quinta-feira, 30 de julho de 2009

Bela Adormecida 2099

Tipo assim: era uma vez um homem muito poderoso que se casou e teve uma filha. Algumas décadas atrás, esse mesmo homem tinha sido um policial corrupto que havia montado uma milícia para proteger uma comunidade carente do Rio de Janeiro e acabou enriquecendo às custas das taxas de proteção.

Sua filha, após catorze intervenções cirúrgicas, dentre as quais duas próteses de silicone, aplicações regulares de toxina botulínica, uma operação para redução de estômago e outra para correção de lábio leporino, havia se tornado uma garota interessante, às vésperas de completar suas quinze primaveras. Seu pai, aproveitando a ocasião, no afã de promover a felicidade da filhota e ratificar seu prestígio junto à comunidade local, ocupava-se de planejar a mais bela festa de debutante que seu dinheiro podia financiar.

No dia da comemoração, que contou com a presença de várias celebridades de menor escalão, uma socialite paulistana decadente com prováveis ligações escusas com o tráfico de drogas, teve um surto psicótico por não ter sido convidada para a festa. Sob o efeito de barbitúricos, apareceu na festa e, sob berros e praguejos, jurou que a menina pagaria pelo desleixo do pai quando completasse a maioridade.

Os pais, muito preocupados, passaram a cercar a filha de cuidados, que incluíam transporte em carro blindado, segurança armada, CFTV, GPS, e outras siglas mais. A pequena, que só saída de casa acompanhada de sua brigada, passou a ter aulas particulares em casa e desenvolveu a vida praticamente em função de sites de relacionamentos e salas de bate papo na internet.

Um belo dia, entretanto, perto de completar seu aniversário de dezoito anos, seu professor de natação sugeriu que a menina tomasse algumas doses de estanozolol para fortalecer a musculatura e melhorar seu desempenho nas psicinas. O esteróide, obviamente, era ilegal, mas o professor podia obtê-lo facilmente, mediante o pagamento de uma quantia razoável. A pequena, que duvidava que seu mestre pudesse querer o seu mal - afinal o provia de favores sexuais há quase dois anos -, tomou as pílulas tão logo as conseguiu. Por um pequeno percalço do destino, seu organismo reagiu mal ao coquetel de anabolizantes, somado às anfetaminas e anorexígenos que nossa heroína tomava desde a puberdade, que acabou por levá-la a um estado de coma irreversível.

Seu amado pai, após ordenar a execução sumária de todos os professores de educação física da filha, passou a procurar desesperadamente uma solução para a tragédia da família. Gastou boa parte de sua fortuna com juntas médicas de universidades respeitadas, tratamentos revolucionários ainda não autorizados pelos Conselhos de Medicina, cirurgias espirituais e rituais cabalísticos dos nativos americanos disponibilizados na internet. Com o passar dos anos, porém, seu ímpeto se arrefeceu e ele passou a aceitar resignadamente o destino de sua herdeira.

Quando a princesa completou vinte e um anos, contudo, um belo rapaz apareceu à porta da mansão da família (que, aquela altura, estava hipotecada). Ostentando uma impecável indumentária branquíssima (justificadamente, pois o rapaz era médico ou pai-de-santo), alegou ter encontrado, finalmente, a solução definitiva para reverter o estado da enferma. O rei, que havia perdido tempo, dinheiro e esperança com charlatanices de toda espécie, concordou desconfiadamente e deixou o rapaz entrar. Após meses de tratamento intensivo, à base de um método revolucionário que utilizava células-tronco contrabandeadas ilegalmente de hospitais africanos, a princesa teve uma recuperação milagrosa e acabou se apaixonando pelo médico/príncipe/pai-de-santo.

