sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Os Dez Mandamentos


Ato I. Deus e Moisés no alto do Monte Sinai.

Deus: Diga lá, Moisés!

Moisés: Oi, Deus...
D: Como é que vai essa força?
M: Meio cansado de subir esse monte toda hora.
D: Calma que tá acabando. Preparado?
M: Preparadaço. Cadê as tábuas dos mandamentos?
D: Tábua. Coube tudo numa só. A outra encostei aqui no canto.
M: Só? Eu tava pensando nuns seiscentos e poucos mandamentos. Mas como o Senhor fez pra caber todas as Tuas ordens num mísero pedaço de pedra?
D: Não tem muitas ordens não. Deu até pra esculpir em letra grande. Na verdade, é só essa aqui, ó.
M: "Faz o que tu queres, pois é tudo da Lei"?!?!
D: Legal, né? Acho que dava até música...
M: Mas, Senhor?! O Senhor deve estar de sacanagem comigo. Tem uma penca de judeu faminto me esperando lá embaixo, no deserto. Eu jurei que ia rolar uma revelação! Tem que ter um mise-en-scène, caceta! O que eu vou dizer pra minha mãe?! Joga um trovões e uns raios aí, pelo Seu amor! A sarça ardente! Cadê a sarça ardente?!
D: Deixa disso, Mô. Não precisa, deixa a negada ser feliz. Cada um no seu quadrado.
M: Mas isso é inaceitável!!! Deve ter mais alguns mandamentos para colocar. Bora colocar um sobre não cobiçar a mulher do próximo, porque acho que um escravo do Hur tá crescendo o olho pra cima da esposa do Aisamaque, ainda vai dar chabu.
D: Nops, deixa do jeito que tá mesmo. A gente fica proibindo demais, depois essa gurizada acaba crescendo rebelde. Eu vi isso na Supernanny.
M:O Senhor não tá entendendo. Ser humano é bicho ruim, precisa botar limite senão vira bacanal. Vamos proibir assassinato, roubo e mentira, pelo menos.
D: E por acaso precisa escrever isso numa pedra? Todo mundo já sabe dessas coisas. Esquece isso, garotinho. Agora desce lá, que eu tenho que dar uma geral aqui no meu pedaço.
M: Bom, já que o Senhor já bateu o martelo, posso pelo menos usar Seu banheiro divino?
D: Claro! É no fim do corredor, só toma cuidado que o chão da sala tá cheio de poeira e lasca de pedra.
***

Ato II. Deus sozinho no Seu apartamento no dia seguinte.

Deus: Ué? Cadê meu cinzel? Eu podia jurar que tinha deixado ele aqui em cima da mesa... Pensando bem, também não vejo minha outra Tábua da Lei desde ontem...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Associação dos Adoradores de Esfinges


" Entre os desejos e as realizações destes, transcorre toda a vida humana" 
Arthur Schopenhauer, patrono da Associação dos Adoradores de Esfinges 

- Bem-vindo à reunião aberta semanal da Associação dos Adoradores de Esfinges. Como todos sabem, essa é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem dos efeitos dessa síndrome tão comum nos dias de hoje. Adorador de esfinges, para quem está conosco pela primeira vez esta noite, é aquele só quer o que não pode ter. Depois, quando o objeto de desejo deixa de ser proibido ou impossível - ou seja quando não há mais esfinge - o interessa acaba e ele se volta pra outra cruzada quixotesca qualquer. Os portadores dessa doença sofrem diuturnamente, pois qualquer acontecimento cotidiando pode se transformar num objeto de calvário. Um adorador de esfinges, em estágio terminal, quer pintar O Nascimento de Vênus, escrever Crime e Castigo, descobrir a cura da solidão. Apaixona-se por atrizes de cinema, musas da literatura, mulheres que passam velozmente nas janelas dos ônibus, que sentam na poltrona ao seu lado no teatro. Um adorador de esfinges quer morar nas highlands escocesas, nos desertos da África, nas neves do Tibet. Quer ficar só quando está entre outras pessoas e chora de solidão quando o telefone não toca à noite. Essas pessoas tendem a ser depressivas e a viver eternamente insatisfeitas. Por essa razão estamos aqui hoje para consolar essas pobres almas atormentadas, não é mesmo, meus amigos? Passaremos agora para o testemunho dos nossos participantes. Alguém quer começar?
 
- Boa noite, meu nome é Marcelo e eu sou um adorador de esfinges...