Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Balada do enterrado vivo

Hoje faz um mês que morreu o poetinha Mario Benedetti. O uruguaio faz parte, juntamente com Stacey Kent, Elizabeth Fonseca e outros, do espólio cultural que a bem amada deixou antes de desaparecer por completo da minha vida. São coisas que levarei pra sempre, já postei algumas coisas dele aqui, e ainda me surpreendo em perceber o quanto me identifico com o que ele escreve. Quando fiquei sabendo - alertado pela própria bem amada - que ele tinha morrido, havia comprado seu último livro, Primavera num Espelho Partido, apenas dois dias antes. Num capítulo desse livro, que mistura romance com notas biográficas, achei outro pedaço de texto que expressa um dos maiores medos que trago na vida:

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Como em todas as tardes, chegou a seu apartamento, provavelmente se deitou e só se ficou sabendo dele vários dias depois, quando os colegas de trabalho, estranhando sua ausência, foram bater em sua porta e, ao não obterem resposta, trouxeram a polícia para abri-la.

Estava em sua cama, ainda com vida, mas já sem sentidos. Um derrame tinha provocado uma hemiplegia. Estava naquele estado havia pelo menos três dias. De nada valeram os cuidados intensivos.

A rigor, não morreu de hemiplegia, mas de solidão. Os médicos disseram que, se tivesse sido encontrado a tempo, teria certamente sobrevivido. Quando seus amigos o encontraram, já tinha perdido os sentidos, mas se supões que, pelo menos durante as primeiras vinte e quatro horas, soubesse o que estava ocorrendo.
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Domingo, 12 de Julho de 2009

A difícil arte da conversação (verídico)


- Você viu a corrida hoje de manhã?

- Que corrida?
- A fórmula 1.
- Não vi não. Como foi?
- Foi muito boa.
- Quem venceu?
- Um cara aí, não me lembro o nome...
- Sei. E o Massa?
- Ficou em terceiro. Ou sexto.
- Terceiro ou sexto?
- Não sei bem...
- Tá. E o Rubinho?
- Que Rubinho?

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

O Falsário

Dei um tempo de tudo ontem e saí pra me divertir comigo mesmo. Saímos nós dois - eu e eu - pra fazer um programa bem light, já que estou doente e não posso me dar ao luxo de muitos excessos. Levei-me pra tomar um suco, comprar uns livros e pegar um cineminha.

Como há muito tempo não me cortejava, acabei fazendo todas minhas vontades: comprei um Revolução dos Bichos - porque da primeira vez que li me encantei mais com os bichos falando do que com as metáforas e analogias do livro; um CD do Cartola e um do Delicatessen, que é um grupo de jazz da minha terra que tá chegando pra abafar por aí, com a bênção de gente que entende; e uma versão encadernada de Watchmen, aquele gibi famoso do Alan Moore, porque eu só tinh
a a minissérie original que foi editada na época (uns duzentos anos atrás) e que eu devo ter perdido em uma dessas mudanças de casa.

Aproveitei pra bater papo com uma amiga querida que trabalha (demais, viu?) na Livraria Cultura e ainda dei a sorte de dividir um suco com outras amigas que encontrei no Marietta enquanto fazia hora pra assistir meu filmezinho. Que sina feliz dessa gente que, mesmo sendo meio cinza, sai sozinha numa terça à noite e ainda encontra outras gentes pra dividir os minutos de solidão! Despedi-me desse povo e fui ver meu filme, que escolhi meio no tapa.

De tempos em tempos - cada vez mais raros, por si
nal - um filme, um livro, uma pintura, detona a minha cabeça de tal maneira que fica até difícil dormir depois. Foi o caso de Os Falsários (Die Fälscher), que acabei escolhendo -confesso - em homenagem à bem-amada, que tanto se compraz da produção artística teutônica. E eu, que evito fazer resenha nesse blogue, me obrigo agora a uns pequenos comentários filosóficos-cinematográficos.

O filme mostra um grupo de judeus que é selecionado pra participar de uma operação nazista pra falsificar dinheiro, e acabam numa sinuca de bico: se eles cooperam, ajudam a financiar o nazismo e fodem com todos que ele gostam; se não cooperam, morrem, ou seja, fodem com eles mesmos.

