quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Vastas emoções e pensamentos imperfeitos - enésima parte


Você foi embora porque achava que eu não mudaria nunca.
E depois disso não consegui mais voltar a ser o mesmo...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Tequila shots

Domingo fui ao Casa Park pra comprar umas coisinhas na Cultura. Eu nem sabia nem nada, mas tava tendo apresentação de um coral de natal, acompanhado de uma orquestra de mais ou menos vinte musiquinhos, tudo muito bonitinho, jingobéus e coisa e tal. O que me chamou a atenção, contudo, foi a quantidade de pessoas que se aboletaram a cotoveladas nas cadeirinhas e nos corrimãos pra ver o tal concerto. Agora tava aqui de cuequinha na cama vendo CQC e me alentou perceber como, a despeito de todos os Latinos e Belos da vida, as pessoas se comprazem do que é bom. E ao contrário do que imaginam o Nelson Motta e o Raul Gil, é só facilitar o acesso das pessoas à cultura de boa qualidade que o negócio dá certo.

E quando eu digo facilitar, é óbvio que não estou falando em aprovar um "vale-cultura" qualquer pra fazer as pessoas assistirem esse documentário ridiculo do Lula...

* * *
Maria, comprei um Mia Couto só por sua causa, viu? E acho bom ser sensacional, porque, confesso, fiquei meio decepcionado ao ver um moçambicano naquela fotinho de intelectual europeu na orelha do livro...

* * *
CD novo da Norah Jones tá estranho. Parece que a baixinha cresceu e tá meio de ovo virado com o mundo. Pegar o Jude Law não fez bem pra ela. Menos jazz, muito mais folk. Parece que ainda tá bom, preciso ouvir mais, mas definitivamente não serve mais pra dor de corno...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Olha no meu olho


Essa foto aí de cima, pra quem não sabe, é do disco "Todos os Olhos" do Tom Zé, que ele lançou nos idos de mil novecentos e reticências, durante a ditadura, época dos duplos sentidos e das mensagens subliminares. Reza a lenda que esse troço que parece um olho na capa é, na verdade, um grandissíssimo cu, que ele adornou com uma bolinha de gude e voilá! Aliás, reza a lenda nada, que ele próprio admitiu um tempo atrás que é um fiofó mesmo, de uma modelo que ele inclusive traçou depois. Maravilha. Coisa de gênio.

E aí, que pra não perder a metáfora, não sou gênio nem nada, mas ando meio que comparando minha vida com essa situação: pra quem olha en passant, parece uma visão magnífica; mas pra quem tá por dentro, não passa de um furico. E a gente ainda tem que agradecer que é só uma bolinha de gude...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Poeminha dos quatro Marcelos


Marcelinho 1 chega de madrugada
Ruim de tanta cana e remédio
Quase cai rolando da escada
E faz barulho em todo prédio.

Marcelinho 2 rala tanto no trabalho
Que excelente profissional da área
Mas se esforça pra caralho
É pra traçar a estagiária.

Marcelinho 3 já leu Llosa e Bandeira
Ouve Ibrahim Ferrer e Buarque
Escreve um blogue de terceira
E é um intelectual de araque.

Marcelinho 4 chega em casa acabado
Não é fácil, com tantos caminhos
Já está ficando incomodado
De cuidar dos Marcelinhos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

As canções que eu mesmo fiz pra mim...

Todo dia, durmo e acordo sozinho. Tomo café, almoço e janto sozinho. Me visto e tomo meus remédios sozinho. Faço compras sozinho, dirigo sozinho e assisto TV sozinho. Arrumo e bagunço a casa sozinho. Pago minhas contas e gasto meu dinheiro estupidamente sozinho.

Trabalho em equipe sozinho. Faço sexo sozinho, comigo e com outros, converso sozinho, bebo com amigos sozinho. Choro e gargalho sozinho. Vou ao cinema sozinho, mas ao teatro não. Escrevo e leio sozinho.

Às vezes até - juro - por querer.

sábado, 28 de novembro de 2009

Resoluções por Minuto

Eu sei que todo mundo gosta, mas adoro obras sobre resistência política, militância ideológica, coisas do gênero. Filmes como O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias e La Faute à Fidel, ou livros como o último do Mario Benedetti (Primavera Num Espelho Partido) ou mesmo A Moscal Azul, do Frei Betto, que narram o sofrimento de presos políticos ou somente relevam a personalidade daqueles que não se prostituem diante do sofrimento me dão verdadeiros orgasmos intelectuais

Respeito muito as pessoas que pagam caro por não se deixarem dobrar, muito porque sou completamente diferente delas. Sou uma putinha bem fácil, por assim dizer. Não porque aceite resignadamente a ideologia alheia, mas porque não sou capaz de morrer pelos meus ideais. Se estivesse num filme sobre a ditadura, eu seria aquele cara que é capaz de qualquer coisa desde que fosse pra tirar o próprio fiofó da reta.

E daí que eu, que abomino esses coitados que, na arte, fazem tudo pra continuar nos holofotes, como a Tizuka Yamazaky e o Sidney Magal, sei que agiria da mesmíssima maneira se estivesse no lugar deles. Malcomparando, sou como o Paulo Ricardo. Quando era mais novo, era bonitinho e charmoso, e todo mundo achava que eu ia mudar a cara da música brasileira. Eu regravava Caetano e compunha músicas sobre olhares numerados e cervejas que eram quase uma religião.

Mas a marcha do tempo é inexorável e pra continuar vivendo do meu jeito afetado de cantar, eu abri mão da minha dignidade, gravei todo tipo de música com todo tipo de parceiro, e até na musiquinha da abertura do Big Brother eu dei uma canjinha. De tempos em tempos eu apareço com um projeto novo completamente sem personalidade, procurando desesperado atenção e dinheiro. Não tem como negar que eu sou lamentável.

Pois é. Eu, que sou como o Paulo Ricardo, sou triste, um vendido. A diferença é que nunca tive meu momento e, definitivamente, não comi a Luciana Vendramini...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Colocando a casa em ordem

Agora que passou a loucura de trabalho no segundo semestre, as férias chegaram e tenho tempo de ficar em casa de bobeira, estou me dando conta da bagunça que estava a minha vida nos últimos tempos.

A conta de luz, tinha quatro meses que eu não pagava. As roupas da lavanderia estavam há quase o mesmo tempo em cima do sofá, esperando pra irem pras gavetas. Meu carro estava em petição de miséria, cheio de roupas pra doação e com vários grilos pro mecânico dar conta. Os CDs fora de ordem, os livros jogados em qualquer canto, papéis espalhados pela casa, leite azedando na geladeira. Até o blogue eu abandonei, pra evitar ficar fazendo post imbecis sobre meu poddle cor-de-ros ou coisas do gênero.

A loucura passou, a correria passou e a depressão está passando. Tenho muitas coisas pra arrumar, e todo o tempo do mundo. Muitos planos, muitas expectativas, muitas incertezas, o que é bom. Até a próxima onda me dar um caixote, até a próxima fase de loucuras chegar, até a próxima... O lance agora é sacudir a poeira, esticar os músculos e ficar zerado e pornto por que vier.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sunset Boulevard

Era um bingo, amada.

Lembra daquela estrutura suntuosa, de gosto duvidoso, com escudos zulus e uma estátua iorubá enorme na fachada frontal, que - ao passarmos em frente a ela de táxi pela 23 de maio, em São Paulo - chegamos a achar que era um centro cultural ou um museu de arte africana?

