23 de maio de 1976. Daqui a menos de uma semana, nascerei em Bento Gonçalves, numa manhã de inverno, a última em que se registrou neve nessa cidade gaúcha. Serei o segundo filho de um casal normal, descendente de italianos, correntinos e caboclos. Na minha primeira casa, pequena e feita de madeira, serei irremediavelmente feliz, junto aos cachorros e ao enorme abacateiro, às teias de aranha da adega subterrânea e ao meu irmão, que passará a vida ao meu lado, a me repreender e a me proteger, encargo do qual ele não abrirá mão até o fim dos nossos dias.
Mudarei de casa aos quatro anos, esta um pouco maior, conhecerei amigos para a vida toda, jogarei bola no meio da rua, explorarei as matas lindeiras, arrebentarei a cabeça andando de bicicleta e pulando nas obras do bairro, sempre com o sorriso fácil, que me forçará a fechar os olhos de tão largo.
Aos dez, conhecerei Brasília, meu primeiro caso de amor, embora não à primeira vista. Mais uma vez amigos inesquecíveis, jogos de bat no meio da rua, atravessando as quadras de bicicleta, à sombra das mangueiras e embalado pelo doce – e até então desconhecido – zumbido das cigarras.
Chegará a adolescência, e com ela as primeiras desilusões afetivas, as primeiras privações financeiras, as primeiras rejeições sociais. Os óculos e os quilos a mais pesarão sobre minha cabeça com a força de mil martelos e as consequências doerão em mim e nos que eu gosto por muitos e muitos anos.
Mais pra frente, aos quinze, meus pais separar-se-ão, depois de brigas homéricas e barracos em plena madrugada. Minha vida virará uma confusão, cada ano ou semestre será passado em um lugar diferente, e minha única certeza será a de ter perdido o caminho. Após um ano morando de favor com um tio, de novo em Bento Gonçalves, desenvolverei os sintomas de uma companheira pra vida toda: a diabetes. Emagrecerei vinte quilos e passarei a usar lentes de contato, o que fará muita diferença, por incrível que pareça.
Voltarei pra Brasília, irei pra Uberaba, aprenderei a cozinhar, a tocar violão, a seduzir, a mentir pra conseguir o que eu quero, a ser frio pra ser admirado, lerei Rimbaud, Neruda e Leminski, tomarei meus primeiros porres de respeito, ensaiarei meus primeiros namoros, criarei mágoa da minha mãe, largarei a Engenharia e passarei entre os primeiros em Arquitetura, já envolvido em meu segundo grande amor, agora por uma mulher, que virá a ser mãe da minha filha.
Serei pai aos 23, e minha única certeza será a de ter reencontrado o caminho. Trabalharei unicamente para bancar as viagens a Buenos Aires, para administrar meu amor em pílulas por essa filha tão parecida comigo que chegará a me amedrontar. Farei a mãe dela sofrer, formar-me-ei entre os últimos da turma, embora reconhecido como ótimo profissional por professores e colegas. Ganharei pouco dinheiro trabalhando doze horas por dias, sete dias por semana, e perceberei que meu potencial permitir-me-á dar mais conforto pra minha filha, bastando pra isso que eu prostitua meus ideais profissionais, o que nem será tão grave.
Passarei em concursos públicos, trabalharei no Itamaraty, onde conhecerei mais amigos geniais e meu terceiro amor – esse bem efêmero –, viajarei ao Cazaquistão, e tornar-me-ei cada dia mais frio e distante, acreditando estar fazendo o necessário pra sobreviver.
Serei chamado pra trabalhar num lugar que parecer-me-á uma favela, passarei os sábados organizando arquivos e documentos, enfrentarei empreiteiras milionárias, comporei comissões com brilhantismo e chamarei a atenção pra minha capacidade profissional. Em dois anos virarei chefe da favela, terei dinheiro e status razoáveis, e parecer-me-á que valeu a pena ter aberto mão temporariamente dos meus sonhos.
Conhecerei e perderei, então, meu quarto e maior amor, desaparecerá meu chão e meus valores virarão de cabeça pra baixo, assim como o resto da minha vida. Perceberei que perdi novamente o caminho, deixando amigos, família e amores pra trás. Chorarei, alternarei noites acordado com noite de sono torpe, alcoolizado. Mas farei o possível pra reparar meus erros, dessa vez sem raiva e com muita paciência.
E em 29 de maio de 2009, comemorarei, junto com meus 33 anos de vida, seis meses de renascimento. Com minha família, amigos (antigos e novos) e amores, paz e dinheiros vindouros. E com festa, é claro...