domingo, 29 de agosto de 2010

Todo dia ele faz tudo sempre igual*


Acordamos cedo, todos nós, ainda sonolentos, com os cabelos desgrenhados e olhos inchados cheios de remela. Pela manhã, quase não temos diferenças a acertar, quase nada a declarar uns aos outros e pouco a dizer que venha a acrescentar alguma coisas às nossas vidas.

Ao sairmos de casa é que as coisas vão acontecendo. Primeiramente, o Marcelo-filho precisa passar na casa da mãe pra buscar alguns papéis do apartamento que ela comprou e deixar em algum cartório ou coisa que o valha. O Marcelo-dono-de-casa concorda, porque pode aproveitar e deixar umas roupas na lavanderia que fica perto da casa da mãe. O Marcelo-funcionário, que ficou aborrecido com a enrolação dos outros dois, pode então rumar pro trabalho, onde te mque terminar relatórios, escrever memorandos, montar documentos técnicos eainda projetar a sede regional do seu órgão em algum lugar esquecido no Brasil. Nem bem inicia seu trabalho, nosso herói é interrompido pelo Marcelo-arquiteto, que precisa visitar uma obra do outro lado da cidade e não pode fazê-lo em horário de almoço porque o Marcelo-amigo reservou um tempinho pra rever uma antiga colega de faculdade.

Após voltar da visita àa obra e passar o comando de volta ao Marcelo-funcionário, o Marcelo-arquiteto está de prontidão novamente, dessa vez junto com o Marcelo-filho, para definir com um empresa de móveis planejados a cozinha do apartamento da mãe. Quando ele finalmente volta do trabalho, o Marcelo-amigo e o Marcelo-pai estão esperando ansiosamente, pois o pessoal está jantando no Haná e quando chegar em casa, precisa(m) jogar umas partidas de damas pela internet com a filha. Enquanto isso, o Marcelo-dono-de-casa aproveita os curtos intervalos para dobrar a roupa e lavar a louça do dia.

Terminadas todas nossas missões, eu e todos nós (eu não tão senhor deles), caímos na cama com a sensação de dever cumprido para alguns e a ansiedade de não ter podido resolver tudo para outros. Mas felizes por estarmos inteiros (se pequenos pedaços podem realmente considerar-se inteiros) recolhidos aos nossos lençóis, sócios-diretores do mesmo corpo. Se ele não pode ser inteiro de cada um de nós, pelo menos delegamos pouco espaço ao Marcelo-filho-da-puta-sem-coração, ao Marcelo-desempregado, ao Marcelo-serial-killer, ou outro qualquer.

Pelo menos por enquanto, que é o que importa.

*texto recuperado de tempos de antanho

7 comentários:

Lua disse...

Lua-que-adora-seus-textos dispensa comentar...

Mari disse...

E nesse pequeno espaço de tempo, ainda há tempo para o Marcelo-sem-noção, Marcelo-engraçado, Marcelo-preocupado e outros Marcelos que vamos conhecendo a cada dia!! =)

Marcelo Faccenda disse...

Ahahahaha.. Covardia, porque todo mundo adora a Lua... Aliás, tem um Marcelo-fã-da-Lua, sabia?

Marcelo Faccenda disse...

Mari, mas esse tal de Marcelo-sem-noção é um dos que mais ocupa meu tempo... Ehehehehehe!!!!

Irene disse...

adorei o novo layout!

E mais ainda de lembrar, com carinho, que um dia me apaixonei por esse marcelo-super-homem que você sempre pareceu ser...

(às vezes, também tenho que lidar com uma rotina porra-louca assim.)

Não desanime, a recompensa virá!!! é só não deixar que o marcelo-sofácontrole-nãofaznada-barrigudo-comeedorme-acomodado ocupe muito espaço.

Um beijo-sabor-saudade!

Marcelo Faccenda disse...

Saudades de vc tb, chuchu... Pode deixar que esse tal de Marcelo-comedorme nem vai passar perto nessa fase... Beijo com saudades!!!

Irene disse...

Ah, então vc ainda é o meu sonho de consumo!