segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Overture


Ai, minha amada, quando tu vieres me encontrar, não me busques olhando para o alto, porque lá tu encontrarás somente os que voam, e saibas que tenho os pés melancolicamente ancorados à terra. Não demores tua vista nos pedestais das praças, nos obeliscos, nos monumentos, pois estes são reservados apenas aos heróis da pátria, e tudo que pude fazer foi tentar ser eminente em minha própria vida. Não folheies os mapas, os livros de História, porque tu sabes bem que eles foram escritos por aqueles que ganharam as guerras, e minhas batalhas foram miseravelmente ridículas para figurarem entre vitórias.

Se tu quiseres me achar, amada minha, procura-me nos olhos dos meus filhos, nas lágrimas dos familiares, pois foi a eles que atingi com mais ardor com os labéus da minha existência. Tu me encontrarás mais facilmente entalhado no coração dos que amei do que nos bustos dos panteões do mundo. Busca-me no farfalhar das asas das borboletas de teu próprio estômago, nas tuas mãos transpirantes, que me perceberás com mais facilidade do que nos cartazes dos musicais ou nos créditos finais dos filmes. Não esperes ouvir meu nome nos Caetanos, nos Nerudas, nos malditos, pois ele só estará presente quando os Joões fremirem, quando as Marias chorarem.

Melhor será ainda - amiga querida - que não necessites campear-me. Quando a vida cansar de evitar-nos, tu me acharás logo ali, sentado próximo ao lugar comum, abancado no centro de onde tu nunca pensastes em investigar. E aí serão escritas as nossas histórias, erigidas as nossas estátuas, crescerão as nossas asas. Exatamente como tu nunca esperastes, e como eu jamais soube escrever.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O sistema não quer que eu case


É isso mesmo que você leu. Esse texto vai parecer um pouco paranoico, mas parece mesmo que o sistema não quer que eu case. Nem você ou qualquer outro, aliás. Não que não vá acontecer, mas se lograrmos esse feito, estaremos nadando contra a maré. Muita gente conseguiu e consegue, tentando bem menos, reconheço. Mas, analisando bem, temos sidos compelidos paulatinamente à misantropia.

Senão vejamos: antigamente, a gente tinha um carro por família, mesmo as maiores, e, quando muito, tinha uma só TV em cada casa, na sala de estar, que todo mundo se embolava pra ver a novela, e depois do Jornal da Globo saía do ar e babau. Telefone (lá em casa chegou a ter um daqueles de manivela) era coisa pra rico e o jeito era ficar perto do aparelho ou decifrar os recados que a empregada deixava. Hora do almoço e do jantar era sagrado e a gente morria de fome até o pai e a mãe chegarem em casa pra gente poder comer todo mundo junto. Férias era pra onde meu pai decidisse, que era ou a casa da minha avó ou uma praia onde algum amigo tivesse casa, e nunca tive ideia de que a gente tivesse opção pra ir pra outro lugar com outras pessoas.

Eu sou fruto dos tempos modernos, e nem estou aqui pra reclamar, mas a verdade é que no interregno de apenas alguns lustros, mudou todo o esquema. Cada adulto economicamente ativo, hoje, tem que ter o seu próprio automóvel, e cidades como Brasília já têm quase um carro para cada dois habitantes, se não me engano. Como arquiteto, acompanhei a evolução da TV na sala de estar para a criação da sala de TV (que geralmente dividia espaço com o quarto de hóspedes), depois, finalmente, para a invenção do famoso home theater. Os quartos, que antes eram comuns a todos os filhos, e acolhiam, além das camas, nossas escrivaninhas e os segredos e cumplicidades dos irmãos, agora comportam uma única pessoa, acompanhada de seu respectivo closet, seu banheiro, seu home office com seu próprio computador e, é claro, sua TV, já que é um saco dividir o tal home thater com o resto da família.

Parece desabafo de velho, daquele tipo "no meu tempo era melhor", mas o meu ponto é justamente o contrário. Moro num flat pequeno (não minúsculo), com cozinha americana, estar, closet, quarto, banheiro e varanda. Aliás, alguém já teve a curiosidade de perceber como aumentou a oferta de kits e flats? E isso me basta. A cozinha não permite que a gente espere a mãe fazer bolinho de chuva e peça pra raspar a massa crua da tigela, e a mesa de jantar é somente uma bancada com banquetas altas, o que me faz preferir comer sentado na cama vendo televisão, mas posso viver tranquilamente assim. O meu carro é mais batido e sujo do que o aconselhável, mas me leva e traz pra qualquer lugar em qualquer horário, fazendo com que eu não dependa de ninguém, mesmo daqueles em quem eu mais confio. Até minha cama, que em algum ponto deixou de ser de solteiro porque o tamanho já não bastava, continua sendo suficiente somente para mim, e o mero fato de alguém invadir esse meu espaço tão íntimo por mais tempo que o essencial já me causa desconforto.

Todas essas facilidades acabam fazendo com que a gente ache que não precisa de ninguém. Não precisamos confiar no analfabetismo funcional da empregada para anotar nossos recados. Não precisamos de carona, palpite, não nos submetemos à vontade dos nossos próximos, não precisamos fazer concessões. E nos viciamos nessas liberdades. Claro que desejamos contato humano, mas em certas horas até isso pode ser doloroso. Ansiamos por companhia, desde que em pílulas. Queremos viajar, conhecer o mundo inteiro, mas o melhor momento da viagem é a volta pra nossa casinha. E aí, na hora que conhecemos alguém, e se abre a perspectiva de abandonarmos nosso pequeno reino, é preciso muita coragem e muita certeza. Eu mesmo já fui testemunha e vítima de como nos tornamos pragmáticos até para o amor. Casamos pra dormir em camas, morar em casas separadas. Planejamos uma família pra acontecer depois do sucesso profissional e financeiro, que às vezes não chega nunca.

