terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Vida de interior


De férias no interior do Rio Grande do Sul, procurando me encontrar. Dia sim dia não, passa o caminhão do gás, tocando o hit que marcou a minha infância:

"Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar... é liquigás
Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar...é liquigás

O peso é certo
o botijão foi revisado
a dona de casa pode acender sem medo
passou pelo controle de qualidade
e vai chegar para você sempre mais cedo

Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar... é liquigás
Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar... é liquigás

O entregador tem o crachá de identificação
o uniforme, o caminhão, a chama é azul
a marca liquigás presente em todo lugar
levando um gás melhor de norte a sul

Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar... é liquigás
Se tem o lacre azul do cachorrinho
Pode confiar..."

(ad infinitum)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O ser humano, esse mar tormentoso...

Nas páginas de qualquer jornal mediano, você pode encontrar a história do Seu Daniel. A casa do Seu Daniel ficava em Ilhota, uma das cidades mais atingidas pelas tempestades desse verão, e foi soterrada por um deslizamento de terra, que acabou matando cinco pessoas. Seu Daniel ficou desabrigado e não teve outro remédio a não ser ir para um abrigo e viver das doações enviadas por milhares de brasileiros compadecidos da situação dos habitantes de Santa Catarina. Aí que no bolso de uma das roupas doadas, a neta do Seu Daniel achou nada menos que vinte mil reais, in cash, livre de impostos. Seu Daniel não teve dúvidas: pegou o dinheiro, procurou o doador e devolveu a quantia inteirinha, diante do olhar estarrecido do pobre samaritano, que não fazia idéia que tinha esquecido seu troco no bolso do casaco, e muito menos que veria essa grana de volta.

Na mesma página do mesmo jornal mediano, você pode ler ainda, quem sabe, a história da Dona Teresilda. A Dona Teresilda é uma daquelas maravilhosas voluntárias que foi flagrada, juntamente com soldados do exército, pelas câmeras de televisão, enchendo o porta-malas do próprio carro com as doações enviadas pelos milhares de brasileiros compadecidos da situação dos habitantes de Santa Catarina, como o Seu Daniel. Depois de aparecer em cadeia nacional (e de se arriscar até a ir pra cadeia), a Dona Teresilda foi acometida de uma terrível dor na consciência, e voltou aos galpões do centro de distribuição do Parque Vila Germânica, em Blumenau, pra devolver os donativos que havia pego anteriormente.

O inglês Thomas Hobbes acreditava que todo ser humano é como a Dona Teresilda, mau por natureza, e precisa da sociedade para controlá-lo. Já o francês Jean-Jacques Rosseau pensava o contrário: que todo ser humano nasce puro como o Seu Daniel, e que a sociedade fatalmente o corromperá se ele não se cuidar. Schopenhauer cagaria pra todos. Eu, que sempre tive inclinações hobbesianas, mas que acompanharia Schopenhauer em seu desprezo pelo bicho homem, hoje já não sei dizer bem o que penso sobre situações como essas. Seria o homem essencialmente bom ou mau?

Inserindo humildemente no contexto, depois de tantos tropeços, e ceio de tantas dúvidas acerca da minha própria natureza, prefiro acreditar que estão todos certos. Ou melhor, errados. Nao há que se falar em preto ou branco: há inúmeras nuances de cinzas e outras cores. O Seu Daniel, a Dona Teresilda, Hobbes, Rosseau e eu guardamos entre nós pelo menos uma grande característica em comum: somos humanos. E essa característica encerra um universo tão grande de possibilidades, que hoje em dia acho impossível dizer que somos apenas isso ou aquilo. Somos bons, maus, orgulhosos, arrependidos, prepotentes, derrotados, tudo isso dentro de uma gama incontável de variáveis que não podemos controlar.

