segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ficando velho e (des)enganado


A publicidade me promete um banco que é tão bom que nem parece banco. E uma escova que substitui o fio dental porque, afinal de contas, o fio dental é insubstituível. Pra melhorar, na caixa daquele celular que vai me matar de câncer, está escrito "você em primeiro lugar". Por último, a maldita propaganda do moleque que só faz cocô na casa do Pedrinho fica todos os dias testando minha resisitências aos impulsos infanticidas. E em tempo: alguém consegue imaginar algo tão sofisticado quanto um iogurte que promete levar as princesinhas ao cagadouro regularmente?

* * *

Na mídia, ele é o estilista Lino Villaventura. Pros amigos, é Agenor Ferreira de Jesus. Hoje em dia não basta o cara ter talento pra se sobressair, é preciso muito marketing pessoal. Ao analisar as falhas de minha carreira como arquiteto, acho que peco nesse quesito. Pra promover meu trabalho como criador e artista, preciso de um nome exótico, que venda minha imagem como um outlaw da arquitetura, uma espécie de Pollock ou Basquiat, quem sabe. Um pseudônimo que instigue o inconsciente dos meus clientes potenciais. Já pensei até em um bem legal: Marcel Membromayor. Com a devida licença poética, claro...


* * *

Não sei se todo mundo é assim, mas compraz-me imaginar que isso é bem normal. Tenho alguns TOCs leves:

1 - Não amasso papel quando vou jogar fora, rasgo a folha em oito pedaços aproximadamente iguais e acomodo num canto da lata de lixo.
2 - Não passo em cima das listras das faixas de segurança com os pneus do carro, tampouco dos losanguinhos amarelos indicativos de travessia de estudantes. As tartaruguinhas e as faixas de mudança de direção já não merecem a mesma regalia.
3 - As barrinhas de volume da minha TV não ficam nunca pela metade. Os ficam inteirinhas ou somem de vez. O mesmo vale pros vidros do meu carro: ou estão completamente abertos ou ficam fechados de vez.
4 - Na gaveta de talheres do armário da minha cozinha, os talheres precisam ficar todos voltados pro mesmo lado. Mas esse eu nem considero TOC porque é extremamente prático e bonitinho.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O cão e o frasco*

"Meu belo cão, meu bom cão, meu querido totó, aproxima-te e vem respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade."

E o cão, abanando o rabo, que é, julgo eu, nestes pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e pousa curioso seu úmido nariz no frasco desarrolhado; depois, recuando subitamente apavorado, ladra contra mim, reprovador.

"Ah, cão miserável, se eu te tivesse oferecido um monte de esterco, tê-lo-ias farejado com delícia e quiçá devorado! Assim, também tu, indigno companheiro da minha triste vida, te pareces com o público, ao qual não se devem nunca apresentar perfumes delicados que o exasperem, e sim porcarias cuidadosamente escolhidas."

*Charles Baudelaire

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Bela Adormecida 2099

Tipo assim: era uma vez um homem muito poderoso que se casou e teve uma filha. Algumas décadas atrás, esse mesmo homem tinha sido um policial corrupto que havia montado uma milícia para proteger uma comunidade carente do Rio de Janeiro e acabou enriquecendo às custas das taxas de proteção.

Sua filha, após catorze intervenções cirúrgicas, dentre as quais duas próteses de silicone, aplicações regulares de toxina botulínica, uma operação para redução de estômago e outra para correção de lábio leporino, havia se tornado uma garota interessante, às vésperas de completar suas quinze primaveras. Seu pai, aproveitando a ocasião, no afã de promover a felicidade da filhota e ratificar seu prestígio junto à comunidade local, ocupava-se de planejar a mais bela festa de debutante que seu dinheiro podia financiar.

