quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Carolíneas

Carolina se levanta todo dia antes do sol sair. Lava o rosto, penteia os cabelos, toma café. Arruma a filha, e prepara o leite com chocolate da pequena. Pega o ônibus junto com a filha e outras crianças pra ir à faculdade. Quando não tem aula, vai mesmo assim e passa a manhã na biblioteca. Não pode perder a carona pra Foz do Iguaçu porque é duro atravessar a ponte no começo do dia. Almoça na rua, perto do trabalho, pra não perder muito tempo. É estagiária, mas toma conta do escritório sozinha. Não percebeu como aconteceu, mas quando se deu conta era responsável por tudo. À noite, volta pra faculdade. Quando não tem aula, vai mesmo assim e passa a noite na biblioteca. Não pode perder a carona de volta pra casa porque é duro atravessar a ponte no fim do dia.

Carolina passou a perna no Seu Jorge e no Seu Chico. Sim, sempre foi uma menina bem difícil de esquecer, anda bonito e tem um brilho no olhar. Sim, nos seus olhos tristes guarda a dor de todo esse mundo. Os olhos de Carolina, contudo, nunca foram capazes de fazer o que ela quis. Carolina queria que seus olhos deixassem transparecer tudo o que pensa, sem que sua boca precisasse dizer nada. No quarto, sozinha, de vez em quando, chora muito e soluça baixinho, torcendo pra alguém ouvir. Carolina gosta de estar a salvo, mas queria que alguém descobrisse, por acaso, seu manual de instruções.

Carolina se forma hoje. Nunca disse isso a ninguém, e ninguém disse a ela que seria grande na vida. Carolina detesta os holofotes e acha que, pequenina, passará incólume pelas desgraças do mundo. Carolina inventa sempre desculpas pra não conseguir. Mas é dura e operosa. E linda e genial, em seu exaspero. Transformou-se em formiguinha, fez a sua parte em silêncio e fincou sua bandeirinha no topo da montanha mais alta.Enquanto as outras pessoas - como eu - se preocuparam em atrair a atenção, bravateando em voz alta, Carolina passou por todos, por trás das cortinas, e papou o título.

Carolina correu a América do Sul, amou um canalha, bebeu muita tequila, cortou o supercílio, criou uma filha, virou bacharel. Já quis ser dentista, médica, lutadora, dançarina. Quer conhecer Nova York, voltar a Buenos Aires, ser juíza, apaixonar-se de novo. Carolina vai ser Presidente da República, Ministra do Supremo, Secretária-Geral da ONU. E nem sequer vai ter a pachorra de tripudiar ninguém...

9 comentários:

Irene disse...

Hum, muito lindo esse seu momento "para não dizer que não falei das flores"...!
A surpresa maior e (in)esperada foi perceber mais um talento em você, mas não quero que se sinta constrangido..., então depois eu falo pessoalmente. Vc tem o que Syd Field, um dos maiores roteiristas do mundo, chama de talento nato, e mesmo que não queira, os holofotes naturalmente se virarão para vc. Quer apostar!
Só viajando, heim, vidinha boa!
Beijos.

Marcelo Faccenda disse...

Eehehehehe... Que talento é esse? Passei uma semana peregrinando pela Bahia, vc percebeu minha ausência? Quanta honra... Beijo!

Maicom disse...

Realmente! Bom mesmo. Parabéns pelo blog, (ou será pelo seu talento?). Bem, o que importa é que a carolina é feliz, num é verdade?

Abração,
voltarei.

Marcelo Faccenda disse...

Valeu pela força, Maicom... Dei uma fuçada rápida no teu blogue também, não consegui ler tudo, mas achei muitas coisas tuas bem legais.
Pra mim,é importante que a Carolina seja feliz, já que ela é mãe da minha filha e uma pessoa muito especial pra mim... Abração! Nos vemos por aí...

Camilinha disse...

Todo mundo tem um pouco de Carolina! E Carolina tem um pouco de todo mundo!


muito legal!


beijos daqui...

Marcelo Faccenda disse...

Eheheheh... Carol é uma guerreira como vc, não tinha como vc não se identificar um pouco com ela... Beijos aí!

Lua disse...

Que lindo, Marcelo. E parabéns a Carolina, que consseguiu até ter um pedacinho lindo de você. Ou vários.

PeNsAdO, DiTo E eScRito PoR Giovanna disse...

paiê, isso aê tem um pouko da historia de brasília, pq a gente só pegava onibus aí!

Marcelo Faccenda disse...

Tem razão, neguinha.. Sua mãe passou por poucas e boas pra chegar onde chegou, né? Beijinho gostoso!