Era só um bingo. Seu nome era Imperatriz 23 (afinal ele ficava na 23 de maio) e, pelo que soube, entre interdições e liminares, funcionou como um dos maiores bingos da América Latina por menos de três meses, mais algumas semanas como casa de shows. Depois de tudo, foi isolado por uma trincheira de blocos de concreto e está lá abandonado até hoje. É só um monumento ao passado.

No fim das contas, talvez tenha sido isso que aconteceu com nosso amor. Fizemos do nosso casebre Fallingwater House. Da nossa pequena aventura Out of Africa.

Os lençóis, as toalhas, os livros e os CDs, as mesas de centro, talvez não passassem mesmo disso, mobília barata. As viagens inesquecíveis, as palpitações, as borboletas no estômago, o suor na palma das mãos, hoje parecem meros sintomas de pânico, se perderam no seu medo e na minha incapacidade.

Nosso amor não sobreviveu à mediocridade da vida real. Aquilo que era pra ser a maior paixão do mundo, o amor de seres tão perfeitos, não aguentou os problemas cotidianos. Ninguém mora na Fallingwater, não existe Out of Africa, e todo mundo sabe que os museus foram feitos pra verem milhares de gerações passarem, mas não acomodam uma simples família.

Nosso amor virou aquela coisa enorme, mostruosa, dificil de dirigir e impossível de manter. Um titanic mantendo impávido sua rota rumo ao iceberg.

O que parecia o amor de um mundo, era só um bingo. Uma catedral decadente. Quem dera fosse só um casebre...

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ficando velho e (des)enganado


A publicidade me promete um banco que é tão bom que nem parece banco. E uma escova que substitui o fio dental porque, afinal de contas, o fio dental é insubstituível. Pra melhorar, na caixa daquele celular que vai me matar de câncer, está escrito "você em primeiro lugar". Por último, a maldita propaganda do moleque que só faz cocô na casa do Pedrinho fica todos os dias testando minha resisitências aos impulsos infanticidas. E em tempo: alguém consegue imaginar algo tão sofisticado quanto um iogurte que promete levar as princesinhas ao cagadouro regularmente?

* * *

Na mídia, ele é o estilista Lino Villaventura. Pros amigos, é Agenor Ferreira de Jesus. Hoje em dia não basta o cara ter talento pra se sobressair, é preciso muito marketing pessoal. Ao analisar as falhas de minha carreira como arquiteto, acho que peco nesse quesito. Pra promover meu trabalho como criador e artista, preciso de um nome exótico, que venda minha imagem como um outlaw da arquitetura, uma espécie de Pollock ou Basquiat, quem sabe. Um pseudônimo que instigue o inconsciente dos meus clientes potenciais. Já pensei até em um bem legal: Marcel Membromayor. Com a devida licença poética, claro...


* * *

Não sei se todo mundo é assim, mas compraz-me imaginar que isso é bem normal. Tenho alguns TOCs leves:

1 - Não amasso papel quando vou jogar fora, rasgo a folha em oito pedaços aproximadamente iguais e acomodo num canto da lata de lixo.
2 - Não passo em cima das listras das faixas de segurança com os pneus do carro, tampouco dos losanguinhos amarelos indicativos de travessia de estudantes. As tartaruguinhas e as faixas de mudança de direção já não merecem a mesma regalia.
3 - As barrinhas de volume da minha TV não ficam nunca pela metade. Os ficam inteirinhas ou somem de vez. O mesmo vale pros vidros do meu carro: ou estão completamente abertos ou ficam fechados de vez.
4 - Na gaveta de talheres do armário da minha cozinha, os talheres precisam ficar todos voltados pro mesmo lado. Mas esse eu nem considero TOC porque é extremamente prático e bonitinho.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O cão e o frasco*

"Meu belo cão, meu bom cão, meu querido totó, aproxima-te e vem respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade."

E o cão, abanando o rabo, que é, julgo eu, nestes pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e pousa curioso seu úmido nariz no frasco desarrolhado; depois, recuando subitamente apavorado, ladra contra mim, reprovador.

"Ah, cão miserável, se eu te tivesse oferecido um monte de esterco, tê-lo-ias farejado com delícia e quiçá devorado! Assim, também tu, indigno companheiro da minha triste vida, te pareces com o público, ao qual não se devem nunca apresentar perfumes delicados que o exasperem, e sim porcarias cuidadosamente escolhidas."

*Charles Baudelaire

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Bela Adormecida 2099

Tipo assim: era uma vez um homem muito poderoso que se casou e teve uma filha. Algumas décadas atrás, esse mesmo homem tinha sido um policial corrupto que havia montado uma milícia para proteger uma comunidade carente do Rio de Janeiro e acabou enriquecendo às custas das taxas de proteção.

Sua filha, após catorze intervenções cirúrgicas, dentre as quais duas próteses de silicone, aplicações regulares de toxina botulínica, uma operação para redução de estômago e outra para correção de lábio leporino, havia se tornado uma garota interessante, às vésperas de completar suas quinze primaveras. Seu pai, aproveitando a ocasião, no afã de promover a felicidade da filhota e ratificar seu prestígio junto à comunidade local, ocupava-se de planejar a mais bela festa de debutante que seu dinheiro podia financiar.

No dia da comemoração, que contou com a presença de várias celebridades de menor escalão, uma socialite paulistana decadente com prováveis ligações escusas com o tráfico de drogas, teve um surto psicótico por não ter sido convidada para a festa. Sob o efeito de barbitúricos, apareceu na festa e, sob berros e praguejos, jurou que a menina pagaria pelo desleixo do pai quando completasse a maioridade.

Os pais, muito preocupados, passaram a cercar a filha de cuidados, que incluíam transporte em carro blindado, segurança armada, CFTV, GPS, e outras siglas mais. A pequena, que só saída de casa acompanhada de sua brigada, passou a ter aulas particulares em casa e desenvolveu a vida praticamente em função de sites de relacionamentos e salas de bate papo na internet.

Um belo dia, entretanto, perto de completar seu aniversário de dezoito anos, seu professor de natação sugeriu que a menina tomasse algumas doses de estanozolol para fortalecer a musculatura e melhorar seu desempenho nas psicinas. O esteróide, obviamente, era ilegal, mas o professor podia obtê-lo facilmente, mediante o pagamento de uma quantia razoável. A pequena, que duvidava que seu mestre pudesse querer o seu mal - afinal o provia de favores sexuais há quase dois anos -, tomou as pílulas tão logo as conseguiu. Por um pequeno percalço do destino, seu organismo reagiu mal ao coquetel de anabolizantes, somado às anfetaminas e anorexígenos que nossa heroína tomava desde a puberdade, que acabou por levá-la a um estado de coma irreversível.

Seu amado pai, após ordenar a execução sumária de todos os professores de educação física da filha, passou a procurar desesperadamente uma solução para a tragédia da família. Gastou boa parte de sua fortuna com juntas médicas de universidades respeitadas, tratamentos revolucionários ainda não autorizados pelos Conselhos de Medicina, cirurgias espirituais e rituais cabalísticos dos nativos americanos disponibilizados na internet. Com o passar dos anos, porém, seu ímpeto se arrefeceu e ele passou a aceitar resignadamente o destino de sua herdeira.

Quando a princesa completou vinte e um anos, contudo, um belo rapaz apareceu à porta da mansão da família (que, aquela altura, estava hipotecada). Ostentando uma impecável indumentária branquíssima (justificadamente, pois o rapaz era médico ou pai-de-santo), alegou ter encontrado, finalmente, a solução definitiva para reverter o estado da enferma. O rei, que havia perdido tempo, dinheiro e esperança com charlatanices de toda espécie, concordou desconfiadamente e deixou o rapaz entrar. Após meses de tratamento intensivo, à base de um método revolucionário que utilizava células-tronco contrabandeadas ilegalmente de hospitais africanos, a princesa teve uma recuperação milagrosa e acabou se apaixonando pelo médico/príncipe/pai-de-santo.