No dia da comemoração, que contou com a presença de várias celebridades de menor escalão, uma socialite paulistana decadente com prováveis ligações escusas com o tráfico de drogas, teve um surto psicótico por não ter sido convidada para a festa. Sob o efeito de barbitúricos, apareceu na festa e, sob berros e praguejos, jurou que a menina pagaria pelo desleixo do pai quando completasse a maioridade.

Os pais, muito preocupados, passaram a cercar a filha de cuidados, que incluíam transporte em carro blindado, segurança armada, CFTV, GPS, e outras siglas mais. A pequena, que só saída de casa acompanhada de sua brigada, passou a ter aulas particulares em casa e desenvolveu a vida praticamente em função de sites de relacionamentos e salas de bate papo na internet.

Um belo dia, entretanto, perto de completar seu aniversário de dezoito anos, seu professor de natação sugeriu que a menina tomasse algumas doses de estanozolol para fortalecer a musculatura e melhorar seu desempenho nas psicinas. O esteróide, obviamente, era ilegal, mas o professor podia obtê-lo facilmente, mediante o pagamento de uma quantia razoável. A pequena, que duvidava que seu mestre pudesse querer o seu mal - afinal o provia de favores sexuais há quase dois anos -, tomou as pílulas tão logo as conseguiu. Por um pequeno percalço do destino, seu organismo reagiu mal ao coquetel de anabolizantes, somado às anfetaminas e anorexígenos que nossa heroína tomava desde a puberdade, que acabou por levá-la a um estado de coma irreversível.

Seu amado pai, após ordenar a execução sumária de todos os professores de educação física da filha, passou a procurar desesperadamente uma solução para a tragédia da família. Gastou boa parte de sua fortuna com juntas médicas de universidades respeitadas, tratamentos revolucionários ainda não autorizados pelos Conselhos de Medicina, cirurgias espirituais e rituais cabalísticos dos nativos americanos disponibilizados na internet. Com o passar dos anos, porém, seu ímpeto se arrefeceu e ele passou a aceitar resignadamente o destino de sua herdeira.

Quando a princesa completou vinte e um anos, contudo, um belo rapaz apareceu à porta da mansão da família (que, aquela altura, estava hipotecada). Ostentando uma impecável indumentária branquíssima (justificadamente, pois o rapaz era médico ou pai-de-santo), alegou ter encontrado, finalmente, a solução definitiva para reverter o estado da enferma. O rei, que havia perdido tempo, dinheiro e esperança com charlatanices de toda espécie, concordou desconfiadamente e deixou o rapaz entrar. Após meses de tratamento intensivo, à base de um método revolucionário que utilizava células-tronco contrabandeadas ilegalmente de hospitais africanos, a princesa teve uma recuperação milagrosa e acabou se apaixonando pelo médico/príncipe/pai-de-santo.

Nosso rei, que voltara a ganhar dinheiro fornecendo equipamento de logística para as operações do Primeiro Comando da Capital, recobrou a alegria de viver e iniciou planos para o casamento do belo par o mais brevemente possível. A cerimônia foi realmente linda e todos foram quase felizes para sempre. Pena que descobriram que o rapaz era formado na Bolívia e exercia ilegalmente sua profissão no Brasil, razão pelo qual foi condenado e preso. A menina, que jurava ter vivido experiências de pós-morte durante seu coma, foi morar com uma amiga muito próxima em uma comunidade alternativa e acabou morrendo de tétano ao pisar em um prego enferrujado quando fugia de um bando de sem-terra que reivindicavam o terreno da comunidade como terra improdutiva. Aí veio a Globo, comprou os direitos da história e fez uma minissérie. Aí sim todos foram felizes para sempre...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A nora que mamãe pediu a Deus


Schopenhauer escreveu uma vez - acho que em Dores do Mundo - que "nem todos os loucos ou burros são fanáticos, mas todos os fanáticos são loucos ou burros". Ele mesmo era um pouco fanático, razão pela qual não é bom ficar dando muita corda pro coitado. Mas é difícil não concordar ele lendo o blogue da Cleycianne - uma serva do Senhor no mundo da internet. A porra toda é uma coleção de sandices tão inadvertidamente colocadas sobre o mundo do entretenimento visto pela ótica de uma lunática, que vale passar uns minutos lendo tudo: o link é http://cleycianne.blogspot.com, mas pra quem não tem paciência ou tempo, eu pincei o top five das pérolas da moça:

1 - "
Madonna não acredita na Bíblia, duvida da palavra do Senhor e leva milhões de homossexuais para os seus shows (onde se esfregam e até chegam a ejacular uns nos outros)."