Quero crer que nossa natureza humana faz com que sejamos bons em determinadas circunstâncias e maus (ou não tão bons) em outra. Podemos simplesmente agir de formas diferentes ante duas situações aparentemente idênticas, somente por sermos tão imprevisíveis. Ou podemos fazer grandississímas cagadas com a melhor das intenções na cabeça. Se estivéssemos dentro do roteiro do filme Crash provavelmente o Seu Daniel seria atropelado pelo Matt Dillon e quem apareceria pra salvá-lo seria a Dona Teresilda. Num jipe do exército...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Rehab

Se o tropeço é melhor professor do que o sucesso, acabo de ter lições pra uma vida inteira.
Descobri que todo esse sistema que eu montei pra não cair diante dos problemas que passei durante a vida (muitos imaginários, descobri agora), esse sistema que eu criei pra compensar a carência e a humilhação que passei principalmente na adolescência, esse mesmo sistema que eu acreditava que me ajudava a viver sem sofrer, me fez perder uma pessoa muito importante e que poderia ter tido um papel fundamental na vida que pretendo levar a partir de agora.
Durante muito tempo acreditei que as pessoas se dividiam entre cordeiros e lobos. Entre predadores e presas. Apliquei à minha vida a Lei da Selva, e procurei sempre ser o mais forte, mesmo que pra isso eu tivesse que pisar em algumas pessoas no caminho. Somente o mais forte poderia sobreviver. Me enganei pensando que não havia sido suficientemente amado pela minha família, e que se quisesse sobreviver e chegar a algum lugar, não poderia contar com os préstimos de ninguém, e que pedir ajuda seria somente demonstrar fraqueza. E esse foi meu primeiro erro.
Essa filosofia me serviu bem durante muito tempo, por incrível que pareça, e me ajudou, junto com meu jeito sedutor e manipulador, a ser muito admirado pelas pessoas próximas, especialmente as que não me conheciam tão bem. Sim, porque não há como negar que esse meu trato com as pessoas me ajuda muito a chegar onde eu quero, e o fato de me distanciar contribui bastante para que eu esteja sempre por cima nas minhas relações pessoais. E, dessa forma, acabei me apegando a essa máscara, a essa fama. E esse foi o meu segundo erro.
Doeu muito no começo (e é claro que ainda dói agora), e foi muito difícil aceitar que essa imagem me impediria de ir além nos relacionamentos interpessoais, que respeitar as pessoas é a melhor forma de conquistar respeito, e que mentir e manipular são atitudes que só vão gerar mais mentiras e coisas ruins. Mas ninguém gosta de saber que se transformou num perfeito bastardo, e eu não sou diferente. E pra piorar, saber disso ao perder a pessoa amada, e saber que tudo que você tinha como certo estava completamente errado, está sendo muito complicado. Sem contar também a arrogância e a hipocrisia, que sempre me impediram de ver meus erros, me fizeram demorar pra vê-los agora.
Há muito o que fazer agora. Eu sempre contei vantagem de que conhecia perfeitamente os meus defeitos. Estou descobrindo agora que isso foi outro erro. Não percebi muitos deles e, com a maioria dos que identifiquei, não fiz nada para corrigir. Errei tanto nesse processo que não sei bem o que fazer para consertar os estragos. Tenho medo de não ter capacidade de aprender a tomar atitudes pra ser uma pessoa melhor.
Só sei que não vou voltar ao zero. Não vou voltar a vestir essa carcaça sifilítica pra ter que percorrer todo caminho de volta quando precisar me desvencilhar dela. Quero me esforçar sinceramente pra, de hoje em diante, corrigir verdadeiramente esses defeitos. Se não matar essas atitudes pela raiz elas voltam, como que por instinto. Não dá pra fazer isso sozinho, mas também tenho que começar de algum lugar. Tenho medo de não conseguir, mas tenho ainda mais medo de continuar assim pra sempre.
E não dá pra pensar em remediar nada, pensando em recuperar essa pessoa. Se quiser mudar só pra arrumar as merdas que eu fiz, nem eu vou acreditar na sinceridade do meu propósito. Todo o mal que eu causei às pessoas foi, na verdade, um grande mal que causei a mim mesmo, e só agora estou pagando por isso. Vou mudar por mim mesmo, por mais ninguém. Só resta esperar que essa transformação beneficie as pessoas à minha volta, e a mim mesmo, na escala de crescimento pessoal legítimo.
They tried to make me go to rehab... e eu vou mesmo. Tomara que tenha sorte.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Alta Fidelidade

Não estou dizendo que não exista gente fiel. Mas é engraçado ouvir por aí as teorias das pessoas que se dizem adeptas da monogamia. Tem um amigo meu que diz que chifre não cruza fronteira, o que na prática quer dizer que ele pode comer quem quiser quando está viajando. Um colega de trabalho já me explicou que ele não corre atrás, mas se aparece a oportunidade, ele tem a obrigação de conferir. Minha chefona segue a linha do envolvimento emocional, que funciona assim: se ela dá mas não sente nada pela pessoa, não rola traição. Eu gosto dessa escola filosófica, porque minha chefe é um baita tesão.

