sábado, 23 de maio de 2009

Pré-elegia

23 de maio de 1976. Daqui a menos de uma semana, nascerei em Bento Gonçalves, numa manhã de inverno, a última em que se registrou neve nessa cidade gaúcha. Serei o segundo filho de um casal normal, descendente de italianos, correntinos e caboclos. Na minha primeira casa, pequena e feita de madeira, serei irremediavelmente feliz, junto aos cachorros e ao enorme abacateiro, às teias de aranha da adega subterrânea e ao meu irmão, que passará a vida ao meu lado, a me repreender e a me proteger, encargo do qual ele não abrirá mão até o fim dos nossos dias.
Mudarei de casa aos quatro anos, esta um pouco maior, conhecerei amigos para a vida toda, jogarei bola no meio da rua, explorarei as matas lindeiras, arrebentarei a cabeça andando de bicicleta e pulando nas obras do bairro, sempre com o sorriso fácil, que me forçará a fechar os olhos de tão largo.
Aos dez, conhecerei Brasília, meu primeiro caso de amor, embora não à primeira vista. Mais uma vez amigos inesquecíveis, jogos de bat no meio da rua, atravessando as quadras de bicicleta, à sombra das mangueiras e embalado pelo doce – e até então desconhecido – zumbido das cigarras.
Chegará a adolescência, e com ela as primeiras desilusões afetivas, as primeiras privações financeiras, as primeiras rejeições sociais. Os óculos e os quilos a mais pesarão sobre minha cabeça com a força de mil martelos e as consequências doerão em mim e nos que eu gosto por muitos e muitos anos.
Mais pra frente, aos quinze, meus pais separar-se-ão, depois de brigas homéricas e barracos em plena madrugada. Minha vida virará uma confusão, cada ano ou semestre será passado em um lugar diferente, e minha única certeza será a de ter perdido o caminho. Após um ano morando de favor com um tio, de novo em Bento Gonçalves, desenvolverei os sintomas de uma companheira pra vida toda: a diabetes. Emagrecerei vinte quilos e passarei a usar lentes de contato, o que fará muita diferença, por incrível que pareça.
Voltarei pra Brasília, irei pra Uberaba, aprenderei a cozinhar, a tocar violão, a seduzir, a mentir pra conseguir o que eu quero, a ser frio pra ser admirado, lerei Rimbaud, Neruda e Leminski, tomarei meus primeiros porres de respeito, ensaiarei meus primeiros namoros, criarei mágoa da minha mãe, largarei a Engenharia e passarei entre os primeiros em Arquitetura, já envolvido em meu segundo grande amor, agora por uma mulher, que virá a ser mãe da minha filha.
Serei pai aos 23, e minha única certeza será a de ter reencontrado o caminho. Trabalharei unicamente para bancar as viagens a Buenos Aires, para administrar meu amor em pílulas por essa filha tão parecida comigo que chegará a me amedrontar. Farei a mãe dela sofrer, formar-me-ei entre os últimos da turma, embora reconhecido como ótimo profissional por professores e colegas. Ganharei pouco dinheiro trabalhando doze horas por dias, sete dias por semana, e perceberei que meu potencial permitir-me-á dar mais conforto pra minha filha, bastando pra isso que eu prostitua meus ideais profissionais, o que nem será tão grave.
Passarei em concursos públicos, trabalharei no Itamaraty, onde conhecerei mais amigos geniais e meu terceiro amor – esse bem efêmero –, viajarei ao Cazaquistão, e tornar-me-ei cada dia mais frio e distante, acreditando estar fazendo o necessário pra sobreviver.
Serei chamado pra trabalhar num lugar que parecer-me-á uma favela, passarei os sábados organizando arquivos e documentos, enfrentarei empreiteiras milionárias, comporei comissões com brilhantismo e chamarei a atenção pra minha capacidade profissional. Em dois anos virarei chefe da favela, terei dinheiro e status razoáveis, e parecer-me-á que valeu a pena ter aberto mão temporariamente dos meus sonhos.
Conhecerei e perderei, então, meu quarto e maior amor, desaparecerá meu chão e meus valores virarão de cabeça pra baixo, assim como o resto da minha vida. Perceberei que perdi novamente o caminho, deixando amigos, família e amores pra trás. Chorarei, alternarei noites acordado com noite de sono torpe, alcoolizado. Mas farei o possível pra reparar meus erros, dessa vez sem raiva e com muita paciência.
E em 29 de maio de 2009, comemorarei, junto com meus 33 anos de vida, seis meses de renascimento. Com minha família, amigos (antigos e novos) e amores, paz e dinheiros vindouros. E com festa, é claro...

12 comentários:

Irene disse...

Que covardia!
Eu querendo te esquecer, e vc coloca uma foto de quando era criança.

Agora entendo por que me apaixonei por aquele sorriso enigmático. Ele carrega parte da sua história.
Ainda assim, tão doce e belo quando olhava para mim!
És um vencedor, um guerreiro!
Quero que sejas muito feliz, meu querido.
Beijos.

Marcelo Faccenda disse...

Ehehehehe... Só pra deixar claro, eu sou o menino com a blinha verde no colo... O da frente com a cabeça meio baixa é a minha cadela, Brigitte...

Esse sorriso carrega uma história, Irene.. Infelizmente não só de batalhas dignas, mas foi o que deu pra fazer...
Beijos!

Bel Lucyk disse...

Aniversário chegando...
desistiu do filme sobre sua vida?

Marcelo Faccenda disse...

Desistir, não desisti não... mas acho que vou filmar mais tarde na vida, e deixar o Antônio Fagundes fazer meu papel, quem sabe... kkkkkkkkkkkkkkkkk!!!!! Beijo!

Indiara Oliveira disse...

Ufa! Ainda bem que você esclareceu que o da frente é a Brigitte...
Saudades!!!
Beijos

Marcelo Faccenda disse...

Kkkkkkkkkk!!! Ela ficava muito brava quando confundiam a gente, pq ela era de raça... Saudades tb! Sexta tem cachaça. Beijo!

PE disse...

Excelente texto!!!!!!!!
Ei, vamos jantar na quinta, 28?

Marcelo Faccenda disse...

Que bom que você gostou, garoto... Ananhã pra mim é ruim, mas sexta vou comemorar meu aniversário no Armazém do Ferreira, bora? Te mando o convite pelo celular amanhã.. Abração!

T.F. disse...

Uau!
Grande amigo que amo de paixão... belo texto. consegui entrar na história e visualiza-lo nos momentos que descreve.
Estarei lá para comemorar com vc essa data tão especial. Beijos. Tads

Marcelo Faccenda disse...

Nossa!!!! Que presença ilustre!!! Que bom te ver por aqui e melhor ainda se a gente se encontrar amanhã! Gostou mesmo do texto? Valeu! Beijos!

Vivi disse...

Hei, Querido!!

Todo ano eu prometo que não vou te desejar feliz aniversário pq vc nunca lembra do meu!!!

Mas eu não consigo...

Eu realmente gosto muito de você!!! (sem vaidades, por favor...) Cumpadre amado!!! Beijocas, viu? A foto é muito fofa!!!

Marcelo Faccenda disse...

Ah, Vivi... Não deixa o desleixo desse seu compadre besta te afetar, viu? Também te adoro e prometo que vou tentar lembrar do seu aniversário daqui pra frente, ok? Mil beijos e obrigado pela lembrança!