terça-feira, 17 de março de 2009

Domingo no Parque

"Quer trocar essa bicicleta BMX Pantera por uma caixa de fósforos?"

Eu troco uma cobertura na Vieira Souto por uma casinha com cerquinha branca.
Eu troco uma Mercedes do ano por uma bicicleta de dois lugares.
Eu troco um emprego excelente e uma posição de respeito por uma salinha cheia de gente que eu goste.
Eu troco grana e posses por cerveja e batata frita.

"Quer trocar essa coxinha de rodoviária por um tênis Montreal vulcanizado antimicrobial?"

Eu não troco um almoço com a minha mãe por um encontro com o Presidente.
Eu não troco o carinho da minha filha por um Prêmio Nobel de Física.
Eu não troco o convívio dos meus amigos por um mês em Côte d'Azur.
Eu não troco o amor da minha vida por várias noites com a Penelope Cruz e a Eva Mendes. Juntas.
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Mas aqui, de dentro da cabine, não dá pra ouvir nada lá fora...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Croniquinha sem porquê*

Barra, Salvador. Boteco xexelento em frente ao meu hotel, cheio de cadeiras de PVC amarelas, espalhadas e empilhadas desordenadamente. Se não fossem da mesma cor, lembrariam uma pequena favela. Mas, pensando bem, lembram mesmo uma favelinha banhada a ouro, pode-se dizer. O bar se divide em argentinos e putas. Elas atrás da sobrevivência, eles atrás da bunda delas. Merda pra todos. Não sou argentino por nascimento e deixei de ser puta há alguns meses atrás. A lua, que era escarlate e me olhava desconfiada no início da noite, já se deixa contemplar, viçosa e fagueira, no alto do céu. Ao fundo, o horizonte se avermelha. Pode ser que chova mais tarde, o que vai deixar minha noite ainda mais difícil. Merda pra todos...

*à moda de Bukowski

quinta-feira, 5 de março de 2009

Amor tipo code key

Alguém conhece aquela piada do sádico e do masoquista? Não chega a ser uma piada, é uma daquelas troças de rotina infinita, mas não deixa de ser engraçada:

Masoquista: Me bate?

Sádico: Não bato!

M: Não faz assim. Me bate!

S: Nem pensar.

M: Só um tapinha...

S: Se você não parar, vou aí te fazer um carinho!

O Veríssimo escreveu sobre essa piada uma vez. Disse que o afligia. A mim, me fascina. Fico pensando que essa história de que tudo na vida tem algo que o completa pode ser verdadeira, no fim das contas. Um masoquist e um sádico: nada mais perfeito. Quando presto atenção nos casais que me rodeiam, não consigo deixar de perceber que os defeitos de cada um, que a mim parecem inapeláveis, são aceitáveis mais facilmente (e até desejáveis, vá lá) pelo outro que o completa. Parecem combinar-se mutuamente, como peças de um quebra-cabeças; a corda e a caçamba, no dizer popular.

M: Olha só, vou fingir que estou caminhando perto de você, e você me passa uma rasteira.

S: Prefiro te colocar no colo.

M: Um cascudinho, só. Não vai te custar nada.

S: Eu te amo!

M: Argh!!

Se você não dá certo com uma pessoa, qual o limite entre adaptar-se a ela e procurar outra pessoa? Já perdi noites pensando nisso. Ficar ou partir? Por fim, cheguei à conclusão que se deve investir até o fim, sempre. Que o amor não seja único na vida, todo amor deve, pelo menos, deixar o gosto aveludado de um bom café ou vinho, a lembrança do que um dia foi completo. Buscar outro relacionamento em face das primeiras dificuldades que se encontra é um sintoma de superficialidade ou covardia. Essa conclusão, eu cheguei depois de anos de fracasso, frise-se bem.

Até porque começo a pensar que, para encaixar em um cara como eu, cheio de altos e baixos, de relevos e arestas, só mesmo uma pessoa com o perfil da chave do meu carro. Que é do tipo code, by the way.