2 - "
Homossexualidade tem cura minha gente!! É só procurar o caminho do Senhor..."

3 - "P
ois como todos sabemos quando a mulher se casa ela tem que ser submissa ao seu marido, que vai ditar as regras e o comando da casa."

4 - "
Creio que a Rihanna não deve ter feito o papel de uma mulher cristã de verdade e não se calou diante da vontade de seu homem, por isso acabou causando sua ira e apanhou dele."

5 - "A
opinião do homem é sempre a mais importante, e não devemos confrontá-la verbalmente ou com ações, o que podemos fazer é orar para que ele mude de idéia!!"

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Balada do enterrado vivo

Hoje faz um mês que morreu o poetinha Mario Benedetti. O uruguaio faz parte, juntamente com Stacey Kent, Elizabeth Fonseca e outros, do espólio cultural que a bem amada deixou antes de desaparecer por completo da minha vida. São coisas que levarei pra sempre, já postei algumas coisas dele aqui, e ainda me surpreendo em perceber o quanto me identifico com o que ele escreve. Quando fiquei sabendo - alertado pela própria bem amada - que ele tinha morrido, havia comprado seu último livro, Primavera num Espelho Partido, apenas dois dias antes. Num capítulo desse livro, que mistura romance com notas biográficas, achei outro pedaço de texto que expressa um dos maiores medos que trago na vida:

"
Como em todas as tardes, chegou a seu apartamento, provavelmente se deitou e só se ficou sabendo dele vários dias depois, quando os colegas de trabalho, estranhando sua ausência, foram bater em sua porta e, ao não obterem resposta, trouxeram a polícia para abri-la.

Estava em sua cama, ainda com vida, mas já sem sentidos. Um derrame tinha provocado uma hemiplegia. Estava naquele estado havia pelo menos três dias. De nada valeram os cuidados intensivos.

A rigor, não morreu de hemiplegia, mas de solidão. Os médicos disseram que, se tivesse sido encontrado a tempo, teria certamente sobrevivido. Quando seus amigos o encontraram, já tinha perdido os sentidos, mas se supões que, pelo menos durante as primeiras vinte e quatro horas, soubesse o que estava ocorrendo.
"

domingo, 12 de julho de 2009

A difícil arte da conversação (verídico)


- Você viu a corrida hoje de manhã?

- Que corrida?
- A fórmula 1.
- Não vi não. Como foi?
- Foi muito boa.
- Quem venceu?
- Um cara aí, não me lembro o nome...
- Sei. E o Massa?
- Ficou em terceiro. Ou sexto.
- Terceiro ou sexto?
- Não sei bem...
- Tá. E o Rubinho?
- Que Rubinho?

terça-feira, 23 de junho de 2009

O Falsário

Dei um tempo de tudo ontem e saí pra me divertir comigo mesmo. Saímos nós dois - eu e eu - pra fazer um programa bem light, já que estou doente e não posso me dar ao luxo de muitos excessos. Levei-me pra tomar um suco, comprar uns livros e pegar um cineminha.

Como há muito tempo não me cortejava, acabei fazendo todas minhas vontades: comprei um Revolução dos Bichos - porque da primeira vez que li me encantei mais com os bichos falando do que com as metáforas e analogias do livro; um CD do Cartola e um do Delicatessen, que é um grupo de jazz da minha terra que tá chegando pra abafar por aí, com a bênção de gente que entende; e uma versão encadernada de Watchmen, aquele gibi famoso do Alan Moore, porque eu só tinh
a a minissérie original que foi editada na época (uns duzentos anos atrás) e que eu devo ter perdido em uma dessas mudanças de casa.