Nosso rei, que voltara a ganhar dinheiro fornecendo equipamento de logística para as operações do Primeiro Comando da Capital, recobrou a alegria de viver e iniciou planos para o casamento do belo par o mais brevemente possível. A cerimônia foi realmente linda e todos foram quase felizes para sempre. Pena que descobriram que o rapaz era formado na Bolívia e exercia ilegalmente sua profissão no Brasil, razão pelo qual foi condenado e preso. A menina, que jurava ter vivido experiências de pós-morte durante seu coma, foi morar com uma amiga muito próxima em uma comunidade alternativa e acabou morrendo de tétano ao pisar em um prego enferrujado quando fugia de um bando de sem-terra que reivindicavam o terreno da comunidade como terra improdutiva. Aí veio a Globo, comprou os direitos da história e fez uma minissérie. Aí sim todos foram felizes para sempre...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A nora que mamãe pediu a Deus


Schopenhauer escreveu uma vez - acho que em Dores do Mundo - que "nem todos os loucos ou burros são fanáticos, mas todos os fanáticos são loucos ou burros". Ele mesmo era um pouco fanático, razão pela qual não é bom ficar dando muita corda pro coitado. Mas é difícil não concordar ele lendo o blogue da Cleycianne - uma serva do Senhor no mundo da internet. A porra toda é uma coleção de sandices tão inadvertidamente colocadas sobre o mundo do entretenimento visto pela ótica de uma lunática, que vale passar uns minutos lendo tudo: o link é http://cleycianne.blogspot.com, mas pra quem não tem paciência ou tempo, eu pincei o top five das pérolas da moça:

1 - "
Madonna não acredita na Bíblia, duvida da palavra do Senhor e leva milhões de homossexuais para os seus shows (onde se esfregam e até chegam a ejacular uns nos outros)."

2 - "
Homossexualidade tem cura minha gente!! É só procurar o caminho do Senhor..."

3 - "P
ois como todos sabemos quando a mulher se casa ela tem que ser submissa ao seu marido, que vai ditar as regras e o comando da casa."

4 - "
Creio que a Rihanna não deve ter feito o papel de uma mulher cristã de verdade e não se calou diante da vontade de seu homem, por isso acabou causando sua ira e apanhou dele."

5 - "A
opinião do homem é sempre a mais importante, e não devemos confrontá-la verbalmente ou com ações, o que podemos fazer é orar para que ele mude de idéia!!"

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Auto do enterrado vivo

Hoje faz um mês que morreu o poetinha Mario Benedetti. O uruguaio faz parte, juntamente com Stacey Kent, Elizabeth Fonseca e outros, do espólio cultural que a bem amada deixou antes de desaparecer por completo da minha vida. São coisas que levarei pra sempre, já postei algumas coisas dele aqui, e ainda me surpreendo em perceber o quanto me identifico com o que ele escreve. Quando fiquei sabendo - alertado pela própria bem amada - que ele tinha morrido, havia comprado seu último livro, Primavera num Espelho Partido, apenas dois dias antes. Num capítulo desse livro, que mistura romance com notas biográficas, achei outro pedaço de texto que expressa um dos maiores medos que trago na vida:

"
Como em todas as tardes, chegou a seu apartamento, provavelmente se deitou e só se ficou sabendo dele vários dias depois, quando os colegas de trabalho, estranhando sua ausência, foram bater em sua porta e, ao não obterem resposta, trouxeram a polícia para abri-la.

Estava em sua cama, ainda com vida, mas já sem sentidos. Um derrame tinha provocado uma hemiplegia. Estava naquele estado havia pelo menos três dias. De nada valeram os cuidados intensivos.

A rigor, não morreu de hemiplegia, mas de solidão. Os médicos disseram que, se tivesse sido encontrado a tempo, teria certamente sobrevivido. Quando seus amigos o encontraram, já tinha perdido os sentidos, mas se supões que, pelo menos durante as primeiras vinte e quatro horas, soubesse o que estava ocorrendo.
"

domingo, 12 de julho de 2009

A difícil arte da conversação (verídico)


- Você viu a corrida hoje de manhã?

- Que corrida?
- A fórmula 1.
- Não vi não. Como foi?
- Foi muito boa.
- Quem venceu?
- Um cara aí, não me lembro o nome...
- Sei. E o Massa?
- Ficou em terceiro. Ou sexto.
- Terceiro ou sexto?
- Não sei bem...
- Tá. E o Rubinho?
- Que Rubinho?

terça-feira, 23 de junho de 2009

O Falsário

Dei um tempo de tudo ontem e saí pra me divertir comigo mesmo. Saímos nós dois - eu e eu - pra fazer um programa bem light, já que não posso me dar ao luxo de muitos excessos. Levei-me pra tomar um suco, comprar uns livros e pegar um cineminha.

Como há muito tempo não me cortejava, acabei fazendo todas minhas vontades: comprei um Revolução dos Bichos - porque da primeira vez que li me encantei mais com os anmais falando do que com as metáforas do livro; alguns CDs e uma versão encadernada de Watchmen, aquele do Alan Moore, porque eu só tinh
a a minissérie original que foi editada na época (uns duzentos anos atrás) e que eu devo ter perdido em uma dessas mudanças de casa.

Aproveitei pra bater papo com uma amiga querida que trabalha (demais, viu?) na livraria e ainda dei a sorte de dividir meu suco com outras amigas que encontrei em um café enquanto fazia hora pra assistir meu filmezinho. Que sina feliz dessa gente que, mesmo sendo meio cinza, sai numa terça à noite e ainda encontra outras gentes pra dividir os minutos de solidão! Despedi-me desse povo e fui ver meu filme, que escolhi meio no tapa.

De tempos em tempos - cada vez mais raros, por si
nal - um filme, um livro, um poema, detona a minha cabeça de tal maneira que fica até difícil dormir depois. Foi o caso de Os Falsários (Die Fälscher), que acabei escolhendo -confesso - em homenagem à outrora bem-amada, que tanto se compraz da produção artística teutônica. E eu, que evito fazer resenha nesse blogue, me obrigo agora a uns pequenos comentários filosóficos-cinematográficos.

O filme mostra um grupo de judeus que é selecionado pra participar de uma operação nazista pra falsificar dinheiro, e acabam numa sinuca de bico: se eles cooperam, ajudam a financiar o nazismo e fodem com todos que ele gostam; se não cooperam, morrem, ou seja, fodem com eles mesmos.

E é expondo essa dualidade de forma visceral que o filme é genial. E em deixar de lado aquela baboseira de judeuzinho-que-sofre-e-alemãozão-que-bate. Enquanto quase todo povo hebreu faz tudo certinho pra tirar o seu respectivo cu da reta, um dos judeus resolve virar mártir - justamente um dos essenciais pro processo de falsificação da grana - atrasa o esquema todo e todo mundo quase vai pro saco por causa disso. No fim, depois de sentirem mal pelas regalias conseguidas (camas com colchões e mesa de pingue-pongue, por exemplo) por fazer o serviço sujo dos nazi, alguns falsários contam sem nenhum pudor às vitimas legítimas dos campos de concentração, a história de como boicotaram os planos alemães resistindo até o final.

