não via há anos, da bancada da cozinha, dos quadros (a pedra arranhou os quadros, mas tudo bem). Abre as gavetas que antes não abriam, retira livros da estante, urina em pé, vai à sacada.

Alguns momentos depois, contudo, você percebe que caminhar pelo apartamento agora lhe é estranho. Mais de uma vez pisa em falso, se desequilibra. A sala agora parece um descampado, um deserto sem oásis, a mesa de centro é ridiculamente pequena, os livros da estante parecem estar em menor número. Então você pensa que seu lar já não é tão aconchegante quanto costumava ser. E logo você descobre o que é: a pedra lhe faz falta. A sua pedra. A pedra dela.

É preciso achar outra pedra.

domingo, 10 de abril de 2011

Panteão da Pátria*


Quando eu era pequeno, meus livros do colégio ensinavam que a gente devia respeitar um tal de Luís Alves de Lima e Silva, que vinha a ser o Duque de Caxias. Eu achava aquilo tudo muito legal, porque além do cara ser duque, na foto do livro ele tinha tantas medalhas que inapelavelmente devia ter salvo a vida de milhares de pessoas pelo mundo afora. Depois, fiquei sabendo por livros que não são distrbuídos nas escolas, que, na verdade, foi um repressor consagrado da Balaiada e da Revolução Farroupilha, conflitos de gente que só queria reclamar do pouco caso que o governo imperial fazia dessas regiões na época. Sua capacidade em oprimir conterrâneos ficou tão conhecida, que foi enviado ao Paraguai pra exercer sua arte no chaco. Lá, pra justificar sua fama de patriota, assassinou soldados paraguaios aos pelotões, e tinha por costume jogar os cadáveres nos rios para envenenar os moradores dos vilarejos lindeiros com o vibrião colérico.

Temos péssimo gosto para escolher heróis, não tenho duvida disso. Ruy Barbosa, nosso Águia de Haia, foi um dos maiores combatentes do voto operário e da sindicalização dos trabalhadores. Como ministro, foi pai de um plano econômico que inventou a expressão "inflação galopante", e arrumou briga com Oswaldo Cruz ao fazer campanha contra a vacinação da varíola dizendo: "não vou me expor a envenenar-me com a introdução no meu sangue de um vírus em cuja influência existem os mais fundados receios de que seja condutor da moléstia ou da morte". Depois da morte do sanitarista, como bem lhe convinha, fez um discurso caloroso, onde popularizou-lhe a alcunha de "Pasteur dos Trópicos". Currículo de zé ruela mesmo.

José de Anchieta, nosso amado beato, cognominado Apóstolo do Brasil, tinha tanto desprezo pelos índios (esses brasileiros, imagine) que afirmava: "Para este gênero de gente, não há melhor pregação do que a espada e a vara de ferro". Isso não está nos livros. Euclides da Cunha viajou tanto pelo Brasil que deixou a mulher na seca. A pobre ficou grávida do amante, e nosso herói teve o descabimento de deixar o bastardinho nascer, mas proibiu a mãe de alimentá-lo e quando o menino morreu de fome, enterrou o cadáver no quintal, como um trofeu. No fim, o imbecil ainda resolveu vingar o chifre à bala, mas esqueceu que o amante da mulher era campeão de tiro no exército e acabou morrendo. Um dos maiores intelectuais da nossa história, veja bem. 

Os exemplos são inúmeros: Tancredo Neves, Getúlio Vargas, Lula, todos eles com estátuas e bustos espalhadas pelas praças, comendas em universidades estrangeiras, todos eles escrotos de marca maior. No Brasil, o cara pra ser heroi, tem que ser filho-da-puta senão nem aparece na mídia. Tem que vender a alma, senão não vira líder. Aliás, no mundo inteiro é assim, citei nosso país porque é o caso que eu acompanho de camarote. Mas é só olhar en passant por todos os lugares do globo pra ver que o problema é estrutural. Nas eleições do nosso mundo, os Vargas Llosa sempre serão derrotados pelos Fujimori da vida. E os Al Gore da vida então, nem se fale...

