terça-feira, 19 de outubro de 2010

Hipopotomonstrosesquipedaliofobia



Me disseram pra ter medo de ladrão, de guerra atômica, de barata, de fantasma e de gonorréia. Pra ter muito cuidado com os carros, com avião e elevador. Me ensinaram a ter fobia de morrer sozinho, e a ter aversão a multidões e compromisso. Me cagaram todas as regras pra me deixar com medo de açúcar, de sal, de coca-cola, de gordura hidrogenada, de fogo, de terra, e de altura. Me disseram pra nunca, nunca mesmo, falar com estranhos.

Me ensinaram a sentir vergonha do meu corpo, dos meus prazeres, dos meus sentimentos. Me condicionaram a dissimular o que eu penso pra evitar que riam de mim. Me contaram que eu não podia achar um amigo bonito. Me explicaram que macho deve ter vontade de trepar todo dia com o maior número de mulheres possível. Me ensinaram também que homem era um animal poligâmico e mulher, bicho abstêmio.

Me adestraram a sentir culpa por não querer almoçar com tanta fome no mundo. Me confundiram ao me explicar a lógica distorcida pela qual algum menino pobre ficaria com os meus presentes caso eu não me comportasse. E eu fiquei com raiva do menino pobre. Me explicaram que era pecado eu sentir tesão pelas minhas vizinhas e primas, e que eu ia pro inferno se continuasse com aquela semvergonhice no banheiro.

Me contaram que eu devia respeitar os mais velhos, mesmos os mais cretinos, como se velhice fosse necessariamente sinônimo de sabedoria. Me deixaram bem claro que antiguidade é merecimento. Me deram a missão de absorver as hierarquias, e aceder a chefes e colegas de trabalho imbecis. Me coagiram tanto a respeitar famílias, Estados, Igrejas, professores, trânsito, maiorias e minorias, que sobrou muito pouco tempo e vontade pra respeitar a mim mesmo. Me disseram que pra acreditar em Deus não é preciso prova de que ele existe.

Me mandaram escovar os dentes quatro vezes ao dia e agora descobriram que o negócio mesmo é limpar a língua. Juraram que menino não chora, que brinca de carrinho e joga futebol. Me ensinaram que bom mesmo é querer tudo que agente não tem, e que um remedinho barato pode curar a frustação de viver sem satisfação. Me fizeram esperar anos pra ser adulto só pra depois passar horas querendo ser criança de novo.

E agora, tudo que eu mais queria era esquecer de tudo e começar de novo....

16 comentários:

Cela disse...

Sobreviveu a tudo isso? tem se saído bem. :-) Sempre bom ler Faccenda.

Marcelo Faccenda disse...

Todos nós sobrevivemos, Celinha... No fim, todo mundo sobrevive... :o)

Camila disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dani Lucyk disse...

Adorei!!! =)

Marcelo Faccenda disse...

Camila, esse não é um post meramente biográfico. Todo mundo já sofreu ou sofre esse tipo de lavagem cerebral. E o pior é essa fala sensação de liberdade. Algumas coisas, nós realmente desobedecemos... Já outras... Beijos daqui!!!

Marcelo Faccenda disse...

Dani!!! Sempre adoro quando vc aparece! Que bom que vc gostou! Beijo!

Cela disse...

É que ando assim, assim ... sem saber se realmente sobrevivi ou se o meu "isso aqui" é só 'balela' ... bjinho

Juliana Caribé disse...

Marcelo, acho que esse texto é o melhor dos seus que eu já li. Senão o melhor, o mais verdadeiro. Senão o mais verdadeiro, um dos que mais me tocou. Porque me vi em cada linha, cheia desses medos que me impedem de ser totalmente o que eu gostaria ou o que eu sou. Quem nunca ouviu frases como essas que você listou? Dizem até que o medo é essencial à sobrevivência. Será que é mesmo? Será realmente necessário temer a tudo e a quase todos para viver seguro Até que ponto vale a pena? Eu, se pudesse, pegaria todos e cada um dos meus medos e os cremaria. E os deixaria ao vento, pra não voltarem mais. Cinzas, apenas. É uma pena não poder. Quem é que tem o direito de nos dizer o que fazer, o que amar, do que sentir vergonha, o que devemos respeitar? É uma pena saber que eles esses medos e essas pessoas vão sempre existir, voltar, crescer. É uma pena, porque eu também só queria começar de novo...