E agora vem a paranoia: o sistema não quer que você morra sozinho, mas quer que você consuma mais e mais. E pessoas sozinhas (em seus mundos, pelo menos) compram muito mais do que juntas. Uma família em que todo mundo vive isolado precisa de uma TV pra cada quarto, um computador, um carro, um sonho, um espaço. Um apartamento para um casal é mais barato do que o meu flat e a kit da mulher que o universo me reservou. É conveniente pro sistema que eu viva e morra sozinho, e que eu beba e tome remédios pra aplacar a ansiedade e depressão dessa nova condição. E por aí vai, os exemplos são inúmeros.

Logicamente que ninguém é obrigado a viver segundo essas indicações, e eu mesmo já disse lá em cima que muita gente faz isso. Provavelmente, minha vida de solteiro vai ser mais consequência das minhas idiossincrasias do que das vontades de um monstro abstrato que eu criei como justificativa, mas, assim como em várias outras áreas, não custa nada lembrar como nossa vida moderna está apontando contra nossa tendência gregária natural. Além disso, não estou aqui pra falar mal de mim, que até o momento, tenho sido o melhor roommate que eu poderia querer. Depois, no fim das contas, também tenho meus sonhos, espero meus cavaleiros, e quero acreditar que, como cantava a Bethânia, "toda razão, toda palavra, vale nada quando chega o amor".

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Os Dez Mandamentos


Ato I. Deus e Moisés no alto do Monte Sinai.

Deus: Diga lá, Moisés!

Moisés: Oi, Deus...
D: Como é que vai essa força?
M: Meio cansado de subir esse monte toda hora.
D: Calma que tá acabando. Preparado?
M: Preparadaço. Cadê as tábuas dos mandamentos?
D: Tábua. Coube tudo numa só. A outra encostei aqui no canto.
M: Só? Eu tava pensando nuns seiscentos e poucos mandamentos. Mas como o Senhor fez pra caber todas as Tuas ordens num mísero pedaço de pedra?
D: Não tem muitas ordens não. Deu até pra esculpir em letra grande. Na verdade, é só essa aqui, ó.
M: "Faz o que tu queres, pois é tudo da Lei"?!?!
D: Legal, né? Acho que dava até música...
M: Mas, Senhor?! O Senhor deve estar de sacanagem comigo. Tem uma penca de judeu faminto me esperando lá embaixo, no deserto. Eu jurei que ia rolar uma revelação! Tem que ter um mise-en-scène, caceta! O que eu vou dizer pra minha mãe?! Joga um trovões e uns raios aí, pelo Seu amor! A sarça ardente! Cadê a sarça ardente?!
D: Deixa disso, Mô. Não precisa, deixa a negada ser feliz. Cada um no seu quadrado.
M: Mas isso é inaceitável!!! Deve ter mais alguns mandamentos para colocar. Bora colocar um sobre não cobiçar a mulher do próximo, porque acho que um escravo do Hur tá crescendo o olho pra cima da esposa do Aisamaque, ainda vai dar chabu.
D: Nops, deixa do jeito que tá mesmo. A gente fica proibindo demais, depois essa gurizada acaba crescendo rebelde. Eu vi isso na Supernanny.
M:O Senhor não tá entendendo. Ser humano é bicho ruim, precisa botar limite senão vira bacanal. Vamos proibir assassinato, roubo e mentira, pelo menos.
D: E por acaso precisa escrever isso numa pedra? Todo mundo já sabe dessas coisas. Esquece isso, garotinho. Agora desce lá, que eu tenho que dar uma geral aqui no meu pedaço.
M: Bom, já que o Senhor já bateu o martelo, posso pelo menos usar Seu banheiro divino?
D: Claro! É no fim do corredor, só toma cuidado que o chão da sala tá cheio de poeira e lasca de pedra.
***

Ato II. Deus sozinho no Seu apartamento no dia seguinte.

Deus: Ué? Cadê meu cinzel? Eu podia jurar que tinha deixado ele aqui em cima da mesa... Pensando bem, também não vejo minha outra Tábua da Lei desde ontem...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Associação dos Adoradores de Esfinges


" Entre os desejos e as realizações destes, transcorre toda a vida humana" 
Arthur Schopenhauer, patrono da Associação dos Adoradores de Esfinges 

- Bem-vindo à reunião aberta semanal da Associação dos Adoradores de Esfinges. Como todos sabem, essa é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem dos efeitos dessa síndrome tão comum nos dias de hoje. Adorador de esfinges, para quem está conosco pela primeira vez esta noite, é aquele só quer o que não pode ter. Depois, quando o objeto de desejo deixa de ser proibido ou impossível - ou seja quando não há mais esfinge - o interessa acaba e ele se volta pra outra cruzada quixotesca qualquer. Os portadores dessa doença sofrem diuturnamente, pois qualquer acontecimento cotidiando pode se transformar num objeto de calvário. Um adorador de esfinges, em estágio terminal, quer pintar O Nascimento de Vênus, escrever Crime e Castigo, descobrir a cura da solidão. Apaixona-se por atrizes de cinema, musas da literatura, mulheres que passam velozmente nas janelas dos ônibus, que sentam na poltrona ao seu lado no teatro. Um adorador de esfinges quer morar nas highlands escocesas, nos desertos da África, nas neves do Tibet. Quer ficar só quando está entre outras pessoas e chora de solidão quando o telefone não toca à noite. Essas pessoas tendem a ser depressivas e a viver eternamente insatisfeitas. Por essa razão estamos aqui hoje para consolar essas pobres almas atormentadas, não é mesmo, meus amigos? Passaremos agora para o testemunho dos nossos participantes. Alguém quer começar?
 
