segunda-feira, 19 de abril de 2010

A hora da ostra



Que me desculpem os amigos que ligaram, que fizeram aniversário, que vieram de longe e contavam com minha visita. Que me perdoem os amigos que ficaram me esperando ou que esperaram algo de mim, mas a veia estourou novamente. Todas as minhas frustrações profissionais, familiares e afetivas vieram à tona, e, quando isso acontece, tenho consciência de que meu índice de insuportabilidade alcança níveis perigosos. O mínimo que posso fazer pelas pessoas que eu gosto é privá-las da torpe presença do ogro, pelo menos por alguns dias. Chegou a fase da ostra. Quando ela vem, não há Deus, não há ombro amigo, não há luz no fim do túnel que valha, e nem adianta vir com aquele papinho de "desabafa que é bom" ou "sou seu amigo nas horas boas e nas horas ruins". Preciso estar sozinho pra lamber minhas feridas. Me afasto pra morrer isolado, como faria um elefante centenário, porque não existe, afinal de contas, nada tão íntimo como a morte. Morrer, como sofrer aliás, devia ser, por força de lei, um ato reservado, sem platéia.

Mas logo logo eu volto, pronto pra próxima. Preciso somente de uns dias pra recuperar a paciência, colocar a casa em ordem. Sozinho. E quem sabe não seja esse também um dos problemas...

terça-feira, 6 de abril de 2010

Futuro do pretérito

Um dia desses, vou a Bogotá, fugir de mim. Fugir de você também, confesso, e de uma porção de outros enganos. E, no momento, meu coração está pendendo pra capital da Colômbia, não sei bem por quê. Penso em escrever um livro e a sombra do maestro Garcia Marquez far-me-ia bem, embora, pelo que me conste, tenha passado muito pouco tempo em Bogotá.

A verdade é que também não necessito da sombra de porra nenhuma. Se quisesse, poderia ir a Barcelona, ainda que o único escritor espanhol que conheça seja Cervantes. Os catalães são cheios de álcool e vida, e poderia acalmar meu espírito inquieto viajando pelos arrabaldes da Espanha. E sempre haveria Goya, Miró, Greco, Picasso e Dali. E Paco de Lucia e Estopa, claro.

Mas vou em busca da minha essência, ou seja, da merda. E merda eu posso encontrar em qualquer lugar, convenhamos. Menos em Montreal, talvez, que também é uma possibilidade que andei considerando. Não sei nem o que eu faria num país tão asséptico. Sou capaz de provocar uma infecção no Canadá. Só iria pra lá pelos festivais de jazz e pelo frio, pela proximidade de amigos queridos. Pra aprender a língua, quiçá. O fato é que Montreal já foi uma opção mais sólida, hoje esmaeceu um pouco.

Há ainda, Buenos Aires, sempre plena de álcool, cultura, vida e merda. Do jeito que eu gosto. E com a vantagem de termos a intimidade de anos de convivência. Fantasmas, teria vários: o tio Borges, Cortázar, Sabato. Poderia transitar por locais caros a mim, como a El Ateneo e o Malba. Montar um pequeno estúdio em Palermo, ou quem sabe Santelmo, se a coragem me assaltar, pra riscar algum conto.

Queria sumir, apagar meus rastros. Escrever outras histórias, não pela vergonha de ser o que sou, mas pela aventura de ser outra coisa. Se pelo menos eu não fosse tão covarde...

domingo, 4 de abril de 2010

Apogeu e glória do homem solteiro no mundo pós-moderno

- Bom dia, senhora!
- Bom dia, senhor! Em que posso ajudá-lo?
- Eu gostaria de devolver esse produto aqui.
- Mas, senhor, esta é a Madonna Hot 840, nosso melhor modelo de boneca inflável!
- Eu sei, mas mesmo assim gostaria de devolver.
- O senhor tem certeza? Nunca tivemos reclamações antes... O senhor seguiu as instruções direitinho?
- Minha senhora, eu li o manual inteirinho, mas mesmo assim não estou satisfeito.
-Incrível! O senhor me desculpe, mas precisamos fazer algumas perguntas para o servico de assistência ao consumidor da companhia. Do que o senhor não gostou propriamente?
- Bem, tem várias coisas. Pra começar, ela é muito carente, demanda muita atenção.
- Senhor, ela é apensas uma boneca.
- Eu sei, mas ela fica lá, pelada, me olhando de boca aberta. É muito pra minha cabeça.
- Mas, senhor, o único cuidado necessário é mantê-la longe do calor, passar lubrificante antes e lavá-la bem depois.
- Viu só!? É muita coisa Não estou preparado pra um relacionamento dessa magnitude, entende? E depois ela nunca está contente. É muita pressão...
- Senhor...
- É esse olhar, sabe? E essa boca... Parece que está o tempo todo perguntando "por que você não me leva nunca pra sair?". E na hora H, é como se dissesse "meu bem, hoje você não está nos seus melhores dias". É horrível.
- Veja bem, senhor...
- E por que ela te mque vir pelada? Com certeza deve ser pra me forçar a levá-la ao shopping. Aí ela vai passar mais de quatro horas lá provando todo tipo de roupa, pra no fim das contas levar um mísero trapo dois números menor do que o que ela deve usar, e quando chegar em casa vai começar a ladainha: "amor, essa roupa me deixa gorda?" É um inferno!!!

- Senhor, talvez bonecas não sejam mesmo o produto mais apropriado para o senhor. A política de devoluções da companhia não permite devolver seu dinheiro, mas o senhor pode levar outra mercadoria no mesmo valor.
- Hmmmmmmmmm, realmente nao sei... Não tenho idéia do que levar.
- Talvez o senhor prefira levar um vibrador.
- Mas o que é isso, minha senhora?!? A senhora perdeu a cabeça?!? está insinuando que eu sou o quê?!?
- Mas, senhor, pense bem: é uma peça simples, cabe numa gaveta. Não tem boca, não tem olhos. Não fala nem pensa nada. E o senhor não precisa ficar olhando pra ele o tempo todo. Nada de ser julgado nem sentir-se pressionado.
- Minha senhora, a senhora deve achar que eu estou louco.
- ... não precisa discutir relação, levar pra jantar, pagar as contas. Nada de ligar no dia seguinte, nem lembrar datas importantes. e pelo preço da Madonna Hot 840, o senhor pode levar esse kit top de linha, com acabamento cromado, que vem nesse lindo estojo estofado, tem wi-fi, um ano de garantia, bateria solar opcional e pode ser usado como abridor de garrafas também...
- Francamente, minha senhora...
- E na hora H o senhor não precisa fazer quase nada, É só ficar deitado.
- ...
- E tem mais uma coisa: se não der certo, o senhor não precisa se incomodar com pensão.
- Embrulha um com o estojo vermelho, por favor!