* - esse post foi chupado de um texto no Furio Lonza que eu li há muitos anos e que me detonou a cabeça. Furio Lonza é um baita autor, e quase completamente desconhecido no Brasil. Quem não conhece, vale a pena correr atrás.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Três Simpatias


Simpatia para encontrar a pessoa certa
Escreva em um papel "Eu quero muito encontrar a pessoa certa". Costure o papel na boca de um sapo. Jogue o sapo no mar. Aproveite o clima da praia para pensar em que tipo de pessoa quer alguém que costura papeizinhos na boca de animais inocentes. Vá à academia ou leia um livro. Beba muito.

Simpatia para enriquecer
Pense em dinheiro o tempo todo. Deixe de fazer as coisas que você gosta, pra economizar. Não viaje, não coma fora, não vá ao cinema e nem pense em beber. Pense em como ter uma vida de privações valeu a pena para juntar todo esse patrimônio. Ignore sua mulher infeliz e seu filho revoltado. Morra sozinho. De tanto beber.

Simpatia para ser feliz
Pense pouco. Confie nos amigos. Beba muito.

sábado, 19 de março de 2011

Fight Club


Não estou querendo dizer que com todo mundo é assim, e muito menos querendo indicar isso pra ninguém como filosofia, mas a verdade é que sempre achei necessário ter uma certa raiva do mundo. É meio chocante, eu sei, e provavelmente você não vai achar pra vender algum livro de auto-ajuda que o aconselhe a fazer isso pra ter sucesso na vida. Mas pra mim tem funcionado desde sempre e, pra falar a verdade, é uma das características que me define mais categoricamente.

You do not talk about Fight Club.  

Digamos que raiva não seja o termo mais correto, mas eu preciso antagonizar o mundo (não o mundo todo, obviamente, que eu não tenho talento pra psicopata) pra lutar com mais élan, por assim dizer. É como o técnico do boxeador, que antes da peleja esbofeteia seu pupilo para fazê-lo entrar com mais garra no ringue. O cara não começa a luta com raiva do adversário, como eu não tenho raiva de nada em especial, mas parece que dá uma turbinada a mais no garoto.

If someone yells "stop!", goes limp, or taps out, the fight is over. 
 
Se você substituir a palavra "mundo" por "sistema" o texto fica bem mais palatável, mas seria hipocrisia, de qualquer jeito. "Sistema" nada mais é do que o que nós fizemos com o "mundo". Pra mim tanto faz. Cada desafio que a vida me apresenta é um obstáculo a mais pra onde eu quero chegar, e isso me aborrece. E aborrece não por ser o que ele é (um obstáculo), mas por estar onde está (no meu caminho). E aí me vem uma raiva, uma vontade de espezinhar esa barreira, de suplantá-la e humilhá-la. É o meu espinafre.

Only two guys to a fight. One fight at a time, fellas.
 
Alguém vai dizer que não é recomendável pro fígado. Outros podem lembrar que a culpa é do meu sangue quente, herança do Vêneto. Já me disseram que essa imagem de irascível, belicoso, não é boa pra mim. Não sei. Só sei que funciona. E pior: quando não acontece é porque alguma coisa está muito errada. Quando eu perco a vontade de brigar, perco a vontade de viver. Já aconteceu uma vez, e eu não deixo acontecer mais.

The fights are bare knuckle. No shirt, no shoes, no weapons.
 
Claro que não é simples viver nesse fio de navalha. Há que se tomar muito cuidado pra evitar o vão combate, como diria Marguerite Yourcenar, pra não dar porrada em quem não merece. E reconheço que deve ser meio cansativo pra quem está do meu lado. Malcomparando, há horas em que entro de armadura num aniversário de criança. Tem gente que deserta dessa armada. E, no fim, em algum momento, sempre se corre o risco de virar um cavaleiro de triste figura, batalhando contra moinhos de vento.

Fights will go on as long as they have to.
 