- Boa noite, meu nome é Marcelo e eu sou um adorador de esfinges...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Little Women



Passavam os dias a tricotar, as mulheres da minha família. Minha mãe, minha vó, minhas tias e madrinha. Não só tricô, na verdade, mas uma infinidade de trabalhos manuais: crochês, bordados, macramés, pequenos consertos em roupas. Gastavam eternidades de olhos baixos, por vezes semicerrados, perdidas em suas próprias divagações, imaginava eu.

Intrigavam-me tanto essas mulheres que - como boa criança - resolvia importuná-las sempre que podia, a tentar descobrir a mágica daqueles pequenos trançados. Cercava-as com olhos demasiadamente castanhos e grandes, rodeados pelas bochechas rosadas (sim, eu fui uma criança fofa, apesar de tudo). Colocava minha cabeça redonda na frente das agulhas e das telas, puxava com falso desinteresse os fios, até conseguir ser inquirido sobre minha reais intenções. Dessa maneira, minhas avós pacientemente, introduziram-me - para desespero de meu pai, imagino - aos princípios básicos do crochê e do bordado, e ensinaram-me a cerzir pequenos tecidos, prender botões. Essa aprendizagem me foi útil em vários momentos da vida, e até hoje consigo coser, ainda que de maneira rudimentar, alguns rasgos das roupas da minha filha, quando necessário.

Mas até hoje me pergunto o que pensariam aquelas mulheres tão caladas naquelas horas, tão circunspectas, que em outras ocasiões mostravam-se até boquirrotas, gargalhando muito alto, como boas correntinas e italianas? Tempos depois, em meus delírios, imaginava que estariam a desfiar, juntamente com os novelos, os destinos de nossa família, utilizando a artimanha da boçalidade dos trabalhos manuais para preservar em nós, homens, a ilusão de que mantínhamos as rédeas de nosso heterogêneo rebanho.

Quem desconfiaria, afinal de contas, de mulheres a tricotar como vacas ruminando, mesmo que dessa atividade decorressem muito mais colchas e toalhas do que o realmente necessário, pulôveres com mangas inimaginavelmente extensas, e rendas que pipocavam em qualquer pedaço de fazenda se apresentasse nu pela casa. Nomes completos em uniformes e cuecas, toucas e luvas coloridas como árvores de natal sempre apareciam, e até os próprios enfeites da árvore, por que não dizer? 

A revolução dessas mulheres obviamente não veio. O tempo passou, inexorável e impiedoso. Nenhuma delas foi presa pela ditadura, nenhuma assanhou os cabelos nos anos sessenta, nem conheceu outro mundo que não a circunscrição imediata de nossa família. E passaram, enfim, aquelas mulheres, ano a ano, pouco a pouco, uma a uma. Passaram também minha infância,  minha terra, minha família.

A realidade, muito mais do que o tempo, encarregou-se de afastar-me dessas mulheres. Minhas experiências e objetivos distanciaram-me inapelavelmente de meu passado, deixando apenas uma lembrança tênue daquelas telas e novelos. Entretanto, sempre que vejo - o que é cada vez mais raro - uma mulher perdida em si mesmo a movimentar sistemática suas agulhas, fico a imaginar por onde andarão seus pensamentos, e se suas aspirações serão mais ou menos ambiciosas que as das mulheres da minha família.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Hipopotomonstrosesquipedaliofobia



Me disseram pra ter medo de ladrão, de guerra atômica, de barata, de fantasma e de gonorréia. Pra ter muito cuidado com os carros, com avião e elevador. Me ensinaram a ter fobia de morrer sozinho, e a ter aversão a multidões e compromisso. Me cagaram todas as regras pra me deixar com medo de açúcar, de sal, de coca-cola, de gordura hidrogenada, de fogo, de terra, e de altura. Me disseram pra nunca, nunca mesmo, falar com estranhos.

Me ensinaram a sentir vergonha do meu corpo, dos meus prazeres, dos meus sentimentos. Me condicionaram a dissimular o que eu penso pra evitar que riam de mim. Me contaram que eu não podia achar um amigo bonito. Me explicaram que macho deve ter vontade de trepar todo dia com o maior número de mulheres possível. Me ensinaram também que homem era um animal poligâmico e mulher, bicho abstêmio.

Me adestraram a sentir culpa por não querer almoçar com tanta fome no mundo. Me confundiram ao me explicar a lógica distorcida pela qual algum menino pobre ficaria com os meus presentes caso eu não me comportasse. E eu fiquei com raiva do menino pobre. Me explicaram que era pecado eu sentir tesão pelas minhas vizinhas e primas, e que eu ia pro inferno se continuasse com aquela semvergonhice no banheiro.

Me contaram que eu devia respeitar os mais velhos, mesmos os mais cretinos, como se velhice fosse necessariamente sinônimo de sabedoria. Me deixaram bem claro que antiguidade é merecimento. Me deram a missão de absorver as hierarquias, e aceder a chefes e colegas de trabalho imbecis. Me coagiram tanto a respeitar famílias, Estados, Igrejas, professores, trânsito, maiorias e minorias, que sobrou muito pouco tempo e vontade pra respeitar a mim mesmo. Me disseram que pra acreditar em Deus não é preciso prova de que ele existe.

