sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Little Women



Passavam os dias a tricotar, as mulheres da minha família. Minha mãe, minha vó, minhas tias e madrinha. Não só tricô, na verdade, mas uma infinidade de trabalhos manuais: crochês, bordados, macramés, pequenos consertos em roupas. Gastavam eternidades de olhos baixos, por vezes semicerrados, perdidas em suas próprias divagações, imaginava eu.

Intrigavam-me tanto essas mulheres que - como boa criança - resolvia importuná-las sempre que podia, a tentar descobrir a mágica daqueles pequenos trançados. Cercava-as com olhos demasiadamente castanhos e grandes, rodeados pelas bochechas rosadas (sim, eu fui uma criança fofa, apesar de tudo). Colocava minha cabeça redonda na frente das agulhas e das telas, puxava com falso desinteresse os fios, até conseguir ser inquirido sobre minha reais intenções. Dessa maneira, minhas avós pacientemente, introduziram-me - para desespero de meu pai, imagino - aos princípios básicos do crochê e do bordado, e ensinaram-me a cerzir pequenos tecidos, prender botões. Essa aprendizagem me foi útil em vários momentos da vida, e até hoje consigo coser, ainda que de maneira rudimentar, alguns rasgos das roupas da minha filha, quando necessário.

Mas até hoje me pergunto o que pensariam aquelas mulheres tão caladas naquelas horas, tão circunspectas, que em outras ocasiões mostravam-se até boquirrotas, gargalhando muito alto, como boas correntinas e italianas? Tempos depois, em meus delírios, imaginava que estariam a desfiar, juntamente com os novelos, os destinos de nossa família, utilizando a artimanha da boçalidade dos trabalhos manuais para preservar em nós, homens, a ilusão de que mantínhamos as rédeas de nosso heterogêneo rebanho.

Quem desconfiaria, afinal de contas, de mulheres a tricotar como vacas ruminando, mesmo que dessa atividade decorressem muito mais colchas e toalhas do que o realmente necessário, pulôveres com mangas inimaginavelmente extensas, e rendas que pipocavam em qualquer pedaço de fazenda se apresentasse nu pela casa. Nomes completos em uniformes e cuecas, toucas e luvas coloridas como árvores de natal sempre apareciam, e até os próprios enfeites da árvore, por que não dizer? 

A revolução dessas mulheres obviamente não veio. O tempo passou, inexorável e impiedoso. Nenhuma delas foi presa pela ditadura, nenhuma assanhou os cabelos nos anos sessenta, nem conheceu outro mundo que não a circunscrição imediata de nossa família. E passaram, enfim, aquelas mulheres, ano a ano, pouco a pouco, uma a uma. Passaram também minha infância,  minha terra, minha família.

A realidade, muito mais do que o tempo, encarregou-se de afastar-me dessas mulheres. Minhas experiências e objetivos distanciaram-me inapelavelmente de meu passado, deixando apenas uma lembrança tênue daquelas telas e novelos. Entretanto, sempre que vejo - o que é cada vez mais raro - uma mulher perdida em si mesmo a movimentar sistemática suas agulhas, fico a imaginar por onde andarão seus pensamentos, e se suas aspirações serão mais ou menos ambiciosas que as das mulheres da minha família.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Hipopotomonstrosesquipedaliofobia



Me disseram pra ter medo de ladrão, de guerra atômica, de barata, de fantasma e de gonorréia. Pra ter muito cuidado com os carros, com avião e elevador. Me ensinaram a ter fobia de morrer sozinho, e a ter aversão a multidões e compromisso. Me cagaram todas as regras pra me deixar com medo de açúcar, de sal, de coca-cola, de gordura hidrogenada, de fogo, de terra, e de altura. Me disseram pra nunca, nunca mesmo, falar com estranhos.

Me ensinaram a sentir vergonha do meu corpo, dos meus prazeres, dos meus sentimentos. Me condicionaram a dissimular o que eu penso pra evitar que riam de mim. Me contaram que eu não podia achar um amigo bonito. Me explicaram que macho deve ter vontade de trepar todo dia com o maior número de mulheres possível. Me ensinaram também que homem era um animal poligâmico e mulher, bicho abstêmio.

Me adestraram a sentir culpa por não querer almoçar com tanta fome no mundo. Me confundiram ao me explicar a lógica distorcida pela qual algum menino pobre ficaria com os meus presentes caso eu não me comportasse. E eu fiquei com raiva do menino pobre. Me explicaram que era pecado eu sentir tesão pelas minhas vizinhas e primas, e que eu ia pro inferno se continuasse com aquela semvergonhice no banheiro.

Me contaram que eu devia respeitar os mais velhos, mesmos os mais cretinos, como se velhice fosse necessariamente sinônimo de sabedoria. Me deixaram bem claro que antiguidade é merecimento. Me deram a missão de absorver as hierarquias, e aceder a chefes e colegas de trabalho imbecis. Me coagiram tanto a respeitar famílias, Estados, Igrejas, professores, trânsito, maiorias e minorias, que sobrou muito pouco tempo e vontade pra respeitar a mim mesmo. Me disseram que pra acreditar em Deus não é preciso prova de que ele existe.

Me mandaram escovar os dentes quatro vezes ao dia e agora descobriram que o negócio mesmo é limpar a língua. Juraram que menino não chora, que brinca de carrinho e joga futebol. Me ensinaram que bom mesmo é querer tudo que agente não tem, e que um remedinho barato pode curar a frustação de viver sem satisfação. Me fizeram esperar anos pra ser adulto só pra depois passar horas querendo ser criança de novo.

E agora, tudo que eu mais queria era esquecer de tudo e começar de novo....

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Carpinteiro do universo



Melhor ainda do que fazer algo produtivo, pra mim, é a oportunidade de corrigir pequenos defeitos nas coisas já realizadas. Não que eu saia fazendo isso por aí, que não sou doente. Imagine um cara no ônibus ajeitando a gola da sua camisa, ou colocando a etiqueta pra dentro. Meio freak, né?

Mas se, de repente, eu pudesse sair por aí aperfeiçoando algumas pérolas da arte universal? Seria perfeito, não é?

No fim da década de 1930, por exemplo, eu poderia encontrar o Ari Barroso, em casa, compondo Aquarela do Brasil:

- Porra, Ari! "Meu Brasil brasileiro" vá lá, mas "coqueiro que dá coco"???? E coqueiro vai dar jaca, Ari? Além disso, que diabos quer dizer "merencória"? E "inzoneiro"?

Ou então, conversando com Paulinho da Viola, sobre Foi Demais:

- Paulinho, eu sei que você é gênio, mas "retraçar novamente" fica ruim, cara! O prefixo "re" já significa "de novo", entende? Você nunca leu o Pasquale?

Eu seria odiado pelos artistas, apesar de só querer fazer o bem. E é claro que, eventualmente, eu acabaria passando dos limites:

- Sei não, Pablo. Guernica é um nome feio pra caramba, você não acha? E aquele touro no canto, ali. Tá parecendo a logo do Porcão, Pablito!

E aí eu seria encontrado morto num gueto de Madri, empalado por um pincel manchado com tinta cinza.