terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Vida de interior


De férias no interior do Rio Grande do Sul, procurando me encontrar. Dia sim dia não, passa o caminhão do gás, tocando o hit que marcou a minha infância:

"Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar... é liquigás
Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar...é liquigás

O peso é certo
o botijão foi revisado
a dona de casa pode acender sem medo
passou pelo controle de qualidade
e vai chegar para você sempre mais cedo

Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar... é liquigás
Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar... é liquigás

O entregador tem o crachá de identificação
o uniforme, o caminhão, a chama é azul
a marca liquigás presente em todo lugar
levando um gás melhor de norte a sul

Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar... é liquigás
Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar..."

(ad infinitum)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O ser humano, esse mar tormentoso...

Nas páginas de qualquer jornal mediano, você pode encontrar a história do Seu Daniel. A casa do Seu Daniel ficava em Ilhota, uma das cidades mais atingidas pelas tempestades desse verão, e foi soterrada por um deslizamento de terra, que acabou matando cinco pessoas. Seu Daniel ficou desabrigado e não teve outro remédio a não ser ir para um abrigo e viver das doações enviadas por milhares de brasileiros compadecidos da situação dos habitantes de Santa Catarina. Aí que no bolso de uma das roupas doadas, a neta do Seu Daniel achou nada menos que vinte mil reais, in cash, livre de impostos. Seu Daniel não teve dúvidas: pegou o dinheiro, procurou o doador e devolveu a quantia inteirinha, diante do olhar estarrecido do pobre samaritano, que não fazia idéia que tinha esquecido seu troco no bolso do casaco, e muito menos que veria essa grana de volta.

Na mesma página do mesmo jornal mediano, você pode ler ainda, quem sabe, a história da Dona Teresilda. A Dona Teresilda é uma daquelas maravilhosas voluntárias que foi flagrada, juntamente com soldados do exército, pelas câmeras de televisão, enchendo o porta-malas do próprio carro com as doações enviadas pelos milhares de brasileiros compadecidos da situação dos habitantes de Santa Catarina, como o Seu Daniel. Depois de aparecer em cadeia nacional (e de se arriscar até a ir pra cadeia), a Dona Teresilda foi acometida de uma terrível dor na consciência, e voltou aos galpões do centro de distribuição do Parque Vila Germânica, em Blumenau, pra devolver os donativos que havia pego anteriormente.

O inglês Thomas Hobbes acreditava que todo ser humano é como a Dona Teresilda, mau por natureza, e precisa da sociedade para controlá-lo. Já o francês Jean-Jacques Rosseau pensava o contrário: que todo ser humano nasce puro como o Seu Daniel, e que a sociedade fatalmente o corromperá se ele não se cuidar. Schopenhauer cagaria pra todos. Eu, que sempre tive inclinações hobbesianas, mas que acompanharia Schopenhauer em seu desprezo pelo bicho homem, hoje já não sei dizer bem o que penso sobre situações como essas. Seria o homem essencialmente bom ou mau?

Inserindo humildemente no contexto, depois de tantos tropeços, e ceio de tantas dúvidas acerca da minha própria natureza, prefiro acreditar que estão todos certos. Ou melhor, errados. Nao há que se falar em preto ou branco: há inúmeras nuances de cinzas e outras cores. O Seu Daniel, a Dona Teresilda, Hobbes, Rosseau e eu guardamos entre nós pelo menos uma grande característica em comum: somos humanos. E essa característica encerra um universo tão grande de possibilidades, que hoje em dia acho impossível dizer que somos apenas isso ou aquilo. Somos bons, maus, orgulhosos, arrependidos, prepotentes, derrotados, tudo isso dentro de uma gama incontável de variáveis que não podemos controlar.

Quero crer que nossa natureza humana faz com que sejamos bons em determinadas circunstâncias e maus (ou não tão bons) em outra. Podemos simplesmente agir de formas diferentes ante duas situações aparentemente idênticas, somente por sermos tão imprevisíveis. Ou podemos fazer grandississímas cagadas com a melhor das intenções na cabeça. Se estivéssemos dentro do roteiro do filme Crash provavelmente o Seu Daniel seria atropelado pelo Matt Dillon e quem apareceria pra salvá-lo seria a Dona Teresilda. Num jipe do exército...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Rehab