Eu não vou explicar o que eu penso sobre isso, até porque esse não é o motivo desse post. Mas tenho certa pena dessa gente que me olha e diz que acha que eu nunca vou conseguir ser fiel. Primeiro porque essa gente que me conhece pouco, acha que pode julgar as pessoas pela aparência, e certamente um dia vai levar um chifre de alguém que achava que sempre lhe seria leal. Depois porque, se for pra pensar bem, dá pra ver que eu namorei muto pouco na vida justamente porque não queria estar em um relacionamento de fachada. Por último, quem me conhece mesmo sabe que eu não entro em jogo pra perder, e que eu procuro sempre ser o melhor possível em tudo, o que não aconteceria se eu traísse a pessoa que estivesse comigo.

Lógico que essa lega-lenga toda tem que ser posta à prova, e que confiança a gente tem que fazer por merecer no dia-a-dia. Mas quero só ver o que vão dizer quando perceberem que me julgaram errado. De novo. E foda-se.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Procura-se


A galera que trabalha no meu flat me acha a pessoa mais simpática do mundo. O pessoal do meu trabalho acha que eu mordo. Meus funcionários não entendem muito bem com um ser humano tão irresponsável virou chefe. Quem me vê de longe acha que sou viado. Quem me vê de perto acha que falta pouco. Meu sócio e irmão adotivo acha que sou mau como o diabo. Quem bebe comigo acha que sou rico. A gerente do meu banco acha que sou louco.

Minha filha acha que sou hipercarinhoso. A mãe dela acha que sou confuso. Minha afilhada acha que sou um super-herói. A mãe dela acha que fez um negócio arriscado me colocando de padrinho. Meu irmão acha que vou dar certo. Meu pai acha que estou cumprindo bem o meu papel. Minha vó e minha madrinha acham que sou uma fofura. Minha mãe acha que sou o cão. A mulher que amo acha que vou fazê-la sofrer. As mulheres que não amei tanto não acreditam que estou amando agora.

Eu acho que sou, e isso basta. O que sou, ainda não sei. Acho que não quero morrer num apartamento escuro sozinho, mastigado pelo meu cachorro famélico. Acho que sou feliz, mas nem sempre. Acho que me esforço pra fazer o certo, mas nem sempre. E espero chegar em algum lugar, mas nem tanto. Enquanto isso vou me procurando, que é mais divertido do que me achar. E se eu chegar muito perto, fujo.

sábado, 11 de outubro de 2008

Meu lugar especial


Cada cidade tem seus lugares especiais. E cada pessoa tem os seus próprios, aqueles que são somente dela, e que quase ninguém mais entende o que ela vê de tão especial por lá. Tem gente que adora o Parque da Cidade. Minha mãe não sai da ACM, por exemplo. Meus amigos são
habitués do Líbanus.

Eu, como não sou diferente, também tenho os meus, que nem são lá tão exóticos. O Sebinho da 406 norte e a Livraria Cultura valem sempre quando preciso gastar dinheiro. O Extra, (sim, o hipermercado, por incrível que pareça) funciona de madrugada, às vezes só pra bater perna. Ultimamente o mais freqüente e predileto tem sido o Conic.

Tem coisas que só tem por lá. Dá pra comprar vinis deliciosos e baratinhos (muita coisa boa de jazz) na Berlim Discos, camisetas transadíssimas no Verdurão e na K'traca, consertar seus óculos e relógios nas óticas e comprar diapasões, cordas e palhetas na Musimed. Tem um sebo bem ensebado mesmo na praça central, artigos bem
nerd na Kingdom Comics pra quem, como eu, adora gibis, e se você tiver tempo e paciência (mas muito mesmo) dá pra admirar o Seu Arnaldo levar quase uma hora pra achar o político do Oriente Médio na Casa dos Mapas. Tem um sex shop interessante, uma papelaria com tudo bem barato e livrarias técnicas pra quem precisa. Lá tem o melhor café com pão de queijo da cidade (eleito pelos "especialistas" da cidade, inclusive), tem um açaí com banana trincando de gostoso, chocolates e doces com gosto de infância a 10 reais a tonelada e até Giraffas e um quiosquinho de sorvete do MacDonalds pra quem não está a fim de inovar muito. À noite tem uma sinuca honestíssima no submundo, e o Dulcina e o Galeria, se você aguentar os "descoladinhos" de plantão.

