sábado, 28 de novembro de 2009

Resoluções por Minuto

Eu sei que todo mundo gosta, mas adoro obras sobre resistência política, militância ideológica, coisas do gênero. Filmes como O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias e La Faute à Fidel, ou livros como o último do Mario Benedetti (Primavera Num Espelho Partido) ou mesmo A Moscal Azul, do Frei Betto, que narram o sofrimento de presos políticos ou somente relevam a personalidade daqueles que não se prostituem diante do sofrimento me dão verdadeiros orgasmos intelectuais

Respeito muito as pessoas que pagam caro por não se deixarem dobrar, muito porque sou completamente diferente delas. Sou uma putinha bem fácil, por assim dizer. Não porque aceite resignadamente a ideologia alheia, mas porque não sou capaz de morrer pelos meus ideais. Se estivesse num filme sobre a ditadura, eu seria aquele cara que é capaz de qualquer coisa desde que fosse pra tirar o próprio fiofó da reta.

E daí que eu, que abomino esses coitados que, na arte, fazem tudo pra continuar nos holofotes, como a Tizuka Yamazaky e o Sidney Magal, sei que agiria da mesmíssima maneira se estivesse no lugar deles. Malcomparando, sou como o Paulo Ricardo. Quando era mais novo, era bonitinho e charmoso, e todo mundo achava que eu ia mudar a cara da música brasileira. Eu regravava Caetano e compunha músicas sobre olhares numerados e cervejas que eram quase uma religião.

Mas a marcha do tempo é inexorável e pra continuar vivendo do meu jeito afetado de cantar, eu abri mão da minha dignidade, gravei todo tipo de música com todo tipo de parceiro, e até na musiquinha da abertura do Big Brother eu dei uma canjinha. De tempos em tempos eu apareço com um projeto novo completamente sem personalidade, procurando desesperado atenção e dinheiro. Não tem como negar que eu sou lamentável.

Pois é. Eu, que sou como o Paulo Ricardo, sou triste, um vendido. A diferença é que nunca tive meu momento e, definitivamente, não comi a Luciana Vendramini...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Colocando a casa em ordem

Agora que passou a loucura de trabalho no segundo semestre, as férias chegaram e tenho tempo de ficar em casa de bobeira, estou me dando conta da bagunça que estava a minha vida nos últimos tempos.

A conta de luz, tinha quatro meses que eu não pagava. As roupas da lavanderia estavam há quase o mesmo tempo em cima do sofá, esperando pra irem pras gavetas. Meu carro estava em petição de miséria, cheio de roupas pra doação e com vários grilos pro mecânico dar conta. Os CDs fora de ordem, os livros jogados em qualquer canto, papéis espalhados pela casa, leite azedando na geladeira. Até o blogue eu abandonei, pra evitar ficar fazendo post imbecis sobre meu poddle cor-de-ros ou coisas do gênero.

A loucura passou, a correria passou e a depressão está passando. Tenho muitas coisas pra arrumar, e todo o tempo do mundo. Muitos planos, muitas expectativas, muitas incertezas, o que é bom. Até a próxima onda me dar um caixote, até a próxima fase de loucuras chegar, até a próxima... O lance agora é sacudir a poeira, esticar os músculos e ficar zerado e pornto por que vier.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sunset Boulevard

Era um bingo, amada.

Lembra daquela estrutura suntuosa, de gosto duvidoso, com escudos zulus e uma estátua iorubá enorme na fachada frontal, que - ao passarmos em frente a ela de táxi pela 23 de maio, em São Paulo - chegamos a achar que era um centro cultural ou um museu de arte africana?

Era só um bingo. Seu nome era Imperatriz 23 (afinal ele ficava na 23 de maio) e, pelo que soube, entre interdições e liminares, funcionou como um dos maiores bingos da América Latina por menos de três meses, mais algumas semanas como casa de shows. Depois de tudo, foi isolado por uma trincheira de blocos de concreto e está lá abandonado até hoje. É só um monumento ao passado.

No fim das contas, talvez tenha sido isso que aconteceu com nosso amor. Fizemos do nosso casebre Fallingwater House. Da nossa pequena aventura Out of Africa.

Os lençóis, as toalhas, os livros e os CDs, as mesas de centro, talvez não passassem mesmo disso, mobília barata. As viagens inesquecíveis, as palpitações, as borboletas no estômago, o suor na palma das mãos, hoje parecem meros sintomas de pânico, se perderam no seu medo e na minha incapacidade.

Nosso amor não sobreviveu à mediocridade da vida real. Aquilo que era pra ser a maior paixão do mundo, o amor de seres tão perfeitos, não aguentou os problemas cotidianos. Ninguém mora na Fallingwater, não existe Out of Africa, e todo mundo sabe que os museus foram feitos pra verem milhares de gerações passarem, mas não acomodam uma simples família.

Nosso amor virou aquela coisa enorme, mostruosa, dificil de dirigir e impossível de manter. Um titanic mantendo impávido sua rota rumo ao iceberg.

O que parecia o amor de um mundo, era só um bingo. Uma catedral decadente. Quem dera fosse só um casebre...