Fiquei assombrado pela identificação que senti pelo protagonista, um falsificador cínico e manipulador que a certa altura diz: "não vou dar aos nazistas a alegria de sentir vergonha por estar vivo". Pensei em quantas vezes vendi meus sonhos pra poder seguir em frente. Quantos discursos pronunciei pra justificar a falta de coragem pra abrir meu próprio escritório, a necessidade (nem tão necessária assim) de ganhar dinheiro rápido, e a inevitabilidade de ter virado um covarde pra poder sobreviver.

Por outro lado, não pude deixar de ficar aliviado em constatar que a iniquidade faz parte da natureza humana. Deve ser o chamado instinto de sobrevivência. Não vou ganhar uma estátua com meu nome, mas vou garantir a educação da minha filha. Não vou acabar com o nazismo, mas vou ficar vivo pra ajudar de alguma forma, mesmo que essa forma nunca chegue. O mártir do filme foi hostilizado, ridicularizado e até agredido. É o que tenho vontade de fazer às vezes com gente que não se encaixa no esquema. O lance é dançar conforme a música, estando dentro do jogo é mais fácil marcar gols. O foda depois é a tal crise de consciência. Passo o tempo todo achando que não mereço o que conquisto. Eu sou o meu próprio falsário.

Mas enfim, quem puder assiste o filme, come uma pipoqunha, e de quebra ainda presencia uma das cenas mais bonitas dos últimos tempos, onde um prisioneiro fura o dedo e usa o próprio sangue pra dar um pouco de rubor ao rosto de um menino que está com tuberculose, evitando que ele seja executado. Antológica.

P.S.: eu nem fiz menção nem nada, mas esse filme foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008. O que não quer dizer nada, mas vale o registro.

domingo, 21 de junho de 2009

Das 100 coisas que eu mais gosto na vida

Ando querendo colocar as coisas no lugar. Arrumando gavetas, esvaziando velhas caixas de papelão, catalogando revistas e livros antigos, essas coisas. No fundo da cômoda da TV, encontrei um velho caderno que fez parte de uma época estranha da minha vida, o fim da adolescência.

É um caderno fino, de capa tribal dura, com as páginas amareladas repletas de poemas escritos com letra miúda, meus e de outros. Dos meus, morro de vergonha, mas os outros escritos dizem muito do que se passava com o Marcelo de então.

Além dos poemas, algumas anotações interessantes, dentre elas as listas das 100 coisas que eu mais gosto e das 100 coisas que eu mais odeio. Achei que valia a pena comentar os mais interessantes. Das coisas que eu mais amava há 15 anos:

1 - sexo (estranho esse tópico, porque se eu fizesse sexo naquela época, provavelmente não escreveria um caderno de poemas)
2 - pizza e biscoito recheado (eu ainda adoro junk food, mas hoje dispensaria sem beicinho essas duas)
3 - vida após a morte (com 18 anos e pensando nisso???)
4 - Arnaldo Jabor (reacionário, não dá pra entender com eu, que sempre tive inclinações políticas de esquerda me deixei seduzir por ele)
5 - London Pub (tive que buscar no google pra lembrar, mas era um barzinho/boate muito bom em Uberlândia)

Das 100 coisas que eu mais odiava:
1 - maracujá (meu ódio mais consistente, se um dia inventarem um super-herói com meu nome, o maracujá vai ser o meu Lex Luthor)
2 - camisa polo (esse já não vale mais, hoje em dia tenho uma bela coleção delas)
3 - Corpo de Bombeiros, Julia Lemmertz e medicina (hein???)
4 - Leila Pinheiro (o mesmo caso da camisa polo, mesmo que a minha coleção de Leila Pinheiro seja menor)
5 - minha mãe (outra raiva consolidada, mas que tive a sorte de desmantelar nos últimos meses)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

domingo, 31 de maio de 2009

Chuva de maio


São três da manhã do dia 30 de maio. Acordo pra dirigir pela cidade, fazer as idéias assentarem, calar as vozes. Está chovendo em Brasília, o que é estranho. As gotas que caem do céu avermelhado compõem um quadro surreal, de certa maneira. A média pluviométrica pra esse mês, desde que eu me lembro, é zero. A cidade está estranha, saindo dos padrões. Não se pode mais dizer o que vai acontecer, nem quando. Há 23 anos, quando cheguei aqui, podia-se arriscar com pouca probabilidade de erro, que nunca choveria em maio. Brasília era previsível. Hoje cada dia é uma surpresa.

Em mim, também chove em maio. Há alguns meses, busco sempre sair dos padrões, procuro ruas novas pra percorrer, gente nova pra conhecer, perdoo quando devia lutar. Agora, me interessam as situações que eu nunca passei, os problemas sem fórmulas pra resolver. A minha média pluviométrica histórica foi zero durante anos. Agora deixo a água da chuva bater e escorrer pela minha alma ressequida. Cada dia é uma surpresa.

Estranha atitude essa nossa, minha e da cidade. Se não soubesse que passamos por uma época de mudanças climáticas bizarras, juraria que Brasília está apaixonada...

sábado, 23 de maio de 2009

Pré-elegia

23 de maio de 1976. Daqui a menos de uma semana, nascerei em Bento Gonçalves, numa manhã de inverno, a última em que se registrou neve nessa cidade gaúcha. Serei o segundo filho de um casal normal, descendente de italianos, correntinos e caboclos. Na minha primeira casa, pequena e feita de madeira, serei irremediavelmente feliz, junto aos cachorros e ao enorme abacateiro, às teias de aranha da adega subterrânea e ao meu irmão, que passará a vida ao meu lado, a me repreender e a me proteger, encargo do qual ele não abrirá mão até o fim dos nossos dias.
Mudarei de casa aos quatro anos, esta um pouco maior, conhecerei amigos para a vida toda, jogarei bola no meio da rua, explorarei as matas lindeiras, arrebentarei a cabeça andando de bicicleta e pulando nas obras do bairro, sempre com o sorriso fácil, que me forçará a fechar os olhos de tão largo.
Aos dez, conhecerei Brasília, meu primeiro caso de amor, embora não à primeira vista. Mais uma vez amigos inesquecíveis, jogos de bat no meio da rua, atravessando as quadras de bicicleta, à sombra das mangueiras e embalado pelo doce – e até então desconhecido – zumbido das cigarras.
Chegará a adolescência, e com ela as primeiras desilusões afetivas, as primeiras privações financeiras, as primeiras rejeições sociais. Os óculos e os quilos a mais pesarão sobre minha cabeça com a força de mil martelos e as consequências doerão em mim e nos que eu gosto por muitos e muitos anos.
Mais pra frente, aos quinze, meus pais separar-se-ão, depois de brigas homéricas e barracos em plena madrugada. Minha vida virará uma confusão, cada ano ou semestre será passado em um lugar diferente, e minha única certeza será a de ter perdido o caminho. Após um ano morando de favor com um tio, de novo em Bento Gonçalves, desenvolverei os sintomas de uma companheira pra vida toda: a diabetes. Emagrecerei vinte quilos e passarei a usar lentes de contato, o que fará muita diferença, por incrível que pareça.
Voltarei pra Brasília, irei pra Uberaba, aprenderei a cozinhar, a tocar violão, a seduzir, a mentir pra conseguir o que eu quero, a ser frio pra ser admirado, lerei Rimbaud, Neruda e Leminski, tomarei meus primeiros porres de respeito, ensaiarei meus primeiros namoros, criarei mágoa da minha mãe, largarei a Engenharia e passarei entre os primeiros em Arquitetura, já envolvido em meu segundo grande amor, agora por uma mulher, que virá a ser mãe da minha filha.
Serei pai aos 23, e minha única certeza será a de ter reencontrado o caminho. Trabalharei unicamente para bancar as viagens a Buenos Aires, para administrar meu amor em pílulas por essa filha tão parecida comigo que chegará a me amedrontar. Farei a mãe dela sofrer, formar-me-ei entre os últimos da turma, embora reconhecido como ótimo profissional por professores e colegas. Ganharei pouco dinheiro trabalhando doze horas por dias, sete dias por semana, e perceberei que meu potencial permitir-me-á dar mais conforto pra minha filha, bastando pra isso que eu prostitua meus ideais profissionais, o que nem será tão grave.
Passarei em concursos públicos, trabalharei no Itamaraty, onde conhecerei mais amigos geniais e meu terceiro amor – esse bem efêmero –, viajarei ao Cazaquistão, e tornar-me-ei cada dia mais frio e distante, acreditando estar fazendo o necessário pra sobreviver.
Serei chamado pra trabalhar num lugar que parecer-me-á uma favela, passarei os sábados organizando arquivos e documentos, enfrentarei empreiteiras milionárias, comporei comissões com brilhantismo e chamarei a atenção pra minha capacidade profissional. Em dois anos virarei chefe da favela, terei dinheiro e status razoáveis, e parecer-me-á que valeu a pena ter aberto mão temporariamente dos meus sonhos.
Conhecerei e perderei, então, meu quarto e maior amor, desaparecerá meu chão e meus valores virarão de cabeça pra baixo, assim como o resto da minha vida. Perceberei que perdi novamente o caminho, deixando amigos, família e amores pra trás. Chorarei, alternarei noites acordado com noite de sono torpe, alcoolizado. Mas farei o possível pra reparar meus erros, dessa vez sem raiva e com muita paciência.
E em 29 de maio de 2009, comemorarei, junto com meus 33 anos de vida, seis meses de renascimento. Com minha família, amigos (antigos e novos) e amores, paz e dinheiros vindouros. E com festa, é claro...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Advogados e economistas


