quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O ser humano, esse mar tormentoso...

Nas páginas de qualquer jornal mediano, você pode encontrar a história do Seu Daniel. A casa do Seu Daniel ficava em Ilhota, uma das cidades mais atingidas pelas tempestades desse verão, e foi soterrada por um deslizamento de terra, que acabou matando cinco pessoas. Seu Daniel ficou desabrigado e não teve outro remédio a não ser ir para um abrigo e viver das doações enviadas por milhares de brasileiros compadecidos da situação dos habitantes de Santa Catarina. Aí que no bolso de uma das roupas doadas, a neta do Seu Daniel achou nada menos que vinte mil reais, in cash, livre de impostos. Seu Daniel não teve dúvidas: pegou o dinheiro, procurou o doador e devolveu a quantia inteirinha, diante do olhar estarrecido do pobre samaritano, que não fazia idéia que tinha esquecido seu troco no bolso do casaco, e muito menos que veria essa grana de volta.

Na mesma página do mesmo jornal mediano, você pode ler ainda, quem sabe, a história da Dona Teresilda. A Dona Teresilda é uma daquelas maravilhosas voluntárias que foi flagrada, juntamente com soldados do exército, pelas câmeras de televisão, enchendo o porta-malas do próprio carro com as doações enviadas pelos milhares de brasileiros compadecidos da situação dos habitantes de Santa Catarina, como o Seu Daniel. Depois de aparecer em cadeia nacional (e de se arriscar até a ir pra cadeia), a Dona Teresilda foi acometida de uma terrível dor na consciência, e voltou aos galpões do centro de distribuição do Parque Vila Germânica, em Blumenau, pra devolver os donativos que havia pego anteriormente.

O inglês Thomas Hobbes acreditava que todo ser humano é como a Dona Teresilda, mau por natureza, e precisa da sociedade para controlá-lo. Já o francês Jean-Jacques Rosseau pensava o contrário: que todo ser humano nasce puro como o Seu Daniel, e que a sociedade fatalmente o corromperá se ele não se cuidar. Schopenhauer cagaria pra todos. Eu, que sempre tive inclinações hobbesianas, mas que acompanharia Schopenhauer em seu desprezo pelo bicho homem, hoje já não sei dizer bem o que penso sobre situações como essas. Seria o homem essencialmente bom ou mau?

Inserindo humildemente no contexto, depois de tantos tropeços, e ceio de tantas dúvidas acerca da minha própria natureza, prefiro acreditar que estão todos certos. Ou melhor, errados. Nao há que se falar em preto ou branco: há inúmeras nuances de cinzas e outras cores. O Seu Daniel, a Dona Teresilda, Hobbes, Rosseau e eu guardamos entre nós pelo menos uma grande característica em comum: somos humanos. E essa característica encerra um universo tão grande de possibilidades, que hoje em dia acho impossível dizer que somos apenas isso ou aquilo. Somos bons, maus, orgulhosos, arrependidos, prepotentes, derrotados, tudo isso dentro de uma gama incontável de variáveis que não podemos controlar.

Quero crer que nossa natureza humana faz com que sejamos bons em determinadas circunstâncias e maus (ou não tão bons) em outra. Podemos simplesmente agir de formas diferentes ante duas situações aparentemente idênticas, somente por sermos tão imprevisíveis. Ou podemos fazer grandississímas cagadas com a melhor das intenções na cabeça. Se estivéssemos dentro do roteiro do filme Crash provavelmente o Seu Daniel seria atropelado pelo Matt Dillon e quem apareceria pra salvá-lo seria a Dona Teresilda. Num jipe do exército...

6 comentários:

Bel Lucyk disse...

O seu texto me fez lembrar o livro que estou terminando de ler, Crime e Castigo, que é fantástico e fala muito sobre o fato de que o ser humano é assim mesmo... tem várias nuances, não existe o bom ou o mau. Existe o humano. E dessa edição, o que eu mais gosto é da capa, é um rosto meio estilisado, em xilogravura, em que metade do rosto é preto e a outra, é branco. Acho fantástico.
beijos e bom final de semana pra vc! =)

pedsonma disse...

O trecho "... grande característica em comum: somos humanos" me faz lembrar, para continuar com a linha filosófica (que muito me agrada!), de Nietzsche, com o "Humano, demasiado humano"...

No final das contas, ele (Nietzsche) é quem estava certo: somos individualistas. Podemos ser bons ou maus, e isso depende do papel que precisamos assumir em cada momento. Ou seja, ser bom ou mau não é o que importa, o que de fato importa é estarmos bem, tanto com os outros (sociedade ou pessoas próximas) quando consigo mesmo.
A sociedade pode reprimir sim, e a consciência também. Se a sociedade não reprime e o indivíduo dorme tranqüilo à noite: aí não tem jeito, vale tudo!

Marcelo Faccenda disse...

Bel, Dostoiévski está na minha lista de "livros que lerei em breve" há muitos anos... Depois do seu toque, acho que vou levar pra finalmente ler nessas férias... Aliás, essa capa eu tb adoro, era a minha primeira opção pra ilustrar esse post, mas acabei escolhendo o Escher mesmo... Bjo!

Marcelo Faccenda disse...

Pois é, meu mano PE, então acho que a hora agora é de me transformar pra procurar estar verdadeiramente bem comigo e com os outros... Abração!

Irene disse...

Um feliz ano novo para vc, meu querido, e que consiga a concretização de todos os seus desejos, inclusive esse "de melhorar!?"...
Eu particularmente acho vc perfeeeiito e nem precisaria mudar nada!
Mas se conseguir melhorar alguma coisa, parabéns!
Eu tb tô nessa de tentar mudar um monte de coisas...

Ah, tomarei uma em sua homenagem, mandando boas vibrações!!!
Muitos beijos,
Te adoro!

Patricia disse...

Bom saber que a nossa conversinha foi útil, pelo menos pra você escrever esse post.
;*****