quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Dois de Mim

É normal que as pessoas, ao me conhecerem melhor, identifiquem também as minhas neuroses. Não em si mesmos, mas geralmente em personagens de filmes, livros e seriados. Quase sempre em tipos esquizofrênicos, maquiavélicos, sistemáticos, obviamente. O Tomas, de A Insustentável Leveza do Ser, pela sua ojeriza em compartilhar sua intimidade. O velhinho do Elsa y Fred, pela retidão, covardia e obsessão por manter as coisas sempre em seu lugar. O Davd Duchovny na série Californication, que ainda não assisti pra conferir. Algumas vezes é lisonjeiro, a maioria delas, perturbador.

Ganhei um livro do Mario Benedetti chamado A Trégua, de uma moça que parece me conhecer de outra vida, e que muitas vezes, sem querer, adivinha o que estou pensando com precisão de tirar o sono. Ela me disse que lembrou mim várias vezes enquanto lia o livro. Daí que estou planejando dividir grandes pedaços dos meus próximos momentos com essa mulher e me incomoda que ela saiba tanto assim sobre minha(s) pessoa(s). Se pudesse escolher, preferiria deixar certas partes de mim escondidas embaixo do tapete, ou jogadas atrás da porta do banheiro.

De qualquer forma, não importa a que altura do livro esteja, não preciso fazer muita força pra encontrar descrições extremamente identificadas comigo, como essa: "É como se eu me dividisse entre dois entes díspares, contraditórios, independentes, um que sabe de cor seu trabalho, que domina ao máximo as variantes e os meandros dele, que está sempre seguro onde pisa; e outro sonhador e febril, frustradamente apaixonado, um sujeito triste que, no entanto, teve, tem e terá vocação para a alegria, um distraído a quem não importa por onde a pena nem que coias escreve a tinta azul que em oito meses ficará negra".

No fim, fico feliz por dividir algumas cargas com o resto do mundo, em saber que não sou um ornitorrinco em extinção, o último da espécie. E não posso evitar de me sentir alentado, embora envergonhado e exposto, em saber que se quiser compartilhar a companhia de uma pessoa por um tempo maior do que alguns dias, é necessário que ela me conheça bem mesmo.

4 comentários:

drinha caeiro disse...

Saudades monstras de você, meu querido! me mande notícias da vida!! beijo!

Bel Lucyk disse...

Marcelo, penso de forma parecida - é spe reconfortante saber que nossas neuroses não são exclusividades nossas! E tenha certeza, meu amigo, boa parte do seu charme (e de sua angústia, eu tenho certeza) está nesse paradoxo!
Beijos pra vc.

Marcelo Faccenda disse...

Saudades de você também, maninha... Semana passada fui almoçar om a Helen e comentamos como você anda sumida. Quando a poeira baixar (provavelmente na semana que vem) mando um e-mail com o serviço completo, ok? Beijo!

Marcelo Faccenda disse...

Meu charme? Fique até vermelhinho agora... Ehehehehe! Beijo!