sexta-feira, 26 de março de 2010

Garatuja

Tem concessões que eu simplesmente não faço.

Eu não bebo vinho em copo de requeijão, não como yakimeshi com garfo e não afrouxo a gravata, porque acredito que o prazer de certas coisas não está somente em seu objetivo, mas também em seu ritual.

Eu não colo adesivos no carro, não faço notas em livros e não rasgo pacotes de presente, porque me apraz o estado imaculado de certas coisas somente pelo fato de assim estarem: imaculadas.

Eu não namoro meramente pra não ficar sozinho, porque sei que a pior solidão é aquela que a gente sente do lado de outra pessoa, e a pior saudade é a que temos de nós mesmos quando não nos vemos no outro.

Eu não dou conselhos e não julgo, porque tudo que eu acreditava certo há alguns anos hoje é baboseira, entendo que estar errado é parte do processo de ser humano, tenho poucas certezas e me estigmatiza a perspectiva de que amanhã tudo o que eu disse hoje possa não valer pra mais nada.

Eu sou somente o quê e onde estou nesse momento. E a única garantia que possuo é a de que amanhã não serei igual, mas continuarei sendo eu. Estou em constante transformação, muitas vezes evoluindo, mas outras só apodrecendo mesmo. Sou essa garatuja, essa expressão visceral, primitiva, em busca de arte-final. Pra sempre.

12 comentários:

Cela disse...

Sem palavras. Assino totalmente com vc...mas dou conselhos sim...talvez nem devesse mesmo...bjok

Marcelo Faccenda disse...

Olha, pra mim conselho é igual bunda: eu só dou quando pedem... Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!! Beijo!!!

Camilinha disse...

é... Vc é fresco mesmo!rs. Eu bebo qualquer coisa em qualquer frasco, desde que tenha álcool e seja em boa companhia. Quando estou com fome como até com a mão, sashimi, então, como mesmo! Rabiscos todos meus livros e rasgos todas as cartas de amor que recebi. Acredito, sim, no instante mais perfeito que existe: agora. E também sou garatuja, com orgulho!

um beijo grande

PE disse...

viu meu email do aniversário???

Marcelo Faccenda disse...

Fresco nada!!! Vc que é fim de festa!!! Mas somos todos garatujas, no fim das contas... É muito triste pensar que já estamos acabados, sem precisar melhorar... Beijo beijo beijo!! Muitas saudades...

Marcelo Faccenda disse...

PE, vi sim e já tou confirmando!!! Bora tomar umas tequilas!!!

nj.marabuto disse...

o cru pragmatismo, a racionalidade prática direta muitas vezes empobrece o viver dessa forma, depletando as coisas de simbolismo ritual e do prazer que os detalhes reservam em si. esses que passam despercebidos por muitos de nós, sôfregos de resultados rápidos, apenas enxergando os fins e esquecendo da magia que pode tornar o caminho muito mais interessante, até, que a chegada ao destino. você fala com sabedoria sobre solidão e sobre o aprendizado da vida. não nos conhecemos, mas esse texto mudou, em qualquer medida, a impressão que eu tinha a teu respeito. não que a culpa fosse sua. não que isso importe hoje.

Marcelo Faccenda disse...

Agradeço muito o comentário, infelizmente a sabedoria sobre a solidão e o prendizdo da vida advêm simplesmente do fato de eu errar pra caramba. Fique à vontade pra comentar quando quiser, é interessante esse processo de construir impressões baseadas na nossa projeção escrita, somente... Abraço!

Patricia disse...

Fazia tempo que eu não me identificava tanto com as coisas que você diz ser. Mas talvez a diferença seja que, apesar de me ver sempre como um rascunho, eu acho que vou abrir presente sem rasgar o papel, amarrar o tênis que nem criança e conservar meus livros branquinhos pra sempre. Beijos!

Marcelo Faccenda disse...

Eu tb pretendo fazer sempre essas coisas, mas a gente tá sempre se transformando, né? Mas no fim, é sempre melhor ser um rascunho no bom cminho do que uma bela merda de arte final! Beijones!!!

Lua disse...

Eu faço notas em livros... Imacula-los faz parte do processo de torná-los parte de mim, e eu parte deles!
Rabisco até meu próprio corpo, com coisas que li nos livros...
Tenho TIMSHEL tatuado nas costas (East of Eden, Salinger).
Saudade.

Marcelo Faccenda disse...

Lua, no fim das contas, todo mundo e ninguém te mrazão nesses assuntos: O Quintana dizia que Os livros de poemas deviam ter as margens largas e muitas páginas em branco pra que as crianças pudessem enchê-las de desenhos - que passariam a fazer parte dos poemas. A imagem é maravilhosa, né? Beijo!