E aí que eu trabalho em lugar com um dos maiores déficits de vagas para estacionamento do Distrito Federal. Acho que, nesse quesito, perdemos apenas pro Setor Comercial Sul. Há algumas semanas, fiquei feliz ao perceber a movimentação de máquinas de compactação de solo na área próxima aos estacionamentos, pois achei - inocentemente - que o governo tinha se compadecido da situação e resolvido ampliar as vagas criando mais estacionamentos.

Pra minha surpresa, no dia seguinte, apareceu, nas cercanias da obra, uma placa com os dizeres "PRAÇA DA CIDADANIA DA OAB - CIRCULAÇÃO E LAZER". Ao invés de aumentar o número de vagas, beneficiando motoristas e pedestres - já que eles precisam andar desviando dos carros estacionados nas poucas calçadas disponíveis -, a benemérita Ordem dos Advogados do Brasil está presenteando a comunidade com uma bela praça em um lugar onde não passa ninguém e muito menos fica por lá coçando o saco.

Além de virar um espaço perfeito pra vagabundos e viciados passarem o tempo à noite, a praça vai avançar sobre os estacionamentos existentes, acabando com mais ou menos 80 das já escassas vaguinhas originais. Admirando essas incontestáveis demonstrações de inteligência e noção de realidade, e sabendo que essa corjinha domina o mundo, dá até pra ficar assustado pensando em onde a coisa vai parar...

***

Alguém vai dizer que não sabia? Só podia dar merda. Deixamos o mundo nas mãos de economistas, uns caras estranhos aí, e a crise financeira chegou matando.

Agora vamos analisar friamente: os caras só se comunicam em termos que ninguém - inclusive eles - sabe o que significa, explicam processos que não têm explicação e fazem prognósticos que nunca se concretizam, e ainda chamam economia de ciência. Mas é até compreensível: não dá pra esperar nada melhor do que um coitado que passou cinco ou seis anos na faculdade em uma turma repleta de caras remelentos e mal vestidos, e que, quando ficava com uma vontade incontrolável de apreciar um ser do sexo oposto, tinha que se contentar em olhar coisas - coisas mesmo - do naipe da Míriam Leitão ou da Zélia Cardoso. Se desse sorte, podia até achar uma Dilma Housseff.

Desse jeito, tenho que dar razão pra quem uma vez disse: economista é uma profissão que foi criada pra fazer os meteorologistas parecerem competentes...


quarta-feira, 29 de abril de 2009

Aspirações espirituais

Quando eu era pequeno minha mãe enchia o saco pra gente escovar os dentes. Hoje em dia a propaganda do plax ensina que 80% das bactérias estão na língua e nas bochechas.

Antigamente, quem comia ovo, chocolate, azeite de oliva ou vinho já podia assinar a sentença de morte por entupimento das vias arteriais. Hoje tem um tal de colesterol bom que deixa a gente comer essas paradinhas todas, desde que no sapatinho.

O que ontem era tabu hoje é dica de saúde. Manga com leite pode, carne vermelha pode até de madrugada e sexo anal também, desde que com carinho.

A continuar nessa balada, vou torcer pros cientistas, esses seres maravilhosos que descobrem o que querem quando querem, finalmente estabelecerem uma relação direta entre a quantidade de vodca no sangue e o tamanho do pênis...

* * *

Então fica acertado: vou começar a fazer caridade, ser amável com os animaizinhos, ajudar velhinhas indefesas a travessar a rua, não jogar lixo no chão e procurar ser uma pessoa mais iluminada a cada dia, e Deus Todo Poderoso vai permitir que na próxima encarnação eu volte à terra como etiqueta de biquini...


quinta-feira, 23 de abril de 2009

Gordurinha trans lifestyle

Quem me conhece bem sabe que tenho dois irmãos, que eu amo demais. Um de nascença, que não escolhi, mas que depois de anos revelou-se um tremendo acerto do destino, apesar do fato de ser uma pessoa completamente diferente de mim em todos os sentidos. O outro, que pretendo homenagear nesse post, eu também não escolhi, mas somos tão parecidos em tantos aspectos que é provável que um exame de DNA nos apontasse como legítimos herdeiros do “coisa ruim”.
Somos ambos complexos, vaidosos, egocêntricos, suscetíveis, geminianos, prepotentes, pedantes, e pra não ficar só nas qualidades, também somos brilhantes, simpáticos, leais, prestativos e mais um monte de outras bobagens. Só diferimos mesmo pelo fato dele ser um cara (quase) sempre pra cima, apesar dos problemas, e eu sempre desconfiado, apesar das conquistas. Somos o copo meio cheio e meio vazio, respectivamente.
Outra coisa em que somos extremamente parecidos é no senso irresistível de autodestruição que nos consome. Levar a vida desregrada que levamos, mesmo pra quem tem a saúde perfeita, já não seria aconselhável. Considerando minhas complicações de pâncreas e de tireóide, e os problemas de fígado e de peso dele, é quase uma receita certa pra problemas graves num futuro bem próximo.
Recentemente, os exames laboratoriais desse meu irmão ficaram prontos, acusando resultados bem preocupantes, principalmente os níveis de colesterol, de tiroxina e de aminotransferases. Ele ficou cabreiro, mas se o conheço bem, essa neura vai durar até a próxima orgia ou o próximo fim de semana, o que vier primeiro. Posso atestar de camarote, já que também passei por isso e não abri mão da esbórnia. Posso até imaginá-lo no consultório do hepatologista, após entregar o resultado dos exames:
Médico: Sr. Fernando, o senhor precisa escolher: dieta, exercícios e a vida; ou cerveja, churrasco, lasanha e a morte. O que o senhor prefere?
Fernando: ...
Médico: E então?
Fernando: Hmmmmm...
Médico: Sr. Fernando, essa é uma decisão que cabe somente ao senhor.
Fernando: Deixa eu ver... Essa lasanha é de quê?

terça-feira, 7 de abril de 2009

Inteligência for Dummies - parte 1


Cansado de ficar com cara de paisagem toda vez que o assunto deixa de ser o paredão do BBB ou a crise no Framengo? Perdeu aquela gatinha porque ela disse que gostava do Schopenhauer e você respondeu que preferia o chope gelado? O último livro que você leu até o final foi um daqueles infláveis com o título "O Gato" ou "Cocoricó"? Seus problemas acabaram!!!

