terça-feira, 23 de junho de 2009

O Falsário

Dei um tempo de tudo ontem e saí pra me divertir comigo mesmo. Saímos nós dois - eu e eu - pra fazer um programa bem light, já que não posso me dar ao luxo de muitos excessos. Levei-me pra tomar um suco, comprar uns livros e pegar um cineminha.

Como há muito tempo não me cortejava, acabei fazendo todas minhas vontades: comprei um Revolução dos Bichos - porque da primeira vez que li me encantei mais com os anmais falando do que com as metáforas do livro; alguns CDs e uma versão encadernada de Watchmen, aquele do Alan Moore, porque eu só tinh
a a minissérie original que foi editada na época (uns duzentos anos atrás) e que eu devo ter perdido em uma dessas mudanças de casa.

Aproveitei pra bater papo com uma amiga querida que trabalha (demais, viu?) na livraria e ainda dei a sorte de dividir meu suco com outras amigas que encontrei em um café enquanto fazia hora pra assistir meu filmezinho. Que sina feliz dessa gente que, mesmo sendo meio cinza, sai numa terça à noite e ainda encontra outras gentes pra dividir os minutos de solidão! Despedi-me desse povo e fui ver meu filme, que escolhi meio no tapa.

De tempos em tempos - cada vez mais raros, por si
nal - um filme, um livro, um poema, detona a minha cabeça de tal maneira que fica até difícil dormir depois. Foi o caso de Os Falsários (Die Fälscher), que acabei escolhendo -confesso - em homenagem à outrora bem-amada, que tanto se compraz da produção artística teutônica. E eu, que evito fazer resenha nesse blogue, me obrigo agora a uns pequenos comentários filosóficos-cinematográficos.

O filme mostra um grupo de judeus que é selecionado pra participar de uma operação nazista pra falsificar dinheiro, e acabam numa sinuca de bico: se eles cooperam, ajudam a financiar o nazismo e fodem com todos que ele gostam; se não cooperam, morrem, ou seja, fodem com eles mesmos.

E é expondo essa dualidade de forma visceral que o filme é genial. E em deixar de lado aquela baboseira de judeuzinho-que-sofre-e-alemãozão-que-bate. Enquanto quase todo povo hebreu faz tudo certinho pra tirar o seu respectivo cu da reta, um dos judeus resolve virar mártir - justamente um dos essenciais pro processo de falsificação da grana - atrasa o esquema todo e todo mundo quase vai pro saco por causa disso. No fim, depois de sentirem mal pelas regalias conseguidas (camas com colchões e mesa de pingue-pongue, por exemplo) por fazer o serviço sujo dos nazi, alguns falsários contam sem nenhum pudor às vitimas legítimas dos campos de concentração, a história de como boicotaram os planos alemães resistindo até o final.

Fiquei assombrado pela identificação que senti pelo protagonista, um falsificador cínico e manipulador que a certa altura diz: "não vou dar aos nazistas a alegria de sentir vergonha por estar vivo". Pensei em quantas vezes vendi meus sonhos pra poder seguir em frente. Quantos discursos pronunciei pra justificar a falta de coragem pra abrir meu próprio escritório, a necessidade (nem tão necessária assim) de ganhar dinheiro rápido, e a inevitabilidade de ter virado um covarde pra poder sobreviver.

Por outro lado, não pude deixar de ficar aliviado em constatar que a iniquidade faz parte da natureza humana. Deve ser o chamado instinto de sobrevivência. Não vou ganhar uma estátua com meu nome, mas vou garantir a educação da minha filha. Não vou acabar com o nazismo, mas vou ficar vivo pra ajudar de alguma forma, mesmo que essa forma nunca chegue. O mártir do filme foi hostilizado, ridicularizado e até agredido. É o que tenho vontade de fazer às vezes com gente que não se encaixa no esquema. O lance é dançar conforme a música, estando dentro do jogo é mais fácil marcar gols. O foda depois é a tal crise de consciência. Passo o tempo todo achando que não mereço o que conquisto. Eu sou o meu próprio falsário.

Mas enfim, quem puder assiste o filme, come uma pipoqunha, e de quebra ainda presencia uma das cenas mais bonitas dos últimos tempos, onde um prisioneiro fura o dedo e usa o próprio sangue pra dar um pouco de rubor ao rosto de um menino que está com tuberculose, evitando que ele seja executado. Antológica.

P.S.: eu nem fiz menção nem nada, mas esse filme foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008. O que não quer dizer nada, mas vale o registro.

domingo, 21 de junho de 2009

Das 100 coisas que eu mais gosto na vida

Ando querendo colocar as coisas no lugar. Arrumando gavetas, esvaziando velhas caixas de papelão, catalogando revistas e livros antigos, essas coisas. No fundo da cômoda da TV, encontrei um velho caderno que fez parte de uma época estranha da minha vida, o fim da adolescência.

É um caderno fino, de capa tribal dura, com as páginas amareladas repletas de poemas escritos com letra miúda, meus e de outros. Dos meus, morro de vergonha, mas os outros escritos dizem muito do que se passava com o Marcelo de então.

Além dos poemas, algumas anotações interessantes, dentre elas as listas das 100 coisas que eu mais gosto e das 100 coisas que eu mais odeio. Achei que valia a pena comentar os mais interessantes. Das coisas que eu mais amava há 15 anos:

1 - sexo (estranho esse tópico, porque se eu fizesse sexo naquela época, provavelmente não escreveria um caderno de poemas)
2 - pizza e biscoito recheado (eu ainda adoro junk food, mas hoje dispensaria sem beicinho essas duas)
3 - vida após a morte (com 18 anos e pensando nisso???)
4 - Arnaldo Jabor (reacionário, não dá pra entender com eu, que sempre tive inclinações políticas de esquerda me deixei seduzir por ele)
5 - London Pub (tive que buscar no google pra lembrar, mas era um barzinho/boate muito bom em Uberlândia)

Das 100 coisas que eu mais odiava:
1 - maracujá (meu ódio mais consistente, se um dia inventarem um super-herói com meu nome, o maracujá vai ser o meu Lex Luthor)
2 - camisa polo (esse já não vale mais, hoje em dia tenho uma bela coleção delas)
3 - Corpo de Bombeiros, Julia Lemmertz e medicina (hein???)
4 - Leila Pinheiro (o mesmo caso da camisa polo, mesmo que a minha coleção de Leila Pinheiro seja menor)
5 - minha mãe (outra raiva consolidada, mas que tive a sorte de desmantelar nos últimos meses)

quarta-feira, 10 de junho de 2009