segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O cão e o frasco*

"Meu belo cão, meu bom cão, meu querido totó, aproxima-te e vem respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade."

E o cão, abanando o rabo, que é, julgo eu, nestes pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e pousa curioso seu úmido nariz no frasco desarrolhado; depois, recuando subitamente apavorado, ladra contra mim, reprovador.

"Ah, cão miserável, se eu te tivesse oferecido um monte de esterco, tê-lo-ias farejado com delícia e quiçá devorado! Assim, também tu, indigno companheiro da minha triste vida, te pareces com o público, ao qual não se devem nunca apresentar perfumes delicados que o exasperem, e sim porcarias cuidadosamente escolhidas."

*Charles Baudelaire