Aproveitei pra bater papo com uma amiga querida que trabalha (demais, viu?) na Livraria Cultura e ainda dei a sorte de dividir um suco com outras amigas que encontrei no Marietta enquanto fazia hora pra assistir meu filmezinho. Que sina feliz dessa gente que, mesmo sendo meio cinza, sai sozinha numa terça à noite e ainda encontra outras gentes pra dividir os minutos de solidão! Despedi-me desse povo e fui ver meu filme, que escolhi meio no tapa.

De tempos em tempos - cada vez mais raros, por si
nal - um filme, um livro, uma pintura, detona a minha cabeça de tal maneira que fica até difícil dormir depois. Foi o caso de Os Falsários (Die Fälscher), que acabei escolhendo -confesso - em homenagem à bem-amada, que tanto se compraz da produção artística teutônica. E eu, que evito fazer resenha nesse blogue, me obrigo agora a uns pequenos comentários filosóficos-cinematográficos.

O filme mostra um grupo de judeus que é selecionado pra participar de uma operação nazista pra falsificar dinheiro, e acabam numa sinuca de bico: se eles cooperam, ajudam a financiar o nazismo e fodem com todos que ele gostam; se não cooperam, morrem, ou seja, fodem com eles mesmos.

E é expondo essa dualidade de forma visceral que o filme é genial. E em deixar de lado aquela baboseira de judeuzinho-que-sofre-e-alemão-que-bate. Enquanto quase todo mundo faz tudo certinho pra tirar o seu respectivo cu da reta, um dos judeus resolve virar mártir - justamente um dos essenciais pro processo de falsificação da grana - atrasa a bagaça toda e todo mundo quase vai pro saco por causa disso. No fim, depois de sentirem mal pelas regalias conseguidas (como camas com colchões e mesa de pingue-pongue) por fazer o serviço sujo dos nazi, alguns falsários contam sem nenhum pudor às vitimas legítimas dos campos de concentração, a história de como eles boicotaram os planos alemães resistindo até o final.

Fiquei assombrado pela identificação que senti pelo protagonista, um falsificador cínico e manipulador que a certa altura diz: "não vou dar aos nazistas a alegria de sentir vergonha por estar vivo". Pensei em quantas vezes vendi meus sonhos pra pode seguir em frente. Quantos discursos pronunciei pra justificar a falta de coragem pra abrir um escritório próprio, a necessidade (nem tão necessária assim) de ganhar dinheiro rápido e ser estável, e a inevitabilidade de ter virado um cafajeste pra poder sobreviver.

Por outro lado, não pude deixar de ficar aliviado em constatar que essa covardia faz parte da natureza humana. Deve ser o chamado instinto de sobrevivência. Não vou ganhar uma estátua com meu nome, mas vou garantir a educação da minha filha. Não vou acabar com o nazismo, mas vou ficar vivo pra ajudar de alguma forma, mesmo que essa forma nunca chegue. O mártir do filme foi hostilizado, ridicularizado e até agredido. É o que tenho vontade de fazer às vezes com gente que não se encaixa no esquema. O lance é dançar conforme a música, estando dentro do jogo é mais fácil marcar gols. O foda depois é a tal crise de consciência. Passo o tempo todo achando que não mereço o que conquisto. Eu sou o meu próprio falsário.

Mas enfim, quem puder assiste o filme, come uma pipoqunha, e de quebra ainda presencia uma das cenas mais bonitas dos últimos tempos, onde um prisioneiro fura o dedo e usa o próprio sangue pra dar um pouco de rubor ao rosto de um menino que está com tuberculose, evitando que ele seja executado. Antológica.

P.S.: eu nem fiz menção nem nada, mas esse filme foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008. O que não quer dizer nada, mas vale o registro.