domingo, 4 de julho de 2010

Com açúcar e com afeto



O lugar se chamava Brandas. Ficava em Bento Gonçalves, minha cidadezinha natal, no térreo de um sobrado construído no início do século passado, a mais ou menos cinquenta metros da cabeça-de-porco onde eu morava de favor com um tio no auge da minha adolescência.

Tinha o glamour de um banheiro de churrascaria, a única preocupação estética do dono havia sido pintar as pesadas portas e janelas de um amarelo duvidoso e colocar um pequeno letreiro à entrada. Lá dentro não havia mesas, apenas um pequeno balcão em "L", pontuado por cinco ou seis banquetas altas, giratórias, desmisericoriosamente pintadas também de amarelo.  As paredes eram revestidas com cerâmicas brancas, assentadas em diagonal até certa altura, o que ressaltava ainda mais o rejunte enegrecido pelos anos de gordura.

Era uma encabulada confeitariazinha no estilo alemão. A carranca do dono, que dava bom-dias como quem caga um tijolo, era compensada com folga pelos pedaços de torta, sólidos e gigantescos como blocos de mármore, que custavam na época mais ou menos a metade de uma passagem de ônibus. Nada de muitos remoques: somente quilos e quilos de doces de leite, chocolates, chantillys e pães-de-ló. Se a vontade fosse de algo salgado, havia pastéis à milanesa do tamanho de folhas de papel, e o vapor saído da enorme cafeteira medieval perfumava e aquecia docemente o ambiente nos piores dias do inverno glacial da Serra Gaúcha.

Deus sabe que sinto pouca falta do lugar onde nasci. Quase nenhuma. Hoje pela manhã, entretanto, fui à maior rede de confeitarias de Brasília, açoitado pelo vento matinal do inverno do Planalto Central, pra comer com dificuldade um cheesecake, que além de ter o tamanho de um cartão de visitas e o preço de um plano de saúde, tinha a consistência e o gosto de uma barra de manteiga. Nessas horas, sobretudo, bate uma saudades da minha terrinha pitoresca, com todas as suas esquisitices... mesmo que dure pouco.