quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Onde estão meus cadernos antigos?

Eu não rabiscava mais as páginas dos meus cadernos. Ando analisando tudo que mudou na minha vida, pra tentar descobrir onde joguei fora a minha alegria, e uma das coisas que mais me perturbaram em descobrir foi isso: em algum momento, eu parei de desenhar nas páginas dos meus cadernos.

Parece meio idiota, confesso, mas isso tem razão de me perturbar. Primeiro porque todo mundo que eu conheço risca as mais insondáveis garatujas nas margens (ou nas últimas páginas) dos cadernos, blocos de anotações, post-its, etc. É da natureza do ser humano, principalmente nessas horas em que ficamos em certo estado de letargia, como quando estamos no telefone ou assistindo alguma aula ou palestra, por exemplo.

Depois - às vezes eu esqueço - eu sou arquiteto, caceta! Não devia gostar das coisas tão organizadas (que isso é coisa de engenheiro), devia desenhar croquis maravilhosos em guardanapos de boteco, rascunhar pequenos esquemas em comprovantes de cartão de débito, etc. Pelo menos de acordo com as histórias que me contaram na faculdade.

Mas o fato é que até um tempo atrás, essa desorganização me incomodava. Mais espontaneidade do que caos, hoje me é mais fácil perceber. Só rabiscava alguma coisa se tivesse a garantia velada de que jogaria o papel fora mais tarde. Quando via palavras, desenhos, símbolos, linhas se amontoando em algum papel alheio, meu primeiro desejo era apagar o desnecessário, e enfileirar o que restasse enm algum tipo de seqüência lógica. Claro que esse era só um desejo, não estou aqui pra confessar que sou psicótico.

Lembro de ter lido nas páginas de uma gramática antiga (que rabisquei impiedosamente), um poemeto, acho que do Mário do Quintana, que dizia que os livros deveriam ter margens espaçosas, onde as crianças pudessem desenhar, e os seus desenhos pudessem passar a fazer parte dos poemas. Então, quando penso que não rabisco mais nos meus livros, que não tomo café na varanda, que não jogo video-game, que não ligo mais pra minha família, me vem logo à cabeça essa idéia de que matei minha criança por falta de alegria. Meu menino morreu esperando autorização pra brincar no sol. Pra entrar na piscina depois do almoço. Pra comer manga com leite.

Ou quem sabe está num coma muito profundo, mas reversível. Congelado num iceberg de arrogância e autodefesa. Na dúvida, vou passar a riscar mais meus papéis, a abraçar mais meus amigos, a brincar mais e me importar menos em controlar as coisas. Vou tirar o moleque da sombra, tentar administrar alegria ao pobre coitado.

Em doses cavalares, porque ele deve estar precisando muito.

6 comentários:

Patricia disse...

Acho que ele não morreu não. Tá só de castigo, no cantinho, e virado pra parede.
;*****

Bel Lucyk disse...

Marcelito, logo logo vc vai rabiscar e fazer mil outras coisas por aí, deixando vc e sua criança felizes da vida! =)
PS - mais auto-ajuda impossível. kkkkk
boa semana. bj

Marcelo Faccenda disse...

Pois é, meninas.. Tamos todos aí esperando o renascimento do bacuri... Beijos!
:o)

lu guedes disse...

saudade marcelo! de você e dos seus textos - sempre acompanho, embora pouco tenha a dizer.

mas torço pelo seu renascimento. podemos comemorar todo ano com chocolate também! =****

ps: agora você tá linkado no meu blog. como eu não tinha feito isso antes?

Marcelo Faccenda disse...

Valeu, Lu! Torce por mim aí, pra gente poder comer bastante chocolate!!!

ps: vc tem blogue?

Anônimo disse...

Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu