quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Vaso


O Vaso está no canto da sala, sobre a adega climatizada, junto com as cerâmicas de Ouro Preto e as adagas de Cartum. É uma esfera perfeita, sulcado pela textura do barro que o compõe, e repousa tão sossegadamente em seu nicho que passa a impressão, algumas vezes, de estar coroando um altar ou coisa parecida.

O Vaso foi comprado no Rio de Janeiro, e apesar de não ter merecido um poema do Bilac, foi feito pelas mão de uma famosa ceramista e trocado a peso de ouro numa loja de decoração do Jardim Botânico. O vaso viajou de avião pra Brasília, protegido como uma criança, pelos braços zelosos do seu novo dono e por metros de plástico-bolha.

O Vaso é lembrança das melhores épocas com a bem-amada, e juntamente com o calendário do Gideon Gadan e o quebra-cabeças do Renoir, correu o risco de ser arremessado ao lixo na fase negra, mas atualmente ocupa seu espaço sem dor.


O Vaso é perfeito na forma, mas carrega o estigma terrível de ser parte de um amor falecido. O altar do Vaso já foi um mausoléu, mas hoje tenta ser nada mais que um vaso. Com minúscula. O Vaso é lindo, mas amaldiçoado. E - como eu - está condenado a ser uma forma plena somente de vazio...

6 comentários:

Camilinha disse...

Que pessoa pode nos condenar a não ser nós mesmas e o STF?

beijos daqui..


-joga a p@#$% do vaso fora - deve ser made in taiwan!!!

Marcelo Faccenda disse...

Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!! Nós reles mortais só podemos ser condenados pela Justiça comum e por nós mesmos...
:o)

saritascampos@hotmail.com disse...

Fato é que os objetos são de extremo bom gosto! Complicado mantê-los por perto, ainda mais se eles carregam uma história, e que às vezes só faz sentido mesmo pra quem viveu. Quem não tem uma cartinha de namorado, amarelada e com letras apagadas, no fundo do armário, né? Eu considero que voltar pra casa é uma das coisas mais penosas depois de uma separação. Mas superável! A mágoa passa e a decoração continua linda, pronto!

Marcelo Faccenda disse...

Concordo com vc, Sarita. Pra mim voltar pra casa era terrível, pensei até em me mudar... Mas como vc mesma disse, é superável! Ainda bem, né?

PE disse...

A solução é fácil: basta dar o adjetivo de "sanitário"!
rsrs...

Marcelo Faccenda disse...

Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!! Mas o vaso sanitário a gente sempre agradece que seja uma forma plena de vazios, né? O estranho é ele ficar no canto da sala, acima da dega climatizada...