Marcelo Faccenda disse...

Ju, pra escrever esse post eu usei muito das minhas memórias pessoais, mas sei que tem muita gente que ouviu e ainda ouve muita coisa sobre medo, vergonha e culpa... Tenho curiosidade pra saber como eu seria se não tivesse ouvido toda essa baboseira... Realmente é uma pena que a gente não possa tomar um banho pra tirar esse ranço... beijo!

Irene disse...

Puxa Cielo, acho que pra gente, que já se tornou adulto, não tem mais jeito, é seguir em frente, filtrando aquilo que realmente é aceitável e adequado para si, ou do contrário, se sofre muito. Quando questionamos muitos desses "ensinamentos" nos dizem, ou subentendem, "se err(ei)amos, foi tentando acertar", mas sempre dentro do universo limitado daquilo que se tinha ou se podia oferecer.
Vc tem uma linha e querida filhinha, e não lhe falta inteligência, discernimento e sensibilidade, mesmo construídas em meio a tantas incoerências, para torná-la uma pessoa adulta, quiça muito mais feliz do que somos, hoje.
Beijos e dias melhores, meu querido anjo!

Marcelo Faccenda disse...

Pois é, Irene.. Por um lado, escrevi esse post pensando muito na Gigi, que já está virando adolescente e mostrando que também está impregnada desses medos e vergonhas, mesmo que tenha sido uma preocupação muito grande minha tentar preservá-la disso tudo...

Ju Borges disse...

Pra que ficar com tanta raiva das coisas da vida?
Julgamentos, condições e crenças fazem parte, eles são crianças birrentas que só querem atenção e como tal ,a solução é escutar atentamente,com carinho esperar que se acalmem e botá-los para dormir.
Nem tudo que nos impõe acatamos e por mais que internalizemos algumas coisas,o importante é o que fazemos com essas crenças.

A vida ensina e ela não é ruim por isso. :)

Ainda bem que temos cabeça para discernir e pensamentos para nos ocupar \o/

Medos?estou aqui os enfrentando,eles me ajudaram muito,me preservaram de muitas coisas e os que não me servem, tento matar sem dó

Pode até ser divertido
Beijinhos e touché!

Ps:Every passing minute is another chance to turn it all around.:)

Marcelo Faccenda disse...

Raiva da vida? Em nenhum momento eu disse isso... Como vc mesma disse, essas coisas fazem parte da vida. A vida ensina, mas as pessoas manipulam, fogem, e a gente só aprendeo que quer... Mas a vida é ótima assim mesmo, não posso reclamar não. Beijo!

Irene disse...

Eu compreendo!
De fato, as coisas não são tão simples assim....
Diferente do nosso tempo e vindas de todos os meios de comunicação possíveis, as crianças sofrem uma quantidade bem maior de estímulos e influências que, em sua grande maioria, apresentam-se extremamente maléficas. Não dá para controlar... e por mais preparados estejamos, não conseguimos vencer essa guerra.
Meus sobrinhos, por exemplo, estão ficando cada vez mais consumistas. Nada parece satisfazê-los durante um tempo razoável e há uma mensagem velada na mídia de que “o ter” é mais vantajoso do que “o ser”.
...E nessa "guerra", a munição do inimigo tem se mostrado cada vez maior e destrutiva! (a propósito, o desenho do post é bastante curioso!)
(…)
É sempre bom vir aqui! Adoro essas provocações, que sempre me despertam da rotina alucinante que levo na vida. Parabéns pelo post e tb. pelo blog!
Beijos.

Mari disse...

Adorei esse!!!
Beijos

Marcelo Faccenda disse...

Que bom, chuchu... Volte sempre, viu? Beijos!