Me mandaram escovar os dentes quatro vezes ao dia e agora descobriram que o negócio mesmo é limpar a língua. Juraram que menino não chora, que brinca de carrinho e joga futebol. Me ensinaram que bom mesmo é querer tudo que agente não tem, e que um remedinho barato pode curar a frustação de viver sem satisfação. Me fizeram esperar anos pra ser adulto só pra depois passar horas querendo ser criança de novo.

E agora, tudo que eu mais queria era esquecer de tudo e começar de novo....

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Carpinteiro do universo



Melhor ainda do que fazer algo produtivo, pra mim, é a oportunidade de corrigir pequenos defeitos nas coisas já realizadas. Não que eu saia fazendo isso por aí, que não sou doente. Imagine um cara no ônibus ajeitando a gola da sua camisa, ou colocando a etiqueta pra dentro. Meio freak, né?

Mas se, de repente, eu pudesse sair por aí aperfeiçoando algumas pérolas da arte universal? Seria perfeito, não é?

No fim da década de 1930, por exemplo, eu poderia encontrar o Ari Barroso, em casa, compondo Aquarela do Brasil:

- Porra, Ari! "Meu Brasil brasileiro" vá lá, mas "coqueiro que dá coco"???? E coqueiro vai dar jaca, Ari? Além disso, que diabos quer dizer "merencória"? E "inzoneiro"?

Ou então, conversando com Paulinho da Viola, sobre Foi Demais:

- Paulinho, eu sei que você é gênio, mas "retraçar novamente" fica ruim, cara! O prefixo "re" já significa "de novo", entende? Você nunca leu o Pasquale?

Eu seria odiado pelos artistas, apesar de só querer fazer o bem. E é claro que, eventualmente, eu acabaria passando dos limites:

- Sei não, Pablo. Guernica é um nome feio pra caramba, você não acha? E aquele touro no canto, ali. Tá parecendo a logo do Porcão, Pablito!

E aí eu seria encontrado morto num gueto de Madri, empalado por um pincel manchado com tinta cinza.

domingo, 19 de setembro de 2010

Fóssil


Brasília amanheceu hoje envolta em névoa. Quando acordei, pensei que era só neblina e me senti até um pouco aliviado. Quando chove, depois desses meses de seca, me sinto um pouco melhor. Mas - fiquei sabendo depois - era só a fumaça do incêndio no Parque Nacional. As árvores estão em chamas. A cidade está sufocante, eu estou sufocando, e não sei bem se é culpa do fogo. Acordei com a garganta ressecada, mas preocupa-me ainda mais a milha alma. Estou percebendo uma casca estranha, grossa como betume, crescendo à minha volta. Talvez eu já tenha incendiado e seja agora somente um toco carbonizado, um mero resto fossilizado do que já fui um dia. Quando chover - espero - as coisas devem melhorar. Mas dentro de mim é sempre esse deserto...

domingo, 5 de setembro de 2010

O moço das estrelas



O moço das estrelas disse que eu sofreria um acidente de carro no fim de agosto. Fiquei feliz por ele ter errado. Muito por causa do carro, claro, mas ainda mais porque o moço das estrelas errou tudo mais que predisse. O moço das estrelas disse, ainda, que eu seria milionário, trabalharia com artes, moraria numa linda villa (provavelmente italiana) e viveria das coisas da terra. Que eu conheceria algumas mulheres interessantes esse ano, andaria de carro esporte, morreria do coração e teria alguns problemas financeiros durante a vida. Nada contra, todo mundo quer ser rico e feliz. Mas o moço das estrelas avisou também que eu nunca teria um amor pra vida toda, e aí eu fiquei muito feliz que o moço das estrelas tenha errado em todas as suas profecias, porque prefiro viver à míngua tocando cajón num metrô em Buenos Aires do que ser milionário e sozinho.
Já me disseram algumas vezes - e é provavelmente verdade - que o que eu quero não existe. Ou pior, que eu não tenho o que é preciso pra ter alguém ao lado. Mas agora que eu enganei as estrelas, não custa nada continuar tentando. E, assim, vou enganando os espíritos, as pedras, as certezas, as tabelas. Fácil, fácil.

domingo, 29 de agosto de 2010

Todo dia ele faz tudo sempre igual*


Acordamos cedo, todos nós, ainda sonolentos, com os cabelos desgrenhados e olhos inchados cheios de remela. Pela manhã, quase não temos diferenças a acertar, quase nada a declarar uns aos outros e pouco a dizer que venha a acrescentar alguma coisas às nossas vidas.

Ao sairmos de casa é que as coisas vão acontecendo. Primeiramente, o Marcelo-filho precisa passar na casa da mãe pra buscar alguns papéis do apartamento que ela comprou e deixar em algum cartório ou coisa que o valha. O Marcelo-dono-de-casa concorda, porque pode aproveitar e deixar umas roupas na lavanderia que fica perto da casa da mãe. O Marcelo-funcionário, que ficou aborrecido com a enrolação dos outros dois, pode então rumar pro trabalho, onde te mque terminar relatórios, escrever memorandos, montar documentos técnicos eainda projetar a sede regional do seu órgão em algum lugar esquecido no Brasil. Nem bem inicia seu trabalho, nosso herói é interrompido pelo Marcelo-arquiteto, que precisa visitar uma obra do outro lado da cidade e não pode fazê-lo em horário de almoço porque o Marcelo-amigo reservou um tempinho pra rever uma antiga colega de faculdade.