Mas, é como eu disse, faz parte de mim, é difícil mudar. Já me tirou de vários fundos-de-poço e hoje em dia eu cuido pra não machucar ninguém mais do que o necessário. Por quê? Achou ruim? Algum problema?

Welcome to Fight Club. If this is your first time, you have to fight.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Deusas e Devassas


Ainda me espanto, quando encontro pessoas que não via há algum tempo, e uma das primeiras coisas que me perguntam é se continuo galinha como sempre. E tem gente que até me cobra quando vou falar de mulher no blogue. É uma das minhas características mais marcantes, pelo que parece. Eu ouço como se fosse estivessem falando de um parente distante, ou de alguém que eu só conheci de nome. Primeiro porque nunca tive currículo de galinha (mas tenho muitos amigos que dariam inveja ao Casanova), depois porque, se alguma vez eu pude ser considerado volúvel em relação às mulheres, esse tempo já passou tem alguns anos.

A verdade é que já fui acusado, na juventude, como todo homem, de machista, manipulador, superficial, mulherengo, misógino, problemático e filho-da-puta uma penca de vezes. Igualmente, já fui exaltado como conquistador, garanhão, Don Juan e boa-vida. Por outro lado, há muitos amigos que acham que estou esperando apenas o tempo certo pra descobrir que, na verdade, meu negócio é homem.

Tive, sim, mulheres (porra, Martinho!) - na mesma medida em que elas me tiveram - brejeiras, bugras, intelectuais, rameiras, messalinas. Tive mulheres sempre que quis. Casadas, virgens, lésbicas, frígidas e crentes. Lusas, mouras, americanas, latinas, orientais e africanas. Mulheres do samba e do rock, do jazz e do tango, assim como, imagino, as teve todo homem. Já viajei entre Lolitas, Bovarys, Capitus e Gildas. Carmens, Ritas, Irenes e Carolinas também já passaram por minhas mãos como mulheres de carne e osso.

Também como todo homem, já conquistei mulheres impossíveis, daquelas que nunca se imagina conseguir. Já perdi meses desejando mulheres fáceis, mas que prefeririam ir pra cama com febre do que comigo. Já desperdicei o tempo e o amor de moças fenomenais, e já sangrei por várias outras, que nem sempre mereceram meu sentimento parco e sofrido. Decepcionei mulheres porque elas achavam que nunca conseguiria deixar de ser libertino, ou porque perceberam que eu não poderia ser tão canalha quanto elas esperavam.

Já imaginei o amor como um jogo de poder e posse, onde valia mais a hierarquia do que a sinceridade. Tive amores desses do estilo Clarice e Sessão da Tarde, e outros amores de Leminski e Elis. Já classifiquei mulheres em números ordinais, mais do que pelo prazer da sua companhia, e fui aprendendo com a experiência a perceber as mulheres muito mais do que a maioria dos homens. Deu pra sacar muito cedo que, mesmo quando acreditei que as colecionava, era eu quem fazia a sua vontade. Aprendi a amá-las pelos detalhes, por coisas que nem elas percebiam que tinham. Hoje me apraz tanto um belo sorriso quanto um lindo traseiro, gosto tanto dos olhos que brilham quanto dos que flertam. 

A vida claro, me deu uma filha, como eu sempre quis, e cuidou para que eu não pudesse viver sem ela, pois meu destino sempre foi ser escravo de uma mulher. E o meu sonho é que, quando a minha pequena crescer (e falta tão pouco), com a beleza da mãe, e os olhos verdes que ela roubou não sei de onde, vai fazer a alegria e o inferno de outros pobres homens. Poucos, se não for pedir muito. E vai ser feliz errando, como foi o pai dela, porque essa é a maldição da minha hereditariedade.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Lost in Translation*


Acabei de assistir Biutiful do Iñárritu e fiquei encucado com uma coisa, que achei interessante de dividir. Não tem nada a ver com as implicações filosóficas do filme, porque procuro me abster de fazer resenha no blogue, a não ser quando acho absolutamente indispensável. O que me chamou a atenção foi a felicidade de não terem traduzido o título do filme.