Se o tropeço é melhor professor do que o sucesso, acabo de ter lições pra uma vida inteira.
Descobri que todo esse sistema que eu montei pra não cair diante dos problemas que passei durante a vida (muitos imaginários, descobri agora), esse sistema que eu criei pra compensar a carência e a humilhação que passei principalmente na adolescência, esse mesmo sistema que eu acreditava que me ajudava a viver sem sofrer, me fez perder uma pessoa muito importante e que poderia ter tido um papel fundamental na vida que pretendo levar a partir de agora.
Durante muito tempo acreditei que as pessoas se dividiam entre cordeiros e lobos. Entre predadores e presas. Apliquei à minha vida a Lei da Selva, e procurei sempre ser o mais forte, mesmo que pra isso eu tivesse que pisar em algumas pessoas no caminho. Somente o mais forte poderia sobreviver. Me enganei pensando que não havia sido suficientemente amado pela minha família, e que se quisesse sobreviver e chegar a algum lugar, não poderia contar com os préstimos de ninguém, e que pedir ajuda seria somente demonstrar fraqueza. E esse foi meu primeiro erro.
Essa filosofia me serviu bem durante muito tempo, por incrível que pareça, e me ajudou, junto com meu jeito sedutor e manipulador, a ser muito admirado pelas pessoas próximas, especialmente as que não me conheciam tão bem. Sim, porque não há como negar que esse meu trato com as pessoas me ajuda muito a chegar onde eu quero, e o fato de me distanciar contribui bastante para que eu esteja sempre por cima nas minhas relações pessoais. E, dessa forma, acabei me apegando a essa máscara, a essa fama. E esse foi o meu segundo erro.
Doeu muito no começo (e é claro que ainda dói agora), e foi muito difícil aceitar que essa imagem me impediria de ir além nos relacionamentos interpessoais, que respeitar as pessoas é a melhor forma de conquistar respeito, e que mentir e manipular são atitudes que só vão gerar mais mentiras e coisas ruins. Mas ninguém gosta de saber que se transformou num perfeito bastardo, e eu não sou diferente. E pra piorar, saber disso ao perder a pessoa amada, e saber que tudo que você tinha como certo estava completamente errado, está sendo muito complicado. Sem contar também a arrogância e a hipocrisia, que sempre me impediram de ver meus erros, me fizeram demorar pra vê-los agora.
Há muito o que fazer agora. Eu sempre contei vantagem de que conhecia perfeitamente os meus defeitos. Estou descobrindo agora que isso foi outro erro. Não percebi muitos deles e, com a maioria dos que identifiquei, não fiz nada para corrigir. Errei tanto nesse processo que não sei bem o que fazer para consertar os estragos. Tenho medo de não ter capacidade de aprender a tomar atitudes pra ser uma pessoa melhor.
Só sei que não vou voltar ao zero. Não vou voltar a vestir essa carcaça sifilítica pra ter que percorrer todo caminho de volta quando precisar me desvencilhar dela. Quero me esforçar sinceramente pra, de hoje em diante, corrigir verdadeiramente esses defeitos. Se não matar essas atitudes pela raiz elas voltam, como que por instinto. Não dá pra fazer isso sozinho, mas também tenho que começar de algum lugar. Tenho medo de não conseguir, mas tenho ainda mais medo de continuar assim pra sempre.
E não dá pra pensar em remediar nada, pensando em recuperar essa pessoa. Se quiser mudar só pra arrumar as merdas que eu fiz, nem eu vou acreditar na sinceridade do meu propósito. Todo o mal que eu causei às pessoas foi, na verdade, um grande mal que causei a mim mesmo, e só agora estou pagando por isso. Vou mudar por mim mesmo, por mais ninguém. Só resta esperar que essa transformação beneficie as pessoas à minha volta, e a mim mesmo, na escala de crescimento pessoal legítimo.
They tried to make me go to rehab... e eu vou mesmo. Tomara que tenha sorte.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Alta Fidelidade

Não estou dizendo que não exista gente fiel. Mas é engraçado ouvir por aí as teorias das pessoas que se dizem adeptas da monogamia. Tem um amigo meu que diz que chifre não cruza fronteira, o que na prática quer dizer que ele pode comer quem quiser quando está viajando. Um colega de trabalho já me explicou que ele não corre atrás, mas se aparece a oportunidade, ele tem a obrigação de conferir. Minha chefona segue a linha do envolvimento emocional, que funciona assim: se ela dá mas não sente nada pela pessoa, não rola traição. Eu gosto dessa escola filosófica, porque minha chefe é um baita tesão.

Eu não vou explicar o que eu penso sobre isso, até porque esse não é o motivo desse post. Mas tenho certa pena dessa gente que me olha e diz que acha que eu nunca vou conseguir ser fiel. Primeiro porque essa gente que me conhece pouco, acha que pode julgar as pessoas pela aparência, e certamente um dia vai levar um chifre de alguém que achava que sempre lhe seria leal. Depois porque, se for pra pensar bem, dá pra ver que eu namorei muto pouco na vida justamente porque não queria estar em um relacionamento de fachada. Por último, quem me conhece mesmo sabe que eu não entro em jogo pra perder, e que eu procuro sempre ser o melhor possível em tudo, o que não aconteceria se eu traísse a pessoa que estivesse comigo.

Lógico que essa lega-lenga toda tem que ser posta à prova, e que confiança a gente tem que fazer por merecer no dia-a-dia. Mas quero só ver o que vão dizer quando perceberem que me julgaram errado. De novo. E foda-se.