Após voltar da visita àa obra e passar o comando de volta ao Marcelo-funcionário, o Marcelo-arquiteto está de prontidão novamente, dessa vez junto com o Marcelo-filho, para definir com um empresa de móveis planejados a cozinha do apartamento da mãe. Quando ele finalmente volta do trabalho, o Marcelo-amigo e o Marcelo-pai estão esperando ansiosamente, pois o pessoal está jantando no Haná e quando chegar em casa, precisa(m) jogar umas partidas de damas pela internet com a filha. Enquanto isso, o Marcelo-dono-de-casa aproveita os curtos intervalos para dobrar a roupa e lavar a louça do dia.

Terminadas todas nossas missões, eu e todos nós (eu não tão senhor deles), caímos na cama com a sensação de dever cumprido para alguns e a ansiedade de não ter podido resolver tudo para outros. Mas felizes por estarmos inteiros (se pequenos pedaços podem realmente considerar-se inteiros) recolhidos aos nossos lençóis, sócios-diretores do mesmo corpo. Se ele não pode ser inteiro de cada um de nós, pelo menos delegamos pouco espaço ao Marcelo-filho-da-puta-sem-coração, ao Marcelo-desempregado, ao Marcelo-serial-killer, ou outro qualquer.

Pelo menos por enquanto, que é o que importa.

*texto recuperado de tempos de antanho

domingo, 22 de agosto de 2010

Secretária eletrônica


Desculpe, mas hoje não estou em casa. Aliás, não estou e não sou. Hoje não quero pensar em nada.

Não quero pensar nos olhos da um-dia-amada, que refulgiam e acendiam todo o mundo. Nem quero saber dos olhos verde-pálido da hoje-amada, desses que inspiraram o Lou Reed. Não quero saber de sangrar, não quero pensar em desculpas pra dizer às pessoas que não amo.

Não quero pensar em Deus, ateísmo, mediunidade, niilismo. Não quero esperar o céu, não quero temer o inferno, muito menos caçar fantasmas. Não quero pensar em Nietzsche, Fitche, Habermas. Filosofar em alemão nem a pau. Não quero ouvir Jeff Buckley cantar Hallelujah, Leonard Cohen sussurar "Waiting for the Miracle", nada dessas coisas.

Hoje não quero pensar em trabalhar. Não erigirei castelos, pontes, masmorras. Não quero pensar em futuro, presente, lembrar do passado, bolas! Não farei projetos, não traçarei metas, não elucubrarei sobre o que já foi. Não quero pensar em comida, companhia, amizade. Notícias do mundo, passem ao largo, por favor.

Hoje vou ficar deitado, não sairei de casa. Quero que meus músculos doam de não fazer nada. Vou deixar a TV ligada, mas nem penso em assistir nada. Vou ficar de olhos fechados, olhando pra dentro.

Hoje não quero nem pensar nos porquês. Não quero nem pensar nas consequências. Ter idéias pra quê? Me deixe, que hoje eu só quero não ser por alguns minutos. Mas amanhã estou de volta, deixe seu recado após o bip...

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Iniciando

Andava meio parado, sem saber o que escrever ultimamente. Achava que era porque andava feliz, e escrevo melhor quando estou na merda, isso é um fato. Mas também é porque minha vida estava muito parada, só trabalho, livros e bares com os amigos.

Acho que essa nova fase vai ser boa nesse sentido. Sacudir a poeira, trabalhar menos, correr mais atrás. Cortar gastos, ficar mais em casa, projetar mais, quem sabe dar aulas. Aproveitar pra colocar antigos planos em ação, se der.

Boa sorte pra mim.

domingo, 4 de julho de 2010

Com açúcar e com afeto



O lugar se chamava Brandas. Ficava em Bento Gonçalves, minha cidadezinha natal, no térreo de um sobrado construído no início do século passado, a mais ou menos cinquenta metros da cabeça-de-porco onde eu morava de favor com um tio no auge da minha adolescência.

Tinha o glamour de um banheiro de churrascaria, a única preocupação estética do dono havia sido pintar as pesadas portas e janelas de um amarelo duvidoso e colocar um pequeno letreiro à entrada. Lá dentro não havia mesas, apenas um pequeno balcão em "L", pontuado por cinco ou seis banquetas altas, giratórias, desmisericoriosamente pintadas também de amarelo.  As paredes eram revestidas com cerâmicas brancas, assentadas em diagonal até certa altura, o que ressaltava ainda mais o rejunte enegrecido pelos anos de gordura.

Era uma encabulada confeitariazinha no estilo alemão. A carranca do dono, que dava bom-dias como quem caga um tijolo, era compensada com folga pelos pedaços de torta, sólidos e gigantescos como blocos de mármore, que custavam na época mais ou menos a metade de uma passagem de ônibus. Nada de muitos remoques: somente quilos e quilos de doces de leite, chocolates, chantillys e pães-de-ló. Se a vontade fosse de algo salgado, havia pastéis à milanesa do tamanho de folhas de papel, e o vapor saído da enorme cafeteira medieval perfumava e aquecia docemente o ambiente nos piores dias do inverno glacial da Serra Gaúcha.