Mesmo que não seja pra comprar, vale a pena dar um giro e admirar os nativos locais. Ver os crentes da Universal, os mendigos e os loucos falando sozinhos, os skatistas, os
hype e os fashion, os sindicalistas, ou só quem está de passagem. Há até teses sociológicas na internet sobre o Conic. E, pra não fugir do lugar-comum, como disse um blogueiro num post desses sobre o lugar, "para entender o que é o Conic, não basta visitar. Tem que frequentar".

Nessa linha, ficam em aberto duas questões: qual o seu lugar especial? e que porra significa Conic?

domingo, 28 de setembro de 2008

Pelas coisas úteis que se pode comprar com dez cruzeiros...

Trilha sonora indicada: Eu vou torcer - Jorge Ben

1. Espresso e pão de queijo;
2. CDs em promoção na Livraria Cultura;
3. Bombons e chocolates;
4. Revelação de fotos;
5. Cerveja Erdinger Weissbrau Weibbier;
6. Gibis ou revistas divertidas;
7. Velas aromáticas;
8. Temperos Cia. das Ervas;
9. Cuequinha e meia de algodão vagabunda;
10. Caneca de porcelana.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Já percebeu...



...que 99% dos comentários racistas, homófobos, classistas, sexistas ou bairristas começam com a expressão "Olha, eu não tenho preconceito, mas..."?


* * *
...que toda vez que você diz que está sofrendo, alguém retruca que você não devia reclamar porque tem carro, casa, e ganha dez mil reais por mês, como se isso fosse a solução de todos os problemas?

* * *
...que o Alexandre Garcia está ficando gagá? Os editoriais dele agora sempre têm pérolas bem pessoais do tipo: "e os jovens não respeitam quem mora no quarto andar" (!) ou "as pessoas deviam fazer como eu, que mandei instalar no meu carro e uso cinto desde 1967" (!!)

* * *
E alguém aí sabe onde eu consigo castanha de baru?

domingo, 7 de setembro de 2008

I think it's broken...

Então é serio? É verdade isso? Wilde tinha razão, no fim das contas? Todo homem mata as coisas que ama? E as coisas que já nascem mortas? Ou que permanecem exangues, à espera do último suspiro? Se for assim, é de culpa, revolta ou resignação que eu choro agora?

Será que fiz tudo pra manter essa coisa viva? Será que era necessário fazer exatamente o contrário: me afastar pra ver florescer? Matei o meu amor por excesso de amar?

Por que me disseram que o que tiver de ser será? Por que inventaram que tudo dá certo no final? Por que as pessoas insistem que a gente deve manter o sorriso depois de se arrebentar tão clamorosamente contra o muro?

Acho que matei meu amor. Fiz tudo que achava certo e isso só piorou as coisas. E não posso nem me consolar pensando que tentei. Hoje não.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Catracadas

Chegamos a Ilhéus, eu e meu fiel escudeiro Steven, um pouco pós o meio-dia. De lá partiríamos imediatamente em direção a Itabuna para avaliar uns imóveis e produzir os respectivos relatórios técnicos. O calor era razoáel, longe de ser escaldante. Galvão, o motorista de táxi salvador, estava à nossa espera, de prontidão. Teve que esperar um pouco mais, porque tivemos - literalmente - que sair correndo atrás do avião, que resolvera voltar à Brasília sem desembarcar nossa bagagem.
Resolvido esse pequeno contratempo, embarcamos no carro do Galvão e nos entregamos a um rápido city tour, com direito a informações fundamentais a nossa estada no sul da Bahia:
- Em Ilhéus só prestam as praias. Não tem mais nada pra se fazer aqui. Bom mesmo é Itabuna. Os melhores bares, os melhores forrós estão por lá. Lá as mulheres são muito mais bonitas, aqui em Ilhéus só tem catraca.
Catraca, lógico, quer dizer mulher feia, baranga. Aprendemos um pouco da língua nativa, mas nos entreolhamos preocupados. E dou dez reais pra quem adivinhar em que cidade, afinal, meu fiel escudeiro havia reservado - e pago antecipadamente - nosso hotel...