De inclinação mais pragmática do que obstinada, nunca me preocupei muito em estudar exaustivamente as línguas. Falo inglês o suficiente pra fazer compras em Nova York e espanhol apenas pra assistir tango em Buenos Aires. Por isso acredito que várias gafes de tradução devem ter-me passado incólumes, principalmente as mais elaboradas, que a galera do Itamaraty costumava discutir nas mesas de boteco.

Mas título de filme e música é um caso à parte. Tá sempre na cara. O sujeito aqui no Brasil pega o filme ou a letra pra traduzir e fica imaginando se a galera, que ele imagina que seja subtancialmente mais imbecil que a do estrangeiro, vai entender a coisa do jeito que está. Aí sempre saem umas pérolas.

Tem aqueles que tentam explicar o filme em uma sentença. Jaws, por exemplo, virou Tubarão. Nada grave, mas acho que se estivese escrito Mandíbulas no cartaz do filme, já daria pra entender. Se o cara quisesse que o filme se chamasse Tubarão, chamaris de Shark, eu imagino. Tem também os epítetos dispensáveis, completando o título original: Pulp Fiction - Tempo de Violência, e JKF - A Pergunta Que Não Quer Calar.

E tem os que simplesmente cagam pro significado original. O verso original de Hey Jude passou de "remember" para "esqueça" na versão do Zambianchi, e o refrão de I'm a Believer dos Monkees, Lulu Santos traduziu como "não acredito". Annie Hall, do Woody Allen, sabe-se lá por que, virou Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. E não é só no Brasil que dá pra encontrar essas bizarrices. Em Portugal, U Turn, do Oliver Stone, é SEM Retorno!

Um amigo meu, esse sim estudioso de quase todos os idiomas do mundo, me confessou uma vez que de todas essas parvoices, as que mais o irritam são aquela traduções em que os caras simplesmente colocam uma palavra qualquer seguida da expressão  "da pesada" ou "do barulho". Os exemplos são quase infinitos: Uma Família da Pesada (Family Guy), Um Tira da Pesada (Beverly Hills Cop), Uma Arma do Barulho (Gotcha), Férias do Barulho (Private Resort), e por aí vai.

Tirando por alguns dos exemplos anteriores, não duvido que Biutiful, se resolvessem traduzir, poderia se transformar em algo como Bunito ou Coisa Marlinda.

* A título de curiosidade, Lost in Translation é o nome de um filme da Sophie Coppola que no Brasil é conhecido como Encontros e Desencontros.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Filma nóis, Galvão!

Certa vez conheci um produtor musical cuja maior conquista profissional, como ele mesmo alardeava, era ter quase descoberto a Maria Gadu para o mundo. Segundo ele, pessoas próximas o alertaram que havia uma menina muito talentosa tocando num bar na Barra da Tijuca. Por um motivo que não achei importante gravar na memória, o coitado faltou à apresentação da moça, outro produtor musical aproveitou a chance e nosso herói continuou sendo o merda de sempre.

Minha mãe tem uma foto onde ela aparece pendurada no ombro do Lula. Pelo que sei, foi num desses eventos que o ex-presidente costumava aparecer, tipo inauguração de obra em andamento, e juntava um monte de funcionários públicos de esquerda, que o consideram um pop star, quase um santo. Aí ficava um monte de gente pulando no pescoço dele e, se desse sorte, algum outro doido tirava uma foto. Não teve discussão filosófica, lição de vida, somente uma fração de segundo. Mas de qualquer forma, a tal foto foi sistematicamente distribuída nos e-mails da minha família, com textos de exaltação e como prova incontestável do caráter probo do conhecido político.

Por que nos dão satisfação essas manifestações? Qual a importância de eternizar um momento que não significou nada? Temos prazer em dizer: "Meu irmão é conhecido do motorista de Fulano" ou "Você não vai acreditar, ficamos no mesmo hotel de Sicrano". Já perdi algumas horas pensando sobre isso e não me vem nenhuma explicação satisfatória. Talvez nos seduza a informação meramente por ser pitoresca, tavez acreditemos na elevação espiritual que um momento cmo esse possa ter. Não sei e não me interessa.

De minha parte, pouco me apetecem essas demonstrações de fidalguia, principalmente as extremamente efêmeras. Se o Selton Mello viajar na avião ao meu lado, parabéns pra ele. Vai receber o mesmo tratamento que eu daria a uma pessoa comum: o completo desprezo pela sua existência. Desde, é claro, que não colocasse o braço no meu encosto. E, ademais, acho que tanto ele quanto o Lula ou a Maria Gadu teriam muito mais sorte em me conhecer do que o contrário.

Claro que eu tenho ídolos. Quase todos mortos, infelizmente. Mas se fosse pela tietagem, teria que valer a pena, como momento. Pra me mobilizar a tirar uma foto, puxar conversa, teria que rolar um desenho autografado do Laerte, uma discussão teórica com o Paulo Medes da Rocha, uma noite de maconha e rum com o Pedro Juán Gutiérrez. Sexo com a Marisa Tomei tamém seria uma boa pedida.

Nas minhas idas ao Rio, não raro topávamos com o digníssimo Chico Buarque de Hollanda, em seus shorts (esses não tão digníssimos), fazendo sua caminhada diária no calçadão do Leblon. Para valer o esforço de levantar do quiosque onde eu me encontrava e importuná-lo, só se ele estivesse de violão em punho, pronto pra tocar "Caçada" só pra minha galera. Ou, ainda, se ele sentasse na nossa mesa pra tomar umas com a gente. Se resolvesse pagar a conta então, melhor ainda. E aí eu até deixaria ele contar a história de como me conheceu pros netos.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Core


Bem-vindo ao meu planeta. Não é um astro especial, incomum. Não possui anéis reluzentes a sua volta, tampouco brilhos espetaculares ou órbitas erráticas dignas de nota. É um planeta pequeno, afastado de sua estrela, acanhado como milhares de outros dispersos pelo universo afora.

Não há vida em sua camada externa, tampouco atmosfera respirável. Somente uma crosta escura, espessa e rugosa, com aspecto de sangue seco, endurecida pela expectativa dos desastres que não ocorreram. Seu relevo desolador e acidentado é eventualmente escariado por cicatrizes e sulcos, cujo tamanho não justifica a robustez do manto. A casca do meu planeta aguarda a colisão de um cometa que nunca vem. Pulsa e lateja, algumas vezes como um botão em flor, outras feito uma chaga infecta.

A segunda camada é macia e branca, e jaz protegida pela solidez do nácar que a envolve. É amorfa e mole, e tornou-se tão vulnerável que provavelmente uma mera brisa bastaria para produzir-lhe mágoa. Nessa camada poderia crescer a vida, mas não lhe alcança a luz do sol para aquecer os corpos, e as sementes permanecem, então, latentes, esperando para acontecerem.

O estrato seguinte é um turbilhão alucinado de ventos provenientes de memórias e medos. Alísios que correm a velocidades assustadoras carregam a expectativa do pior das pessoas, e alimentam a dureza da camada externa. Nessa camada são gerados os golpes que poderiam acontecer, as traições que poderiam me magoar, as derrotas inevitáveis. É a área onde o futuro do pretérito, ao som do ulular dos ventos, personifica o presente do indicativo.

Por fim, resta o núcleo. Feito de amigos e amores, de infâncias e famílias, quente e denso, como uma floresta tropical. Nesse núcleo encontram-se os mares, os desertos, as matas, a montanhas. É nele que se acham os povos, as canções, os sorrisos e as vitórias. No coração do planeta há calor para o seu sistema inteiro. É capaz de atrair as luas e orientar as estrelas.

Contudo, no centro do astro, o coração dorme. E o meu planeta vive em órbita estacionária, sem invernos ou noites, mas sem vida e sem luz.