Deus sabe que sinto pouca falta do lugar onde nasci. Quase nenhuma. Hoje pela manhã, entretanto, fui à maior rede de confeitarias de Brasília, açoitado pelo vento matinal do inverno do Planalto Central, pra comer com dificuldade um cheesecake, que além de ter o tamanho de um cartão de visitas e o preço de um plano de saúde, tinha a consistência e o gosto de uma barra de manteiga. Nessas horas, sobretudo, bate uma saudades da minha terrinha pitoresca, com todas as suas esquisitices... mesmo que dure pouco.

sábado, 26 de junho de 2010

Cinco

Cinco últinos filmes que eu vi no cinema:
1 - Tudo Pode Dar Certo (muito bom!) 2 - Alice no País das Maravilhas (escolha da ex) 3 - Um Homem Sério (Coen genial) 4 - A Ilha do Medo (normalzinho) 5 - O Segredo dos Seus Olhos (Campanella mais denso que o normal)

Cinco últimos livros que eu li:
1 - O Crepúsculo dos Ídolos, do Nietzsche (pro mestrado). 2 - O Exército Iluminado, do David Toscana (tou viciado nele). 3 - Rosario Tijeras, do Jorge Franco (novo Garcia Marquez o caralho!). 4 - Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, do Mia Couto (indicação da Maria). 5 - A Revolução dos Bichos, do George Orwell (que eu reli depois de aprender o que é comunismo).

Cinco coisas que eu gosto num programa a dois:
1 - Bom vinho. 2 - Boa comida. 3 - Boa conversa. 4 - Bom sexo. 5 - Boa noite e até a próxima!

Cinco coisas que me excitam:
1 - Seu mindinho. 2 - Seu vizinho. 3 - Pai-de-todos. 4 - Fura-bolo. 5 - Mata-piolhos.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Oração

Eu agradeço a Deus pelos amigos que não leem Kierkegaard ou Rilke, porque nunca me faltaram nas horas de boa companhia e conversa. E eu preciso muito disso.

Eu agradeço a Deus pelas risadas diante das dificuldades, porque saber rir quando tudo está bem é tarefa pra qualquer um, mas é preciso um guerreiro pra gargalhar quando se está na merda. E eu acho meu sorriso lindo.

Eu agradeço a Deus pelo meu trabalho, porque o suor que eu derramo diariamente me dá a certeza de que posso ser bom em quase tudo o que faço, basta apenas a certeza de que sempre se pode melhorar. E eu sempre trabalhei pra ser o melhor.

Eu agradeço a Deus pelas porradas da vida, porque embora desperdicem meu precioso sangue e me levem ao chão em várias oportunidades, nunca são mais do que eu posso aguentar e me calejam pros próximos
golpes. E eu ainda tenho muito sangue a verter.

Eu agradeço a Deus. Pelos amigos, pelas risadas, pelo suor e pelo sangue. Todo dia. Quase.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A hora da ostra



Que me desculpem os amigos que ligaram, que fizeram aniversário, que vieram de longe e contavam com minha visita. Que me perdoem os amigos que ficaram me esperando ou que esperaram algo de mim, mas a veia estourou novamente. Todas as minhas frustrações profissionais, familiares e afetivas vieram à tona, e, quando isso acontece, tenho consciência de que meu índice de insuportabilidade alcança níveis perigosos. O mínimo que posso fazer pelas pessoas que eu gosto é privá-las da torpe presença do ogro, pelo menos por alguns dias. Chegou a fase da ostra. Quando ela vem, não há Deus, não há ombro amigo, não há luz no fim do túnel que valha, e nem adianta vir com aquele papinho de "desabafa que é bom" ou "sou seu amigo nas horas boas e nas horas ruins". Preciso estar sozinho pra lamber minhas feridas. Me afasto pra morrer isolado, como faria um elefante centenário, porque não existe, afinal de contas, nada tão íntimo como a morte. Morrer, como sofrer aliás, devia ser, por força de lei, um ato reservado, sem platéia.

Mas logo logo eu volto, pronto pra próxima. Preciso somente de uns dias pra recuperar a paciência, colocar a casa em ordem. Sozinho. E quem sabe não seja esse também um dos problemas...

terça-feira, 6 de abril de 2010

Futuro do pretérito

Um dia desses, vou a Bogotá, fugir de mim. Fugir de você também, confesso, e de uma porção de outros enganos. E, no momento, meu coração está pendendo pra capital da Colômbia, não sei bem por quê. Penso em escrever um livro e a sombra do maestro Garcia Marquez far-me-ia bem, embora, pelo que me conste, tenha passado muito pouco tempo em Bogotá.

A verdade é que também não necessito da sombra de porra nenhuma. Se quisesse, poderia ir a Barcelona, ainda que o único escritor espanhol que conheça seja Cervantes. Os catalães são cheios de álcool e vida, e poderia acalmar meu espírito inquieto viajando pelos arrabaldes da Espanha. E sempre haveria Goya, Miró, Greco, Picasso e Dali. E Paco de Lucia e Estopa, claro.

Mas vou em busca da minha essência, ou seja, da merda. E merda eu posso encontrar em qualquer lugar, convenhamos. Menos em Montreal, talvez, que também é uma possibilidade que andei considerando. Não sei nem o que eu faria num país tão asséptico. Sou capaz de provocar uma infecção no Canadá. Só iria pra lá pelos festivais de jazz e pelo frio, pela proximidade de amigos queridos. Pra aprender a língua, quiçá. O fato é que Montreal já foi uma opção mais sólida, hoje esmaeceu um pouco.

Há ainda, Buenos Aires, sempre plena de álcool, cultura, vida e merda. Do jeito que eu gosto. E com a vantagem de termos a intimidade de anos de convivência. Fantasmas, teria vários: o tio Borges, Cortázar, Sabato. Poderia transitar por locais caros a mim, como a El Ateneo e o Malba. Montar um pequeno estúdio em Palermo, ou quem sabe Santelmo, se a coragem me assaltar, pra riscar algum conto.