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Carolíneas

Carolina se levanta todo dia antes do sol sair. Lava o rosto, penteia os cabelos, toma café. Arruma a filha, e prepara o leite com chocolate da pequena. Pega o ônibus junto com a filha e outras crianças pra ir à faculdade. Quando não tem aula, vai mesmo assim e passa a manhã na biblioteca. Não pode perder a carona pra Foz do Iguaçu porque é duro atravessar a ponte no começo do dia. Almoça na rua, perto do trabalho, pra não perder muito tempo. É estagiária, mas toma conta do escritório sozinha. Não percebeu como aconteceu, mas quando se deu conta era responsável por tudo. À noite, volta pra faculdade. Quando não tem aula, vai mesmo assim e passa a noite na biblioteca. Não pode perder a carona de volta pra casa porque é duro atravessar a ponte no fim do dia.

Carolina passou a perna no Seu Jorge e no Seu Chico. Sim, sempre foi uma menina bem difícil de esquecer, anda bonito e tem um brilho no olhar. Sim, nos seus olhos tristes guarda a dor de todo esse mundo. Os olhos de Carolina, contudo, nunca foram capazes de fazer o que ela quis. Carolina queria que seus olhos deixassem transparecer tudo o que pensa, sem que sua boca precisasse dizer nada. No quarto, sozinha, de vez em quando, chora muito e soluça baixinho, torcendo pra alguém ouvir. Carolina gosta de estar a salvo, mas queria que alguém descobrisse, por acaso, seu manual de instruções.

Carolina se forma hoje. Nunca disse isso a ninguém, e ninguém disse a ela que seria grande na vida. Carolina detesta os holofotes e acha que, pequenina, passará incólume pelas desgraças do mundo. Carolina inventa sempre desculpas pra não conseguir. Mas é dura e operosa. E linda e genial, em seu exaspero. Transformou-se em formiguinha, fez a sua parte em silêncio e fincou sua bandeirinha no topo da montanha mais alta.Enquanto as outras pessoas - como eu - se preocuparam em atrair a atenção, bravateando em voz alta, Carolina passou por todos, por trás das cortinas, e papou o título.

Carolina correu a América do Sul, amou um canalha, bebeu muita tequila, cortou o supercílio, criou uma filha, virou bacharel. Já quis ser dentista, médica, lutadora, dançarina. Quer conhecer Nova York, voltar a Buenos Aires, ser juíza, apaixonar-se de novo. Carolina vai ser Presidente da República, Ministra do Supremo, Secretária-Geral da ONU. E nem sequer vai ter a pachorra de tripudiar ninguém...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Dois de Mim

É normal que as pessoas, ao me conhecerem melhor, identifiquem também as minhas neuroses. Não em si mesmos, mas geralmente em personagens de filmes, livros e seriados. Quase sempre em tipos esquizofrênicos, maquiavélicos, sistemáticos, obviamente. O Tomas, de A Insustentável Leveza do Ser, pela sua ojeriza em compartilhar sua intimidade. O velhinho do Elsa y Fred, pela retidão, covardia e obsessão por manter as coisas sempre em seu lugar. O Davd Duchovny na série Californication, que ainda não assisti pra conferir. Algumas vezes é lisonjeiro, a maioria delas, perturbador.

Ganhei um livro do Mario Benedetti chamado A Trégua, de uma moça que parece me conhecer de outra vida, e que muitas vezes, sem querer, adivinha o que estou pensando com precisão de tirar o sono. Ela me disse que lembrou mim várias vezes enquanto lia o livro. Daí que estou planejando dividir grandes pedaços dos meus próximos momentos com essa mulher e me incomoda que ela saiba tanto assim sobre minha(s) pessoa(s). Se pudesse escolher, preferiria deixar certas partes de mim escondidas embaixo do tapete, ou jogadas atrás da porta do banheiro.

