domingo, 31 de maio de 2009

Chuva de maio


São três da manhã do dia 30 de maio. Acordo pra dirigir pela cidade, fazer as idéias assentarem, calar as vozes. Está chovendo em Brasília, o que é estranho. As gotas que caem do céu avermelhado compõem um quadro surreal, de certa maneira. A média pluviométrica pra esse mês, desde que eu me lembro, é zero. A cidade está estranha, saindo dos padrões. Não se pode mais dizer o que vai acontecer, nem quando. Há 23 anos, quando cheguei aqui, podia-se arriscar com pouca probabilidade de erro, que nunca choveria em maio. Brasília era previsível. Hoje cada dia é uma surpresa.

Em mim, também chove em maio. Há alguns meses, busco sempre sair dos padrões, procuro ruas novas pra percorrer, gente nova pra conhecer, perdoo quando devia lutar. Agora, me interessam as situações que eu nunca passei, os problemas sem fórmulas pra resolver. A minha média pluviométrica histórica foi zero durante anos. Agora deixo a água da chuva bater e escorrer pela minha alma ressequida. Cada dia é uma surpresa.

Estranha atitude essa nossa, minha e da cidade. Se não soubesse que passamos por uma época de mudanças climáticas bizarras, juraria que Brasília está apaixonada...

sábado, 23 de maio de 2009

Pré-elegia

23 de maio de 1976. Daqui a menos de uma semana, nascerei em Bento Gonçalves, numa manhã de inverno, a última em que se registrou neve nessa cidade gaúcha. Serei o segundo filho de um casal normal, descendente de italianos, correntinos e caboclos. Na minha primeira casa, pequena e feita de madeira, serei irremediavelmente feliz, junto aos cachorros e ao enorme abacateiro, às teias de aranha da adega subterrânea e ao meu irmão, que passará a vida ao meu lado, a me repreender e a me proteger, encargo do qual ele não abrirá mão até o fim dos nossos dias.
Mudarei de casa aos quatro anos, esta um pouco maior, conhecerei amigos para a vida toda, jogarei bola no meio da rua, explorarei as matas lindeiras, arrebentarei a cabeça andando de bicicleta e pulando nas obras do bairro, sempre com o sorriso fácil, que me forçará a fechar os olhos de tão largo.
Aos dez, conhecerei Brasília, meu primeiro caso de amor, embora não à primeira vista. Mais uma vez amigos inesquecíveis, jogos de bat no meio da rua, atravessando as quadras de bicicleta, à sombra das mangueiras e embalado pelo doce – e até então desconhecido – zumbido das cigarras.
Chegará a adolescência, e com ela as primeiras desilusões afetivas, as primeiras privações financeiras, as primeiras rejeições sociais. Os óculos e os quilos a mais pesarão sobre minha cabeça com a força de mil martelos e as consequências doerão em mim e nos que eu gosto por muitos e muitos anos.
Mais pra frente, aos quinze, meus pais separar-se-ão, depois de brigas homéricas e barracos em plena madrugada. Minha vida virará uma confusão, cada ano ou semestre será passado em um lugar diferente, e minha única certeza será a de ter perdido o caminho. Após um ano morando de favor com um tio, de novo em Bento Gonçalves, desenvolverei os sintomas de uma companheira pra vida toda: a diabetes. Emagrecerei vinte quilos e passarei a usar lentes de contato, o que fará muita diferença, por incrível que pareça.
Voltarei pra Brasília, irei pra Uberaba, aprenderei a cozinhar, a tocar violão, a seduzir, a mentir pra conseguir o que eu quero, a ser frio pra ser admirado, lerei Rimbaud, Neruda e Leminski, tomarei meus primeiros porres de respeito, ensaiarei meus primeiros namoros, criarei mágoa da minha mãe, largarei a Engenharia e passarei entre os primeiros em Arquitetura, já envolvido em meu segundo grande amor, agora por uma mulher, que virá a ser mãe da minha filha.
Serei pai aos 23, e minha única certeza será a de ter reencontrado o caminho. Trabalharei unicamente para bancar as viagens a Buenos Aires, para administrar meu amor em pílulas por essa filha tão parecida comigo que chegará a me amedrontar. Farei a mãe dela sofrer, formar-me-ei entre os últimos da turma, embora reconhecido como ótimo profissional por professores e colegas. Ganharei pouco dinheiro trabalhando doze horas por dias, sete dias por semana, e perceberei que meu potencial permitir-me-á dar mais conforto pra minha filha, bastando pra isso que eu prostitua meus ideais profissionais, o que nem será tão grave.
Passarei em concursos públicos, trabalharei no Itamaraty, onde conhecerei mais amigos geniais e meu terceiro amor – esse bem efêmero –, viajarei ao Cazaquistão, e tornar-me-ei cada dia mais frio e distante, acreditando estar fazendo o necessário pra sobreviver.
Serei chamado pra trabalhar num lugar que parecer-me-á uma favela, passarei os sábados organizando arquivos e documentos, enfrentarei empreiteiras milionárias, comporei comissões com brilhantismo e chamarei a atenção pra minha capacidade profissional. Em dois anos virarei chefe da favela, terei dinheiro e status razoáveis, e parecer-me-á que valeu a pena ter aberto mão temporariamente dos meus sonhos.
Conhecerei e perderei, então, meu quarto e maior amor, desaparecerá meu chão e meus valores virarão de cabeça pra baixo, assim como o resto da minha vida. Perceberei que perdi novamente o caminho, deixando amigos, família e amores pra trás. Chorarei, alternarei noites acordado com noite de sono torpe, alcoolizado. Mas farei o possível pra reparar meus erros, dessa vez sem raiva e com muita paciência.
E em 29 de maio de 2009, comemorarei, junto com meus 33 anos de vida, seis meses de renascimento. Com minha família, amigos (antigos e novos) e amores, paz e dinheiros vindouros. E com festa, é claro...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Advogados e economistas