Queria sumir, apagar meus rastros. Escrever outras histórias, não pela vergonha de ser o que sou, mas pela aventura de ser outra coisa. Se pelo menos eu não fosse tão covarde...

domingo, 4 de abril de 2010

Apogeu e glória do homem solteiro no mundo pós-moderno

- Bom dia, senhora!
- Bom dia, senhor! Em que posso ajudá-lo?
- Eu gostaria de devolver esse produto aqui.
- Mas, senhor, esta é a Madonna Hot 840, nosso melhor modelo de boneca inflável!
- Eu sei, mas mesmo assim gostaria de devolver.
- O senhor tem certeza? Nunca tivemos reclamações antes... O senhor seguiu as instruções direitinho?
- Minha senhora, eu li o manual inteirinho, mas mesmo assim não estou satisfeito.
-Incrível! O senhor me desculpe, mas precisamos fazer algumas perguntas para o servico de assistência ao consumidor da companhia. Do que o senhor não gostou propriamente?
- Bem, tem várias coisas. Pra começar, ela é muito carente, demanda muita atenção.
- Senhor, ela é apensas uma boneca.
- Eu sei, mas ela fica lá, pelada, me olhando de boca aberta. É muito pra minha cabeça.
- Mas, senhor, o único cuidado necessário é mantê-la longe do calor, passar lubrificante antes e lavá-la bem depois.
- Viu só!? É muita coisa Não estou preparado pra um relacionamento dessa magnitude, entende? E depois ela nunca está contente. É muita pressão...
- Senhor...
- É esse olhar, sabe? E essa boca... Parece que está o tempo todo perguntando "por que você não me leva nunca pra sair?". E na hora H, é como se dissesse "meu bem, hoje você não está nos seus melhores dias". É horrível.
- Veja bem, senhor...
- E por que ela te mque vir pelada? Com certeza deve ser pra me forçar a levá-la ao shopping. Aí ela vai passar mais de quatro horas lá provando todo tipo de roupa, pra no fim das contas levar um mísero trapo dois números menor do que o que ela deve usar, e quando chegar em casa vai começar a ladainha: "amor, essa roupa me deixa gorda?" É um inferno!!!

- Senhor, talvez bonecas não sejam mesmo o produto mais apropriado para o senhor. A política de devoluções da companhia não permite devolver seu dinheiro, mas o senhor pode levar outra mercadoria no mesmo valor.
- Hmmmmmmmmm, realmente nao sei... Não tenho idéia do que levar.
- Talvez o senhor prefira levar um vibrador.
- Mas o que é isso, minha senhora?!? A senhora perdeu a cabeça?!? está insinuando que eu sou o quê?!?
- Mas, senhor, pense bem: é uma peça simples, cabe numa gaveta. Não tem boca, não tem olhos. Não fala nem pensa nada. E o senhor não precisa ficar olhando pra ele o tempo todo. Nada de ser julgado nem sentir-se pressionado.
- Minha senhora, a senhora deve achar que eu estou louco.
- ... não precisa discutir relação, levar pra jantar, pagar as contas. Nada de ligar no dia seguinte, nem lembrar datas importantes. e pelo preço da Madonna Hot 840, o senhor pode levar esse kit top de linha, com acabamento cromado, que vem nesse lindo estojo estofado, tem wi-fi, um ano de garantia, bateria solar opcional e pode ser usado como abridor de garrafas também...
- Francamente, minha senhora...
- E na hora H o senhor não precisa fazer quase nada, É só ficar deitado.
- ...
- E tem mais uma coisa: se não der certo, o senhor não precisa se incomodar com pensão.
- Embrulha um com o estojo vermelho, por favor!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Garatuja

Tem concessões que eu simplesmente não faço.

Eu não bebo vinho em copo de requeijão, não como yakimeshi com garfo e não afrouxo a gravata, porque acredito que o prazer de certas coisas não está somente em seu objetivo, mas também em seu ritual.

Eu não colo adesivos no carro, não faço notas em livros e não rasgo pacotes de presente, porque me apraz o estado imaculado de certas coisas somente pelo fato de assim estarem: imaculadas.

Eu não namoro meramente pra não ficar sozinho, porque sei que a pior solidão é aquela que a gente sente do lado de outra pessoa, e a pior saudade é a que temos de nós mesmos quando não nos vemos no outro.

Eu não dou conselhos e não julgo, porque tudo que eu acreditava certo há alguns anos hoje é baboseira, entendo que estar errado é parte do processo de ser humano, tenho poucas certezas e me estigmatiza a perspectiva de que amanhã tudo o que eu disse hoje possa não valer pra mais nada.