A partir de hoje, começa aqui nesse blogue uma pequena série de dicas imperdíveis de como parecer mais inteligente do que você realmente é, sem fazer muito esforço e sem dor de cabeça. Não requer prática, nem tampouco habilidade! Essas dicas são resultado de uma exptensa pesquisa desenvolvida por este que vos fala, mestrado e doutorado em Embromação e Picaretagem pela Universidade Internacional de Taboquinha da Serra. Você pode usá-las separadamente ou todas em conjunto, e ainda sugerir novos procedimentos para incrementar ainda mais esse que já é o manual mais vendido na Amazon.com nas últimas seis semanas. Não perca tempo! Ligue agora mesmo e receba inteiramente grátis dicas de como conquistar todas as mulheres usando apenas uma frase!

Dica 1: Boa memória. O primeiro passo consiste apenas em decorar algumas informações sobre um assunto que você pode tirar do noticiário ou de alguma revista especializada. Os mais eficazes são os que dizem respeito à política internacional e à cultura underground. Decore todo o prognóstico da última reunião do G20 ou a biografia de algum artista obscuro que esteja expondo pelas redondezas. É tiro e queda! Todos ficarão boquiabertos quando você citar o PIB do Zimbabwe ou declarar distraidamente que você prefere as obras do Eduardo Kac pré-fase transgênica. Mas cuidado! Esteja preparado pro caso de algum idiota na roda pedir mais informações sobre a agricultura do Sri Lanka ou querer saber que cazzo é fase transgênica. Nesse caso, respire fundo, levante da mesa e diga que vai dar uma mijada antes porque esse papo vai render. Fuja pela janela do banheiro ou utilize algumas das dicas que serão mostradas aqui nos próximos posts...

domingo, 5 de abril de 2009

O Sono da Razão Produz Monstros

Sou complexo, preciso admitir. Às vezes faço confissões aqui nesse blogue na esperança de que as pessoas se identifiquem e eu descubra que não sou o único surtado nesse mundo. Aproveitando o post de uma amiga, que há alguns dias citou um trecho do livro Encontro Marcado do Fernando Sabino, aproveito pra fazer outra confissão: tenho fobia de algumas obras de arte.

Esse livro do Sabino é um exemplo típico. Li quando estava no terceiro ano, e a sensação de que o homem perdia a vida procurando a si mesmo enquanto o tempo seguia sua marcha inexorável (e que isso aconteceria comigo, inevitavelmente) me deixou tão atordoado que o guardei na estante de casa e prometi nunca mais abri-lo enquanto estivesse vivo.

Vários são os casos que posso citar. As músicas A Lista do Oslwaldo Montenegro e Sinal Fechado do Paulinho da Viola me assustavam por escancarar as pessoas que deixamos pra trás na correria da vida. A gravura O Sono da Razão Produz Monstros, do Goya, que conheci no primeiro semestre da faculdade, e toda obra de Arthur Bispo do Rosário, me inquietaram e provocaram questionamentos sobre minha filosofia de vida, sempore tão sistemática, além de me remeter às minhas noites mal dormidas. Filmes como Em Busca da Felicidade e todos os outros que mostram relações entre pais e filhos me provocam crises de choro homéricas, por razões bem mais óbvias. Ensaio Sobre a Cegueira do Saramago me deixava mal porque era a constatação quase irreversível de que o ser humano, como ente social, é podre.

Mas aí que depois de tudo que ando vivendo, e aproveitando essa fase de questionamentos e reconsiderações, comprei de novo o Ensaio Sobre a Cegueira pra provar pra mim mesmo que meu sentimento pela humanidade mudou, e que não importa quão desprezíveis possam ser nossos atos, sempre somos passíveis de compreensáo e perdão.

Quem sabe, em um futuro breve, depois de ter mais certeza de que a vida segue o curso para o qual é definida, sem tanta interferência nossa, eu possa voltar a ler os livros e ouvir as músicas de que me privei pelo medo de não saber viver...

terça-feira, 17 de março de 2009

Domingo no Parque

"Quer trocar essa bicicleta BMX Pantera por uma caixa de fósforos?"

Eu troco uma cobertura na Vieira Souto por uma casinha com cerquinha branca.
Eu troco uma Mercedes do ano por uma bicicleta de dois lugares.
Eu troco um emprego excelente e uma posição de respeito por uma salinha cheia de gente que eu goste.
Eu troco grana e posses por cerveja e batata frita.

"Quer trocar essa coxinha de rodoviária por um tênis Montreal vulcanizado antimicrobial?"

Eu não troco um almoço com a minha mãe por um encontro com o Presidente.
Eu não troco o carinho da minha filha por um Prêmio Nobel de Física.
Eu não troco o convívio dos meus amigos por um mês em Côte d'Azur.
Eu não troco o amor da minha vida por várias noites com a Penelope Cruz e a Eva Mendes. Juntas.
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Mas aqui, de dentro da cabine, não dá pra ouvir nada lá fora...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Croniquinha sem porquê*

Barra, Salvador. Boteco xexelento em frente ao meu hotel, cheio de cadeiras de PVC amarelas, espalhadas e empilhadas desordenadamente. Se não fossem da mesma cor, lembrariam uma pequena favela. Mas, pensando bem, lembram mesmo uma favelinha banhada a ouro, pode-se dizer. O bar se divide em argentinos e putas. Elas atrás da sobrevivência, eles atrás da bunda delas. Merda pra todos. Não sou argentino por nascimento e deixei de ser puta há alguns meses atrás. A lua, que era escarlate e me olhava desconfiada no início da noite, já se deixa contemplar, viçosa e fagueira, no alto do céu. Ao fundo, o horizonte se avermelha. Pode ser que chova mais tarde, o que vai deixar minha noite ainda mais difícil. Merda pra todos...

*à moda de Bukowski

quinta-feira, 5 de março de 2009

Amor tipo code key

Alguém conhece aquela piada do sádico e do masoquista? Não chega a ser uma piada, é uma daquelas troças de rotina infinita, mas não deixa de ser engraçada:

Masoquista: Me bate?

Sádico: Não bato!

M: Não faz assim. Me bate!

S: Nem pensar.

M: Só um tapinha...

S: Se você não parar, vou aí te fazer um carinho!

O Veríssimo escreveu sobre essa piada uma vez. Disse que o afligia. A mim, me fascina. Fico pensando que essa história de que tudo na vida tem algo que o completa pode ser verdadeira, no fim das contas. Um masoquist e um sádico: nada mais perfeito. Quando presto atenção nos casais que me rodeiam, não consigo deixar de perceber que os defeitos de cada um, que a mim parecem inapeláveis, são aceitáveis mais facilmente (e até desejáveis, vá lá) pelo outro que o completa. Parecem combinar-se mutuamente, como peças de um quebra-cabeças; a corda e a caçamba, no dizer popular.

M: Olha só, vou fingir que estou caminhando perto de você, e você me passa uma rasteira.