De qualquer forma, não importa a que altura do livro esteja, não preciso fazer muita força pra encontrar descrições extremamente identificadas comigo, como essa: "É como se eu me dividisse entre dois entes díspares, contraditórios, independentes, um que sabe de cor seu trabalho, que domina ao máximo as variantes e os meandros dele, que está sempre seguro onde pisa; e outro sonhador e febril, frustradamente apaixonado, um sujeito triste que, no entanto, teve, tem e terá vocação para a alegria, um distraído a quem não importa por onde a pena nem que coias escreve a tinta azul que em oito meses ficará negra".

No fim, fico feliz por dividir algumas cargas com o resto do mundo, em saber que não sou um ornitorrinco em extinção, o último da espécie. E não posso evitar de me sentir alentado, embora envergonhado e exposto, em saber que se quiser compartilhar a companhia de uma pessoa por um tempo maior do que alguns dias, é necessário que ela me conheça bem mesmo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Yes, boss!

E agora eu é que mando na porra toda. Mandaram meu chefe pro saco e me nomearam pro lugar dele. "Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio". Essa afirmação do Groucho Marx serve um pouco pra traduzir como ando me sentindo esses dias. Embora eu saiba que sou completamente capaz de chefiar minha Divisão, uma parte de mim fica me dizendo que só virei chefe por causa da bagunça institucionalizada que é o meu órgão.

De qualquer forma, como passei quase dois anos reclamando das coisas que via de errado acontecendo ao meu redor imediato, vou aproveitar a chance pra tentar consertar o que der. Se perceber que não dá pra mudar nada, pego meu chapéu e volto pro meu lugar, já que a compensação financeira nem é tão compensadora assim. Mas acho que vai dar sim.

Boa sorte pra mim nessa nova fase.

domingo, 3 de agosto de 2008

Ê Povinho Bunda

Esse povo é triste. Esse povo que lê Contigo e acha que Cacá Diegues é cinema nacional. Esse povo que acha tudo vibe, hype, fashion, e vai na feirinha mix comprar um roupinha que é tudo. Que acha que Big Brother é reality. E que o Antônio Fagundes é ator. Esse povo que pensa que protesto em novela é mobilização social. Esse povo que malha pra deixar a bundinha empinada, mas não dá pra não ficar mal falado. Esse povo que acha que mulher é vaca e não entende porque não come ninguém. Esse povo que puxa conversa na fila. Esse povo que é filho do deputado, irmão do procurador, primo do delegado. Esse povo que bebe pra esquecer os problemas e só arruma mais confusão. Esse povo que beija na boca, mas não escova os dentes. Faz chapinha, mas não toma banho. Que masca chiclete de boca aberta. Esse povo que acha que ouvir som alto em frente ao supermercado é tirar onda. Esse povo que acha que Frei Galvão é santo, que Paulo Coelho é gênio e que a Débora Falabella é virgem. Esse povo que vota em crápula pra se dar bem e leva na bunda todo mês. Esse povo que morre de pena, mas não levanta um alfinete pra ajudar. Esse povo que elegeu o Lula porque tinha esperança. Esse povo que foi enganado, mas votou no Lula de novo porque as coisas estão melhorando. Esse povo que na próxima eleição vai votar num reacionário de direita qualquer porque não agüenta mais ver que as coisas não mudam. Ê povinho bunda.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

In Your Tube

Aí que os últimos dias foram bastante atribulados, com a Gigi e o Dindo bagunçando a casa, a rotina e a tristeza da minha vida. E agora que eles foram embora, não sobrou muita coisa. Um apartamento que parece uma caverna, com um dono que parece uma pedra. Meio sem saber o que fazer, passei umas noites sem fazer nada mesmo. Algumas até passei caçando coisas legais pra ver no youtube, lendo blogues até então desconhecidos. Então, enquanto não me animo a escrever nada novo, vou colocar uns links legais do youtube pra não perder de vez os meus últimos três leitores fiéis.