Eu sou somente o quê e onde estou nesse momento. E a única garantia que possuo é a de que amanhã não serei igual, mas continuarei sendo eu. Estou em constante transformação, muitas vezes evoluindo, mas outras só apodrecendo mesmo. Sou essa garatuja, essa expressão visceral, primitiva, em busca de arte-final. Pra sempre.

sábado, 6 de março de 2010

Sintonia Fina

Deixa eu desfazer uma pequena injustiça que cometi uns posts atrás. Todo mundo sabe que não morro de amores pelo Nelson Motta, nem acho que descobrir o Lulu Santos ou comer a Marília Pêra transforma alguém em entendido de alguma coisa. Pra mim, a crítica musical dele é rasa e direcionada. Tá dito. Mas vale a pena perder uns minutos pra ouvir o programa que ele edita pro rádio, o Sintonia Fina. Aqui em Brasília, passa na Verde Oliva FM, três vezes ao dia. Através do programa conheci muita coisa que hoje ouço diariamente, como Gabriela Anders, Delikatessen, Fabiana Cozza, Alela Diane, etc. Além disso, pelo programa fiquei sabendo do disco novo da Roberta Sá, do projeto alternativo do Arnaldo antunes, da parceria antiga do João Donato com a Paula Morelenbaun, entre outros. Sempre vale a pena, e a gente filtra o que interessa. Pra quem se interessa, vale a dica, o link do site é http://sintoniafina.uol.com.br/. Ouça lá e depois me conta!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Veludo


Hoje me convidaram pruma festa no Velvet Pub, que eu nem conhecia. Curiosamente, e com frescuras à parte, veludo é uma das palavras que eu mais gosto na língua portuguesa. Aliás, mais do que isso, talvez seja o conceito mais impregnado de referências agradáveis entre todas as línguas (que eu conheço, pelo menos).

Velvet, em inglês, me lembra do Velvet Underground, dos gênios Lou Reed e John Cale, da musíssima Nico e, por consequência, do pop Andy Warhol. Também na música, tem o Velvet Revolver, que é um Guns com o Scoot Weiland (ex-Stones Temple Pilots) cantando, e que eu curto. Por último, tem o belíssimo The Blue Velvet, filme clássico do David Lynch, que tem a Isabella Rosselini pra deixar qualquer um louco, tudo com a trilha sonora do Angelo Badalamenti, esquizofrênica como sempre.

Em espanhol, veludo se diz terciopelo, que deve ser o som mais sensual produzido pelos falantes desse idioma no interregno das suas vidas. Só a sonoridade da palavra - que é formada pela corruptela da expressão tercero pelo - já seria suficiente pra me levar ao orgasmo, mas ainda tem o bônus da memória da bandinha colombiana Aterciopelados, que eu adorava quando era mais novo.

Pra encerrar, tem velours em francês, velluto em italiano e samt em alemão, que eu descobri pesquisando na internet. E ainda, Janaína Boquinha-de-Veludo, dançarina de um casino clandestino que tinha na minha cidade natal, que sempre instigou minha imaginação até eu descobrir que a realidade era bem mais interessante...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Vaso


O Vaso está no canto da sala, sobre a adega climatizada, junto com as cerâmicas de Ouro Preto e as adagas de Cartum. É uma esfera perfeita, sulcado pela textura do barro que o compõe, e repousa tão sossegadamente em seu nicho que passa a impressão, algumas vezes, de estar coroando um altar ou coisa parecida.

O Vaso foi comprado no Rio de Janeiro, e apesar de não ter merecido um poema do Bilac, foi feito pelas mão de uma famosa ceramista e trocado a peso de ouro numa loja de decoração do Jardim Botânico. O vaso viajou de avião pra Brasília, protegido como uma criança, pelos braços zelosos do seu novo dono e por metros de plástico-bolha.

O Vaso é lembrança das melhores épocas com a bem-amada, e juntamente com o calendário do Gideon Gadan e o quebra-cabeças do Renoir, correu o risco de ser arremessado ao lixo na fase negra, mas atualmente ocupa seu espaço sem dor.


O Vaso é perfeito na forma, mas carrega o estigma terrível de ser parte de um amor falecido. O altar do Vaso já foi um mausoléu, mas hoje tenta ser nada mais que um vaso. Com minúscula. O Vaso é lindo, mas amaldiçoado. E - como eu - está condenado a ser uma forma plena somente de vazio...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O peso dos anos...

Só quem passa por essa experiência pode saber realmente o que é ficar velho.

Acabei de voltar do shopping com a herdeira, onde acabei comprando um CD da Lady Gaga pra ela. Lady Gaga. Nada de Xuxa, nada de Backyardigans, essas coisas de criança. Barney, aquele dinossauro roxo mongolóide, então, nem pensar. Lady Gaga, entende? Daqui a pouco vai começar a vida noturna, namorados, essas coisas que acabam com o sono de um pai-múmia-ciumento-carente. É inexorável.

De brinde, ainda ganhei na testa um comentário pra enterrar de vez qualquer múmia como as da minha humilde espécie. Ao comentar, pra tentar ser mudééérno, que, em matéria de música eletrônica, o bom mesmo era Fatboy Slim, tive que ouvir na lata que Fatboy Slim só tem música antiga.

Mesmo sabendo que pra geração da "Srta. Marcelinho Jr." antigo é tudo o que tem mais de seis meses, o comentário atacou o meu reumatismo. E agora mesmo eu vou é pegar meus óculos e meu cobertorzinho pros pés e assistir o Raul Gil com meu gato Austregésilo de Athayde, pobre criatura...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Fechado pra balanço


Minha preta chegou. Tomando conta de tudo, como sempre. Já está doida pra ir à praia, brincar nos parques, revolver a areia com aquela criancice faceira que só as meninas-moças do alto de seus 10 anos possuem.

De forma que sobra pouco tempo - menos do que o habitual - pra escrever alguma coisa. O que tem aqui são coisas de pequena importância, menos ainda perto dessa figurinha feita da minha carne e culpa. Então é isso, vou fechar as portas pra ir por aí viver. Em Fortaleza, com minha preta, que isso é que importa.

Então é isso aí, valeu pela força! 2009 foi um ano bom, 2010 tem tudo pra ser ainda melhor. Volto quando não tiver coisa melhor pra fazer. De novo.