E é expondo essa dualidade de forma visceral que o filme é genial. E em deixar de lado aquela baboseira de judeuzinho-que-sofre-e-alemão-que-bate. Enquanto quase todo mundo faz tudo certinho pra tirar o seu respectivo cu da reta, um dos judeus resolve virar mártir - justamente um dos essenciais pro processo de falsificação da grana - atrasa a bagaça toda e todo mundo quase vai pro saco por causa disso. No fim, depois de sentirem mal pelas regalias conseguidas (como camas com colchões e mesa de pingue-pongue) por fazer o serviço sujo dos nazi, alguns falsários contam sem nenhum pudor às vitimas legítimas dos campos de concentração, a história de como eles boicotaram os planos alemães resistindo até o final.

Fiquei assombrado pela identificação que senti pelo protagonista, um falsificador cínico e manipulador que a certa altura diz: "não vou dar aos nazistas a alegria de sentir vergonha por estar vivo". Pensei em quantas vezes vendi meus sonhos pra pode seguir em frente. Quantos discursos pronunciei pra justificar a falta de coragem pra abrir um escritório próprio, a necessidade (nem tão necessária assim) de ganhar dinheiro rápido e ser estável, e a inevitabilidade de ter virado um cafajeste pra poder sobreviver.

Por outro lado, não pude deixar de ficar aliviado em constatar que essa covardia faz parte da natureza humana. Deve ser o chamado instinto de sobrevivência. Não vou ganhar uma estátua com meu nome, mas vou garantir a educação da minha filha. Não vou acabar com o nazismo, mas vou ficar vivo pra ajudar de alguma forma, mesmo que essa forma nunca chegue. O mártir do filme foi hostilizado, ridicularizado e até agredido. É o que tenho vontade de fazer às vezes com gente que não se encaixa no esquema. O lance é dançar conforme a música, estando dentro do jogo é mais fácil marcar gols. O foda depois é a tal crise de consciência. Passo o tempo todo achando que não mereço o que conquisto. Eu sou o meu próprio falsário.

Mas enfim, quem puder assiste o filme, come uma pipoqunha, e de quebra ainda presencia uma das cenas mais bonitas dos últimos tempos, onde um prisioneiro fura o dedo e usa o próprio sangue pra dar um pouco de rubor ao rosto de um menino que está com tuberculose, evitando que ele seja executado. Antológica.

P.S.: eu nem fiz menção nem nada, mas esse filme foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008. O que não quer dizer nada, mas vale o registro.

Domingo, 21 de Junho de 2009

Das 100 coisas que eu mais gosto na vida

Ando querendo colocar as coisas no lugar. Arrumando gavetas, esvaziando velhas caixas de papelão, catalogando revistas e livros antigos, essas coisas. No fundo da cômoda da TV, encontrei um velho caderno que fez parte de uma época estranha da minha vida, o fim da adolescência.

É um caderno fino, de capa tribal dura, com as páginas amareladas repletas de poemas escritos com letra miúda, meus e de outros. Dos meus, morro de vergonha, mas os outros escritos dizem muito do que se passava com o Marcelo de então.

Além dos poemas, algumas anotações interessantes, dentre elas as listas das 100 coisas que eu mais gosto e das 100 coisas que eu mais odeio. Achei que valia a pena comentar os mais interessantes. Das coisas que eu mais amava há 15 anos:

1 - sexo (estranho esse tópico, porque se eu fizesse sexo naquela época, provavelmente não escreveria um caderno de poemas)
2 - pizza e biscoito recheado (eu ainda adoro junk food, mas hoje dispensaria sem beicinho essas duas)
3 - vida após a morte (com 18 anos e pensando nisso???)
4 - Arnaldo Jabor (reacionário, não dá pra entender com eu, que sempre tive inclinações políticas de esquerda me deixei seduzir por ele)
5 - London Pub (tive que buscar no google pra lembrar, mas era um barzinho/boate muito bom em Uberlândia)

Das 100 coisas que eu mais odiava:
1 - maracujá (meu ódio mais consistente, se um dia inventarem um super-herói com meu nome, o maracujá vai ser o meu Lex Luthor)
2 - camisa polo (esse já não vale mais, hoje em dia tenho uma bela coleção delas)
3 - Corpo de Bombeiros, Julia Lemmertz e medicina (hein???)
4 - Leila Pinheiro (o mesmo caso da camisa polo, mesmo que a minha coleção de Leila Pinheiro seja menor)
5 - minha mãe (outra raiva consolidada, mas que tive a sorte de desmantelar nos últimos meses)

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

And now, the end is near...

