domingo, 19 de setembro de 2010

Fóssil


Brasília amanheceu hoje envolta em névoa. Quando acordei, pensei que era só neblina e me senti até um pouco aliviado. Quando chove, depois desses meses de seca, me sinto um pouco melhor. Mas - fiquei sabendo depois - era só a fumaça do incêndio no Parque Nacional. As árvores estão em chamas. A cidade está sufocante, eu estou sufocando, e não sei bem se é culpa do fogo. Acordei com a garganta ressecada, mas preocupa-me ainda mais a milha alma. Estou percebendo uma casca estranha, grossa como betume, crescendo à minha volta. Talvez eu já tenha incendiado e seja agora somente um toco carbonizado, um mero resto fossilizado do que já fui um dia. Quando chover - espero - as coisas devem melhorar. Mas dentro de mim é sempre esse deserto...

domingo, 5 de setembro de 2010

O moço das estrelas



O moço das estrelas disse que eu sofreria um acidente de carro no fim de agosto. Fiquei feliz por ele ter errado. Muito por causa do carro, claro, mas ainda mais porque o moço das estrelas errou tudo mais que predisse. O moço das estrelas disse, ainda, que eu seria milionário, trabalharia com artes, moraria numa linda villa (provavelmente italiana) e viveria das coisas da terra. Que eu conheceria algumas mulheres interessantes esse ano, andaria de carro esporte, morreria do coração e teria alguns problemas financeiros durante a vida. Nada contra, todo mundo quer ser rico e feliz. Mas o moço das estrelas avisou também que eu nunca teria um amor pra vida toda, e aí eu fiquei muito feliz que o moço das estrelas tenha errado em todas as suas profecias, porque prefiro viver à míngua tocando cajón num metrô em Buenos Aires do que ser milionário e sozinho.
Já me disseram algumas vezes - e é provavelmente verdade - que o que eu quero não existe. Ou pior, que eu não tenho o que é preciso pra ter alguém ao lado. Mas agora que eu enganei as estrelas, não custa nada continuar tentando. E, assim, vou enganando os espíritos, as pedras, as certezas, as tabelas. Fácil, fácil.