Nosso rei, que voltara a ganhar dinheiro fornecendo equipamento de logística para as operações do Primeiro Comando da Capital, recobrou a alegria de viver e iniciou planos para o casamento do belo par o mais brevemente possível. A cerimônia foi realmente linda e todos foram quase felizes para sempre. Pena que descobriram que o rapaz era formado na Bolívia e exercia ilegalmente sua profissão no Brasil, razão pelo qual foi condenado e preso. A menina, que jurava ter vivido experiências de pós-morte durante seu coma, foi morar com uma amiga muito próxima em uma comunidade alternativa e acabou morrendo de tétano ao pisar em um prego enferrujado quando fugia de um bando de sem-terra que reivindicavam o terreno da comunidade como terra improdutiva. Aí veio a Globo, comprou os direitos da história e fez uma minissérie. Aí sim todos foram felizes para sempre...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A nora que mamãe pediu a Deus


Schopenhauer escreveu uma vez - acho que em Dores do Mundo - que "nem todos os loucos ou burros são fanáticos, mas todos os fanáticos são loucos ou burros". Ele mesmo era um pouco fanático, razão pela qual não é bom ficar dando muita corda pro coitado. Mas é difícil não concordar ele lendo o blogue da Cleycianne - uma serva do Senhor no mundo da internet. A porra toda é uma coleção de sandices tão inadvertidamente colocadas sobre o mundo do entretenimento visto pela ótica de uma lunática, que vale passar uns minutos lendo tudo: o link é http://cleycianne.blogspot.com, mas pra quem não tem paciência ou tempo, eu pincei o top five das pérolas da moça:

1 - "
Madonna não acredita na Bíblia, duvida da palavra do Senhor e leva milhões de homossexuais para os seus shows (onde se esfregam e até chegam a ejacular uns nos outros)."

2 - "
Homossexualidade tem cura minha gente!! É só procurar o caminho do Senhor..."

3 - "P
ois como todos sabemos quando a mulher se casa ela tem que ser submissa ao seu marido, que vai ditar as regras e o comando da casa."

4 - "
Creio que a Rihanna não deve ter feito o papel de uma mulher cristã de verdade e não se calou diante da vontade de seu homem, por isso acabou causando sua ira e apanhou dele."

5 - "A
opinião do homem é sempre a mais importante, e não devemos confrontá-la verbalmente ou com ações, o que podemos fazer é orar para que ele mude de idéia!!"

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Auto do enterrado vivo

Hoje faz um mês que morreu o poetinha Mario Benedetti. O uruguaio faz parte, juntamente com Stacey Kent, Elizabeth Fonseca e outros, do espólio cultural que a bem amada deixou antes de desaparecer por completo da minha vida. São coisas que levarei pra sempre, já postei algumas coisas dele aqui, e ainda me surpreendo em perceber o quanto me identifico com o que ele escreve. Quando fiquei sabendo - alertado pela própria bem amada - que ele tinha morrido, havia comprado seu último livro, Primavera num Espelho Partido, apenas dois dias antes. Num capítulo desse livro, que mistura romance com notas biográficas, achei outro pedaço de texto que expressa um dos maiores medos que trago na vida:

"
Como em todas as tardes, chegou a seu apartamento, provavelmente se deitou e só se ficou sabendo dele vários dias depois, quando os colegas de trabalho, estranhando sua ausência, foram bater em sua porta e, ao não obterem resposta, trouxeram a polícia para abri-la.

Estava em sua cama, ainda com vida, mas já sem sentidos. Um derrame tinha provocado uma hemiplegia. Estava naquele estado havia pelo menos três dias. De nada valeram os cuidados intensivos.

A rigor, não morreu de hemiplegia, mas de solidão. Os médicos disseram que, se tivesse sido encontrado a tempo, teria certamente sobrevivido. Quando seus amigos o encontraram, já tinha perdido os sentidos, mas se supões que, pelo menos durante as primeiras vinte e quatro horas, soubesse o que estava ocorrendo.
"

domingo, 12 de julho de 2009

A difícil arte da conversação (verídico)


- Você viu a corrida hoje de manhã?

- Que corrida?
- A fórmula 1.
- Não vi não. Como foi?
- Foi muito boa.
- Quem venceu?
- Um cara aí, não me lembro o nome...
- Sei. E o Massa?
- Ficou em terceiro. Ou sexto.
- Terceiro ou sexto?
- Não sei bem...
- Tá. E o Rubinho?
- Que Rubinho?