S: Prefiro te colocar no colo.

M: Um cascudinho, só. Não vai te custar nada.

S: Eu te amo!

M: Argh!!

Se você não dá certo com uma pessoa, qual o limite entre adaptar-se a ela e procurar outra pessoa? Já perdi noites pensando nisso. Ficar ou partir? Por fim, cheguei à conclusão que se deve investir até o fim, sempre. Que o amor não seja único na vida, todo amor deve, pelo menos, deixar o gosto aveludado de um bom café ou vinho, a lembrança do que um dia foi completo. Buscar outro relacionamento em face das primeiras dificuldades que se encontra é um sintoma de superficialidade ou covardia. Essa conclusão, eu cheguei depois de anos de fracasso, frise-se bem.

Até porque começo a pensar que, para encaixar em um cara como eu, cheio de altos e baixos, de relevos e arestas, só mesmo uma pessoa com o perfil da chave do meu carro. Que é do tipo code, by the way.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

It's the end of the world as we know it (and I feel fine)

E aí um dia eu acordei e percebi que o mundo era uma merda. As crianças morriam de fome na África, e o mundo estava mergulhado em uma das maiores crises de sua história, causada unicamente pela ganância de alguns. Olhei no jornal e os filhos estavam matando os pais, os pais estavam prostituindo os próprios pequenos pra ter algo de comer. Na televisão, o país estava indo à bancarrota por culpa dos políticos corruptos e as pessoas estavam cada vez mais analfabetas, para continuar votando nos mesmos escroques.

E aí um dia eu acordei e percebi que o mundo não era uma merda: ele continuava a mesma merda. Algumas pessoas continuavam estragando seus dias por causa de brigas no trânsito, outras continuavam estragando suas famílias em nome do trabalho. Pessoas continuavam explodindo pessoas em nome de causas imbecis e o ser humano continuava destruindo o próprio planeta em nome do desenvolvimento. Todo mundo continuava imbecil, egoísta, insensível, ignorante, mesquinho, detestável, medroso e inepto, como sempre.

E aí eu acordei outro dia e descobri que o mundo não era uma merda: era só o mundo de sempre. Que as pessoas não eram más ou boas: eram só pessoas. Que está tudo indo pro brejo, mas tem gente sempre tentando melhorar. Que enquanto uns matam e se matam, outros vivem pra cuidar uns dos outros. Descobri que é mais fácil desprezar o mundo inteiro e construir uma fortaleza pra se defender do que enfrentar de peito aberto esse mar de incertezas que é o ser humano. Que todo mundo tem seu ritmo e suas limitações e que é difícil conviver com elas. Mas é ainda mais difícil conviver com os defeitos alheios.

E aí, quando eu acordei, foi que eu comecei a viver. E comecei a notar que o mesmo ser humano que incomoda pela sua burrice, é o que maravilha pela sua sabedoria. O mesmo cara que manipula os semelhantes, é o que estende a mão pra um amigo em dificuldade, que cuida da família. E aí fica difícil não tentar compreender e perdoar os erros das pessoas. Não procurar saber o que levou aquele cara a cometer aquele erro. E tentar ver que poderia ser diferente por algum motivo alheio à nossa compreensão. E aí Sartre que me perdoe, mas quando a gente acorda pro mundo, dá pra transformar os outros de inferno em paraíso. Enquanto durar o mundo, pelo menos...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O sol nascerá

"A sorrir eu pretendo levar a vida"
Aviso aos meus amigos: eu não estou pensando em morrer. Pelo menos não estou pensando em me matar. Por isso eu agradeço as redes de proteção na minha varanda, o sumiço das minhas facas e outros objetos cortantes, as broncas e as mensagens de apoio pelo celular, mas não é necessário. Tirando as mensagens, que realmente estão ajudando.
"Pois chorando eu vi a mocidade perdida"
Aliás, posso até dizer que estou é pensando em viver. Em ser feliz. De verdade, dessa vez. Portanto não se deixem enganar pelo olhar perdido. Não é falta de vontade de viver, é só o olhar de um cara que descobriu que errou muito e fez muita gente sofrer. Não perdi a vontade de lutar, mas estou mais cuidadoso pra escolher as minhas batalhas. Prefiro agora exaltar meus amigos do que colecionar inimigos.
"Finda a tempestade, o sol nascerá"
Ainda não achei o equilíbrio, tenho consciência disso. A armadura caiu, e a pele por baixo ainda é sensível. Por isso as noites de choro, as crises de pânico, o exagero na bebida. Mas cada dia vai ser melhor que o outro, eu acredito nisso. E depois que tudo passar, vou ficar feliz porque fiz o meu melhor. E porque acordar me fez bem. E ainda, de bônus, vou sempre saber que estou rodeado de pessoas maravilhosas, tendo agora a oportunidade de retribuir tudo o que eles fazem por mim.
"Finda essa saudade, hei de ter outro alguém para amar"

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Eu tenho medo dos recônditos da minha alma...*

Eu tenho medo dos recônditos da minha alma. Daqueles lugares perdidos, dos cantos do meu labirinto. Eu tenho medo de onde o sol não bate tão forte. Eu tenho medo das crises de choro, das crises de riso. Eu tenho medo do que eu deixei pra trás e tenho medo de tropeçar em meus próprios pedaços. Eu tenho medo de ter organizado as estrelas do meu céu em seqüências geométricas. De ter enriquecido vendendo as rosas dos meus jardins. Eu tenho medo de ter morrido na viagem e ter sido abandonado na estrada. Por mim mesmo.

Eu me arrependo de ter me construído com tanta retidão, tijolo a tijolo, durante toda minha vida. Eu me arrependo do que perdi por não saber amar e do que eu conquistei por ser um cretino. Eu me arrependo das pessoas que atropelei na pressa de chegar a lugar nenhum. Dos atalhos que só me fizeram perder o melhor da viagem. Eu me arrependo dos tumores que desenvolvi e das metástases que provoquei. Eu me arrependo das dívidas que paguei com sangue, mesmo que não só o meu.
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Eu não sou esse cara tal, identidade tal, CPF tal.
Eu não sou essa rocha, esse arrimo, essa pessoa que nunca sofre.
Eu não sou esse juiz, esse réu, esse promotor.
Eu sou essa coisa estranha, esse aborto de mim mesmo, esse rosto me olhando.
A todo instante. E sem entender nada.

*(esse é um post antigo que eu estou reeditando pra mostrar a mim mesmo que o meu problema não tinha nada a ver com ignorância)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A arte de (re)construir castelos

Era sempre à noite, quando nossos pais saíam e fazia muito frio pra brincar no porão. Então, meu irmão e eu, juntávamos as cadeiras da sala de jantar no gande living da casa velha (não tão velha na época) e organizávamo-nas em duas fileiras de três, viradas de costas umas para as outras, guardando um espaço suficiente para que coubésemos dentro. Depois era só jogar o enorme cobertor de pêlos da nossa mãe por cima e tínhamos pronta nossa cabana. Cabana, aliás, que virava castelo, barraca, forte, casa, quartel-general, entre outas coisas. Depois era só entulhar o interior com travesseiros, lençóis, brinquedos, e estávamos prontos pra qualquer aventura, geralmente liderados pela mente extremamente criativa do meu irmão. Não raro, brincávamos até a exaustão e dormíamos no living mesmo, na proteção do nosso castelo.

Essa é uma das lembranças mais gostosas da minha infância. Infelizmente, a adolescência, a distância e as inconstâncias do meu processo de endurecimento, acabaram afastando-me paulatinamente do convívio tão gostoso que meu irmão me proporcionava, como fizeram, aliás, com toda a minha família.

