segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Overture


Ai, minha amada, quando tu vieres me encontrar, não me busques olhando para o alto, porque lá tu encontrarás somente os que voam, e saibas que tenho os pés melancolicamente ancorados à terra. Não demores tua vista nos pedestais das praças, nos obeliscos, nos monumentos, pois estes são reservados apenas aos heróis da pátria, e tudo que pude fazer foi tentar ser eminente em minha própria vida. Não folheies os mapas, os livros de História, porque tu sabes bem que eles foram escritos por aqueles que ganharam as guerras, e minhas batalhas foram miseravelmente ridículas para figurarem entre vitórias.

Se tu quiseres me achar, amada minha, procura-me nos olhos dos meus filhos, nas lágrimas dos familiares, pois foi a eles que atingi com mais ardor com os labéus da minha existência. Tu me encontrarás mais facilmente entalhado no coração dos que amei do que nos bustos dos panteões do mundo. Busca-me no farfalhar das asas das borboletas de teu próprio estômago, nas tuas mãos transpirantes, que me perceberás com mais facilidade do que nos cartazes dos musicais ou nos créditos finais dos filmes. Não esperes ouvir meu nome nos Caetanos, nos Nerudas, nos malditos, pois ele só estará presente quando os Joões fremirem, quando as Marias chorarem.

Melhor será ainda - amiga querida - que não necessites campear-me. Quando a vida cansar de evitar-nos, tu me acharás logo ali, sentado próximo ao lugar comum, abancado no centro de onde tu nunca pensastes em investigar. E aí serão escritas as nossas histórias, erigidas as nossas estátuas, crescerão as nossas asas. Exatamente como tu nunca esperastes, e como eu jamais soube escrever.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O sistema não quer que eu case


É isso mesmo que você leu. Esse texto vai parecer um pouco paranoico, mas parece mesmo que o sistema não quer que eu case. Nem você ou qualquer outro, aliás. Não que não vá acontecer, mas se lograrmos esse feito, estaremos nadando contra a maré. Muita gente conseguiu e consegue, tentando bem menos, reconheço. Mas, analisando bem, temos sidos compelidos paulatinamente à misantropia.

Senão vejamos: antigamente, a gente tinha um carro por família, mesmo as maiores, e, quando muito, tinha uma só TV em cada casa, na sala de estar, que todo mundo se embolava pra ver a novela, e depois do Jornal da Globo saía do ar e babau. Telefone (lá em casa chegou a ter um daqueles de manivela) era coisa pra rico e o jeito era ficar perto do aparelho ou decifrar os recados que a empregada deixava. Hora do almoço e do jantar era sagrado e a gente morria de fome até o pai e a mãe chegarem em casa pra gente poder comer todo mundo junto. Férias era pra onde meu pai decidisse, que era ou a casa da minha avó ou uma praia onde algum amigo tivesse casa, e nunca tive ideia de que a gente tivesse opção pra ir pra outro lugar com outras pessoas.

Eu sou fruto dos tempos modernos, e nem estou aqui pra reclamar, mas a verdade é que no interregno de apenas alguns lustros, mudou todo o esquema. Cada adulto economicamente ativo, hoje, tem que ter o seu próprio automóvel, e cidades como Brasília já têm quase um carro para cada dois habitantes, se não me engano. Como arquiteto, acompanhei a evolução da TV na sala de estar para a criação da sala de TV (que geralmente dividia espaço com o quarto de hóspedes), depois, finalmente, para a invenção do famoso home theater. Os quartos, que antes eram comuns a todos os filhos, e acolhiam, além das camas, nossas escrivaninhas e os segredos e cumplicidades dos irmãos, agora comportam uma única pessoa, acompanhada de seu respectivo closet, seu banheiro, seu home office com seu próprio computador e, é claro, sua TV, já que é um saco dividir o tal home thater com o resto da família.

Parece desabafo de velho, daquele tipo "no meu tempo era melhor", mas o meu ponto é justamente o contrário. Moro num flat pequeno (não minúsculo), com cozinha americana, estar, closet, quarto, banheiro e varanda. Aliás, alguém já teve a curiosidade de perceber como aumentou a oferta de kits e flats? E isso me basta. A cozinha não permite que a gente espere a mãe fazer bolinho de chuva e peça pra raspar a massa crua da tigela, e a mesa de jantar é somente uma bancada com banquetas altas, o que me faz preferir comer sentado na cama vendo televisão, mas posso viver tranquilamente assim. O meu carro é mais batido e sujo do que o aconselhável, mas me leva e traz pra qualquer lugar em qualquer horário, fazendo com que eu não dependa de ninguém, mesmo daqueles em quem eu mais confio. Até minha cama, que em algum ponto deixou de ser de solteiro porque o tamanho já não bastava, continua sendo suficiente somente para mim, e o mero fato de alguém invadir esse meu espaço tão íntimo por mais tempo que o essencial já me causa desconforto.

Todas essas facilidades acabam fazendo com que a gente ache que não precisa de ninguém. Não precisamos confiar no analfabetismo funcional da empregada para anotar nossos recados. Não precisamos de carona, palpite, não nos submetemos à vontade dos nossos próximos, não precisamos fazer concessões. E nos viciamos nessas liberdades. Claro que desejamos contato humano, mas em certas horas até isso pode ser doloroso. Ansiamos por companhia, desde que em pílulas. Queremos viajar, conhecer o mundo inteiro, mas o melhor momento da viagem é a volta pra nossa casinha. E aí, na hora que conhecemos alguém, e se abre a perspectiva de abandonarmos nosso pequeno reino, é preciso muita coragem e muita certeza. Eu mesmo já fui testemunha e vítima de como nos tornamos pragmáticos até para o amor. Casamos pra dormir em camas, morar em casas separadas. Planejamos uma família pra acontecer depois do sucesso profissional e financeiro, que às vezes não chega nunca.

E agora vem a paranoia: o sistema não quer que você morra sozinho, mas quer que você consuma mais e mais. E pessoas sozinhas (em seus mundos, pelo menos) compram muito mais do que juntas. Uma família em que todo mundo vive isolado precisa de uma TV pra cada quarto, um computador, um carro, um sonho, um espaço. Um apartamento para um casal é mais barato do que o meu flat e a kit da mulher que o universo me reservou. É conveniente pro sistema que eu viva e morra sozinho, e que eu beba e tome remédios pra aplacar a ansiedade e depressão dessa nova condição. E por aí vai, os exemplos são inúmeros.

Logicamente que ninguém é obrigado a viver segundo essas indicações, e eu mesmo já disse lá em cima que muita gente faz isso. Provavelmente, minha vida de solteiro vai ser mais consequência das minhas idiossincrasias do que das vontades de um monstro abstrato que eu criei como justificativa, mas, assim como em várias outras áreas, não custa nada lembrar como nossa vida moderna está apontando contra nossa tendência gregária natural. Além disso, não estou aqui pra falar mal de mim, que até o momento, tenho sido o melhor roommate que eu poderia querer. Depois, no fim das contas, também tenho meus sonhos, espero meus cavaleiros, e quero acreditar que, como cantava a Bethânia, "toda razão, toda palavra, vale nada quando chega o amor".