E aí que eu trabalho em lugar com um dos maiores déficits de vagas para estacionamento do Distrito Federal. Acho que, nesse quesito, perdemos apenas pro Setor Comercial Sul. Há algumas semanas, fiquei feliz ao perceber a movimentação de máquinas de compactação de solo na área próxima aos estacionamentos, pois achei - inocentemente - que o governo tinha se compadecido da situação e resolvido ampliar as vagas criando mais estacionamentos.

Pra minha surpresa, no dia seguinte, apareceu, nas cercanias da obra, uma placa com os dizeres "PRAÇA DA CIDADANIA DA OAB - CIRCULAÇÃO E LAZER". Ao invés de aumentar o número de vagas, beneficiando motoristas e pedestres - já que eles precisam andar desviando dos carros estacionados nas poucas calçadas disponíveis -, a benemérita Ordem dos Advogados do Brasil está presenteando a comunidade com uma bela praça em um lugar onde não passa ninguém e muito menos fica por lá coçando o saco.

Além de virar um espaço perfeito pra vagabundos e viciados passarem o tempo à noite, a praça vai avançar sobre os estacionamentos existentes, acabando com mais ou menos 80 das já escassas vaguinhas originais. Admirando essas incontestáveis demonstrações de inteligência e noção de realidade, e sabendo que essa corjinha domina o mundo, dá até pra ficar assustado pensando em onde a coisa vai parar...

***

Alguém vai dizer que não sabia? Só podia dar merda. Deixamos o mundo nas mãos de economistas, uns caras estranhos aí, e a crise financeira chegou matando.

Agora vamos analisar friamente: os caras só se comunicam em termos que ninguém - inclusive eles - sabe o que significa, explicam processos que não têm explicação e fazem prognósticos que nunca se concretizam, e ainda chamam economia de ciência. Mas é até compreensível: não dá pra esperar nada melhor do que um coitado que passou cinco ou seis anos na faculdade em uma turma repleta de caras remelentos e mal vestidos, e que, quando ficava com uma vontade incontrolável de apreciar um ser do sexo oposto, tinha que se contentar em olhar coisas - coisas mesmo - do naipe da Míriam Leitão ou da Zélia Cardoso. Se desse sorte, podia até achar uma Dilma Housseff.

Desse jeito, tenho que dar razão pra quem uma vez disse: economista é uma profissão que foi criada pra fazer os meteorologistas parecerem competentes...