Nessas últimas férias, tivemos oportunidade de reconstruir nossos castelos, se não com cadeiras, com camaradagem e muito carinho. E com o cimento que a nossa filha/afilhada proporciona, lógico. Os dias de viagem na terra de nossa vó, na praia, na nossa cidade natal, e em todos os outros lugares que ele fez questão de nos levar, foram criando laços ainda mais fortes que os fraternais, que são justos, mas arbitrários.

Esse cara que eu sempre critiquei por ser desleixado, esse cara cuja falta de ambição sempre me incomodou, esse cara de quem eu me afastei porque me parecia uma pessoa completamente fora do meu mundo, tem uma energia de menino que era o que eu precisava pra recarregar as minhas baterias e me livrar de minha armadura de guerreiro louco cansado. Esse menino tão imperfeito que anda sempre sorrindo, que tem poucos problemas e que não julga ninguém, acabou me servido de mentor, de líder espiritual, inconscientemente. O que eu ando precisando agora é isso: menos certeza, menos perfeição, menos crítica, mais alegria. E do meu irmão sempre presente.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Impressões do sul

  • No sul, todo produto de consumo tem uma marca que é de lá e que é melhor (ou vende mais) do que as outras já consagradas no Brasil. Cerveja é Polar, tubaína é Fruki, laticínio é Piá, e por aí vai...

  • As cidades têm nomes esquisitíssimos e muito engraçados, como Feliz, Encantado, Não-Me-Toque, Anta Gorda, Bolacha, Sério, Fundo do Formigueiro, etc...

  • Falando em cidades, todas são capital nacional de alguma coisa: do chimarrão (Venâncio Aires), da mentira (Nova Brescia), do doce (Pelotas), do espumante (Garibaldi). Minha cidade, Bento Gonçalves, é a capital nacional da uva e do vinho.

  • Afora os regionalismos mais conhecidos, como tchê, barbaridade, e aquelas outras coisas estranhas, na minha região natal tem umas expressões de matar: se "embugar" de comida (se empanturrar), "tunda de laço" ou "camaçada de pau" (surra), ficar "gelo" (tranquilizar-se), "guampa" (chifre). Se alguém te perguntar se aquela guria que você namorava "deu pra ti", ele está querendo saber se vocês terminaram. Se você contar uma história surpreendente, provavelmente a outra pessoa vai responder: "Capaz?" (Sério?).

  • Nas boates de lá, logo depois de tocar os funks mais asquerosos ou os houses mais psicodélicos, é provável que você comece a escutar uma música que nunca ouviu, de uma banda que só os gaúchos conhecem. quando você olha pra alguém pedindo ajuda, do tipo: "que caray é isso?" percebe que a casa inteira está cantando junto, como se fosse o hino nacional. As mais comuns de acontecer isso são "Amigo Punk", do Graforréia Xilarmônica (valeu, Helen!), e "Entra Nessa", do TNT. Mas tem outras bandas como Papas na Língua, Cidadão Quem, Acústicos & Valvulados, Tequila Baby, entre outras tão esdrúxulas.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Desfazer as malas

Sensação estranha essa de voltar pra casa depois de tanto tempo ausente. Está tudo no lugar, a cama impecável, os lençóis esticadinhos, o piso asséptico, as cortinas cerradas, graças às camareiras. Parece que não mora ninguém aqui, ou, se morava, morreu. Mas eu estou aqui, bem vivo, com uma sensação de ter nascido há bem pouco tempo.

Sinto falta da família, da quentura de ter pessoas do lado. De beber com meu pai, abraçar meu irmão, brincar com minha filha, gargalhar com os primos. Estou bem vivo, graças à minha família e aos amigos.

Preciso dormir, bagunçar a cama, fazer um lanche, sujar a pia. Vou espalhar essa vida que acumulei dentro de mim nesse apartamento, tentar fazer desse pequeno mausoléu meu cantinho de verdade. E aprender a conviver com o que era meu e agora parece não me pertencer mais...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Fala com a minha mão


Pai: ... e é por isso que você não deve ser desorganizada, deve sempre arrumar as suas coisas e respeitar muito seus pais, entendeu?

Filha: Entendi sim, papai.

Pai: Você já é uma moça e tem que dar uma força pra mamãe, que trabalha muito e cuida de você sozinha. Mas pra isso, você não pode ser muito bagunceira e tem que prestar muita atenção no que seus pais dizem, ok?

Filha: Pode deixar, papai.

Padrinho maldito: Gigi!! Corre aqui, vamos fazer bagunça!!!

Filha: Ok, papai. Foi muito bom conversar com você, mas agora segura as minhas coisas que eu vou ali bagunçar com o Dindo...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Onde estão meus cadernos antigos?

Eu não rabiscava mais as páginas dos meus cadernos. Ando analisando tudo que mudou na minha vida, pra tentar descobrir onde joguei fora a minha alegria, e uma das coisas que mais me perturbaram em descobrir foi isso: em algum momento, eu parei de desenhar nas páginas dos meus cadernos.

Parece meio idiota, confesso, mas isso tem razão de me perturbar. Primeiro porque todo mundo que eu conheço risca as mais insondáveis garatujas nas margens (ou nas últimas páginas) dos cadernos, blocos de anotações, post-its, etc. É da natureza do ser humano, principalmente nessas horas em que ficamos em certo estado de letargia, como quando estamos no telefone ou assistindo alguma aula ou palestra, por exemplo.

Depois - às vezes eu esqueço - eu sou arquiteto, caceta! Não devia gostar das coisas tão organizadas (que isso é coisa de engenheiro), devia desenhar croquis maravilhosos em guardanapos de boteco, rascunhar pequenos esquemas em comprovantes de cartão de débito, etc. Pelo menos de acordo com as histórias que me contaram na faculdade.

Mas o fato é que até um tempo atrás, essa desorganização me incomodava. Mais espontaneidade do que caos, hoje me é mais fácil perceber. Só rabiscava alguma coisa se tivesse a garantia velada de que jogaria o papel fora mais tarde. Quando via palavras, desenhos, símbolos, linhas se amontoando em algum papel alheio, meu primeiro desejo era apagar o desnecessário, e enfileirar o que restasse enm algum tipo de seqüência lógica. Claro que esse era só um desejo, não estou aqui pra confessar que sou psicótico.

Lembro de ter lido nas páginas de uma gramática antiga (que rabisquei impiedosamente), um poemeto, acho que do Mário do Quintana, que dizia que os livros deveriam ter margens espaçosas, onde as crianças pudessem desenhar, e os seus desenhos pudessem passar a fazer parte dos poemas. Então, quando penso que não rabisco mais nos meus livros, que não tomo café na varanda, que não jogo video-game, que não ligo mais pra minha família, me vem logo à cabeça essa idéia de que matei minha criança por falta de alegria. Meu menino morreu esperando autorização pra brincar no sol. Pra entrar na piscina depois do almoço. Pra comer manga com leite.

Ou quem sabe está num coma muito profundo, mas reversível. Congelado num iceberg de arrogância e autodefesa. Na dúvida, vou passar a riscar mais meus papéis, a abraçar mais meus amigos, a brincar mais e me importar menos em controlar as coisas. Vou tirar o moleque da sombra, tentar administrar alegria ao pobre coitado.

Em doses cavalares, porque ele deve estar precisando muito.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Pra Paty

Pra minha queridíssima amiga Patrícia, uma das melhores coisas que me aconteceu nos últimos tempos, agradecendo pelo voto de confiança e pela sinceridade, na época em que eu mais precisava muito dos dois....