sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Veludo


Hoje me convidaram pruma festa no Velvet Pub, que eu nem conhecia. Curiosamente, e com frescuras à parte, veludo é uma das palavras que eu mais gosto na língua portuguesa. Aliás, mais do que isso, talvez seja o conceito mais impregnado de referências agradáveis entre todas as línguas (que eu conheço, pelo menos).

Velvet, em inglês, me lembra do Velvet Underground, dos gênios Lou Reed e John Cale, da musíssima Nico e, por consequência, do pop Andy Warhol. Também na música, tem o Velvet Revolver, que é um Guns com o Scoot Weiland (ex-Stones Temple Pilots) cantando, e que eu curto. Por último, tem o belíssimo The Blue Velvet, filme clássico do David Lynch, que tem a Isabella Rosselini pra deixar qualquer um louco, tudo com a trilha sonora do Angelo Badalamenti, esquizofrênica como sempre.

Em espanhol, veludo se diz terciopelo, que deve ser o som mais sensual produzido pelos falantes desse idioma no interregno das suas vidas. Só a sonoridade da palavra - que é formada pela corruptela da expressão tercero pelo - já seria suficiente pra me levar ao orgasmo, mas ainda tem o bônus da memória da bandinha colombiana Aterciopelados, que eu adorava quando era mais novo.

Pra encerrar, tem velours em francês, velluto em italiano e samt em alemão, que eu descobri pesquisando na internet. E ainda, Janaína Boquinha-de-Veludo, dançarina de um casino clandestino que tinha na minha cidade natal, que sempre instigou minha imaginação até eu descobrir que a realidade era bem mais interessante...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Vaso


O Vaso está no canto da sala, sobre a adega climatizada, junto com as cerâmicas de Ouro Preto e as adagas de Cartum. É uma esfera perfeita, sulcado pela textura do barro que o compõe, e repousa tão sossegadamente em seu nicho que passa a impressão, algumas vezes, de estar coroando um altar ou coisa parecida.

O Vaso foi comprado no Rio de Janeiro, e apesar de não ter merecido um poema do Bilac, foi feito pelas mão de uma famosa ceramista e trocado a peso de ouro numa loja de decoração do Jardim Botânico. O vaso viajou de avião pra Brasília, protegido como uma criança, pelos braços zelosos do seu novo dono e por metros de plástico-bolha.

O Vaso é lembrança das melhores épocas com a bem-amada, e juntamente com o calendário do Gideon Gadan e o quebra-cabeças do Renoir, correu o risco de ser arremessado ao lixo na fase negra, mas atualmente ocupa seu espaço sem dor.


O Vaso é perfeito na forma, mas carrega o estigma terrível de ser parte de um amor falecido. O altar do Vaso já foi um mausoléu, mas hoje tenta ser nada mais que um vaso. Com minúscula. O Vaso é lindo, mas amaldiçoado. E - como eu - está condenado a ser uma forma plena somente de vazio...