Ilha das Flores, curta do Jorge Furtado. Obrigatório.
http://br.youtube.com/watch?v=Zfo4Uyf5sgg
http://br.youtube.com/watch?v=6IrGibVoBME

Tarantino's Mind, com o Selton Melo e o Seu Jorge. Totalmente nonsense, mas bem divertido.
http://br.youtube.com/watch?v=NmBKavRRGqQ

Campanha francesa de incentivo ao sexo seguro. Fantástica, principalmente a versão gay.
http://br.youtube.com/watch?v=BSAxGFYsnTA
http://br.youtube.com/watch?v=IYEGkXlda4c
http://br.youtube.com/watch?v=bfnB9Oqrrgs

Então é isso aí. Beijos e até breve!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Notícias Daqui

Oi, mamãe. Como vai? Espero que esteja tudo bem, apesar de imaginar que o coração deve andar apertado por deixar nossa filhota voar pra tão longe, ainda mais sozinha e pra passar tanto tempo. Se serve de consolo, quando ela chegou toda fagueira e sorridente, percebi que foi disparado a mais madura e menos egoísta de nós três, e que ainda podemos aprender muito observando essa moleca.

Domingo, depois de buscá-la no aeroporto, fomos ao hipermercado, você sabe como ela adora passear por lá desde que era só um pedacinho de gente (menor ainda). Compramos tudo o que ela precisa, como xampu, frutas e verduras, e mais um monte de coisas que ela não precisa. Nessas horas, é difícil negar alguma coisa para aqueles olhos verdes. Mesmo assim, tentei ser firme: trocamos refrigerantes por sucos e não compramos nenhum tipo de chocolate. Apesar de ela ter dito que já havia comido no avião, apostei num pratinho de refeição do Giraffas, que ela traçou sem problema nenhum, como de costume.

Na segunda, acordamos cedo pra passear no parque, onde estou aproveitando pra ensiná-la a patinar. Na primeira aula, ela preferiu se pendurar no meu braço e me mandar correr, que é mais fácil do que tentar se equilibrar sozinha, e parece que é muito divertido assistir o pai gemer de dor no fim da manhã. Quando estávamos voltando pra casa, minha mãe me avisou que ia ter colônia de férias de novo esse ano, e apesar de preferir que ela passasse mais tempo comigo, não tive coragem de desfazer o sorriso de empolgação dela quando ficou sabendo. Almoçamos no MacDonalds, juro que por causa da pressa. Deixei nossa princesa no lugar marcado e a busquei no fim da tarde, como fizemos várias vezes nas últimas férias. Marcamos um cinema pro começo da noite (fomos ver Wall.e, que nós adoramos), e ficamos matando o tempo no meu trabalho até chegar a hora de começar a sessão. Eu morro de orgulho quando a levo lá porque a minha Pretinha é uma moça maravilhosa, simpática e empolgada com tudo (adora os meus carimbos, imagine), mas se comporta tão bem que eu não me contenho e conto pra todo mundo sobre a educação perfeita que você dá a ela, apesar de tudo o mais que você tem que correr atrás. Chegamos em casa derrubados de cansaço e empanturrados de pipoca, por isso nem conseguimos falar com você pela internet, como havíamos planejado.

Hoje acordamos bem preguiçosos e ficamos rolando na cama, fazendo guerra de cócegas e assistindo Os Padrinhos Mágicos até quase perder a hora do almoço. Quando acordo com aqueles olhos verdes enormes olhando bem perto os meus (ela fica me encarando até eu acordar) e ouço aquela gargalhada de menina doidinha no ouvido, tenho certeza de que é o momento mais perfeito que tenho na vida, só comparável a quando ela desmaia abraçada comigo, beliscando meu mamilo e reclamando que, bolas, ela está sem um pingo de sono, e que eu sou muito injusto por querer que ela durma tão cedo. Almoçamos um crepe (perdemos a hora, afinal de contas) e corremos pra colônia de férias, porque hoje tinha piscina. Quando busquei a baixinha, concordamos que seria legal ir na Livraria Cultura comprar uns livros pra ler antes de dormir. Lógico que ela escolheu os que falam sobre meninas que namoram ou que estão apaixonadas, e que têm as capas o mais rosa possível. Já quer ser grande, a nossa pentelha. Depois, fomos tomar um chocolate quente e conversar sobre nossos planos pra semana.

Ela está aqui somente há três dias, mas você vai gostar de saber que anda cuidando do papai como uma verdadeira primogênita. Quando sinto medo durante a noite, esse pavor de não ter aproveitado o tempo com ela da melhor forma que podia, ela se espreguiça dormindo (com a camisola amarrotada no peito e a barriguinha descoberta) e joga uma perna ou um braço em cima de mim, pra ter certeza, mesmo no sonho, de que eu estou lá pro que ela precisar. Se ela está acordada e me supreende carente, me coloca no colo e diz que me ama, me faz cafuné, e da maneira mas simples do mundo, transforma esse serzinho ridículo num paizão de primeira linha, lindo, gente boa e cheio de outras qualidades que só ela vê, mas que, vamos combinar, é só a opinião dela que importa mesmo.

Por isso não fique brava com a falta de notícias, viu? Se fomos relapsos, é porque estamos tentando fazer o tempo parar. E não é fácil. Cada minuto tem que valer por um dia. Mas até que estamos conseguindo nos divertir bastante. Graças a você, né? Obrigado por me deixar brincar de pai a sério por essas semanas. E obrigado por transformar um ser humano cheio de cromossomos paternos defeituosos em uma pessoinha tão fantástica e divertida. A gente promete que vai tentar manter mais contato. Mas já fique alertada, se as notícias faltarem é porque está tudo bem. Muito bem, aliás.

Beijos,

Marcelo

terça-feira, 1 de julho de 2008

Paradoxal



Sempre há algo que possa ser dito. Sobre tudo. Mesmo que não seja necessário. Sempre se pode falar sobre o que já está na nossa cara e não precisa ser descrito. Sempre se pode falar sobre o tempo, sobre o trabalho, sobre a vida. A nossa e a dos outros.

Sempre se pode teorizar sobre alguma coisa. Principalmente quando é difícil somente sentir. É muito mais fácil explicar. Explicar o porquê do nosso sofrimento, o porquê da vida ter tomado rumos que não prevíamos. Sempre se pode montar teorias complexas para explicar o motivo da prática nem sempre corroborá-las.

Sempre se pode racionalizar sobre o mundo. Sobre o que está errado, por exemplo. Sempre se pode achar os culpados pelas crianças com fome, pelo 11 de setembro, pelo aquecimento global, pela separação do Brad e da Jennifer. Sempre se pode elogiar os vencedores, mais ainda se estiverem do nosso lado.

Sempre há algo que possa ser dito. E sempre, sempre há algo que possa ser feito. Mas falar é fácil...

sábado, 28 de junho de 2008

Coleções


Vai viajar? Divirta-se. Não esqueça dos meus presentes. É fácil achar algo que me agrade, e saiba que prefiro pequenas lembranças. Coleciono várias coisas. Canecas, sachês de açúcar, beer coasters, selos, havaianas, e outras tralhas.
Já colecionei moedas, cédulas, soccer cards, guardanapos com telefones de mulher. E mulheres, inclusive. Já juntei revistas de modelos nuas e gibis de super-heróis. Colecionei decepções de adolescência por um bom tempo, assim como algumas alegrias de infância. Deixei de colecionar erros porque, embora os tenha em quantidade, não consigo classificá-los e apenas os mantenho embaixo da cama, longe da vista das visitas.
Hoje coleciono histórias. E realizações. Amizades também, que guardo em grandes redomas dentro do coração, mas que mesmo assim acabam esmaecendo com o tempo. Amores, até gostaria, mas são tão poucos e , na verdade, não sei bem o que fazer com eles. Acabaria expondo-os como grandes troféus feitos de cabeças de animais mortos em minha sala de estar, perto da lareira.
Agora minha ambição é colecionar momentos. Não quaisquer momentos. Só os que tiver que passar ao seu lado. Já tenho muitos: noites perfeitas, discussões homéricas, músicas lindas, viagens inesquecíveis, planos audaciosos. Mas separei um pedaço tão grande mim pra catalogá-los que imagino que serão necessários muitos anos para que eu possa considerar essa coleção completa.
Ainda tenho páginas e páginas em branco esperando nossas fotos. Pilhas de CDs e DVDs virgens, pra se encherem com nossas canções e filmes prediletos. Estantes repletas de guias de viagem, detalhando cada lugar que ainda não conhecemos. Livros que ainda não lemos, comidas que ainda não provamos. Lágrimas, olhares e gargalhadas, prontos pra você. E um coração, ligeiramente empoeirado pela falta de uso, mas cheio de boas intenções e com um castelo enorme, erigido nas nuvens, extremamente espaçoso e confortável, preparado pra quando você resolver se mudar de mala e cuia pra dentro de mim. De uma vez por todas.