O amor acabou, a esperança acabou, e agora a porra da cerveja também já tá no fim...

Domingo, 31 de Maio de 2009

Chuva de maio


São três da manhã do dia 30 de maio. Acordo pra dirigir pela cidade, fazer as idéias assentarem, calar as vozes. Está chovendo em Brasília, o que é estranho. As gotas que caem do céu avermelhado compõem um quadro surreal, de certa maneira. A média pluviométrica pra esse mês, desde que eu me lembro, é zero. A cidade está estranha, saindo dos padrões. Não se pode mais dizer o que vai acontecer, nem quando. Há 23 anos, quando cheguei aqui, podia-se arriscar com pouca probabilidade de erro, que nunca choveria em maio. Brasília era previsível. Hoje cada dia é uma surpresa.

Em mim, também chove em maio. Há alguns meses, busco sempre sair dos padrões, procuro ruas novas pra percorrer, gente nova pra conhecer, perdoo quando devia lutar. Agora, me interessam as situações que eu nunca passei, os problemas sem fórmulas pra resolver. A minha média pluviométrica histórica foi zero durante anos. Agora deixo a água da chuva bater e escorrer pela minha alma ressequida. Cada dia é uma surpresa.

Estranha atitude essa nossa, minha e da cidade. Se não soubesse que passamos por uma época de mudanças climáticas bizarras, juraria que Brasília está apaixonada...

Sábado, 23 de Maio de 2009

Pré-elegia

23 de maio de 1976. Daqui a menos de uma semana, nascerei em Bento Gonçalves, numa manhã de inverno, a última em que se registrou neve nessa cidade gaúcha. Serei o segundo filho de um casal normal, descendente de italianos, correntinos e caboclos. Na minha primeira casa, pequena e feita de madeira, serei irremediavelmente feliz, junto aos cachorros e ao enorme abacateiro, às teias de aranha da adega subterrânea e ao meu irmão, que passará a vida ao meu lado, a me repreender e a me proteger, encargo do qual ele não abrirá mão até o fim dos nossos dias.
Mudarei de casa aos quatro anos, esta um pouco maior, conhecerei amigos para a vida toda, jogarei bola no meio da rua, explorarei as matas lindeiras, arrebentarei a cabeça andando de bicicleta e pulando nas obras do bairro, sempre com o sorriso fácil, que me forçará a fechar os olhos de tão largo.
Aos dez, conhecerei Brasília, meu primeiro caso de amor, embora não à primeira vista. Mais uma vez amigos inesquecíveis, jogos de bat no meio da rua, atravessando as quadras de bicicleta, à sombra das mangueiras e embalado pelo doce – e até então desconhecido – zumbido das cigarras.
Chegará a adolescência, e com ela as primeiras desilusões afetivas, as primeiras privações financeiras, as primeiras rejeições sociais. Os óculos e os quilos a mais pesarão sobre minha cabeça com a força de mil martelos e as consequências doerão em mim e nos que eu gosto por muitos e muitos anos.
Mais pra frente, aos quinze, meus pais separar-se-ão, depois de brigas homéricas e barracos em plena madrugada. Minha vida virará uma confusão, cada ano ou semestre será passado em um lugar diferente, e minha única certeza será a de ter perdido o caminho. Após um ano morando de favor com um tio, de novo em Bento Gonçalves, desenvolverei os sintomas de uma companheira pra vida toda: a diabetes. Emagrecerei vinte quilos e passarei a usar lentes de contato, o que fará muita diferença, por incrível que pareça.
Voltarei pra Brasília, irei pra Uberaba, aprenderei a cozinhar, a tocar violão, a seduzir, a mentir pra conseguir o que eu quero, a ser frio pra ser admirado, lerei Rimbaud, Neruda e Leminski, tomarei meus primeiros porres de respeito, ensaiarei meus primeiros namoros, criarei mágoa da minha mãe, largarei a Engenharia e passarei entre os primeiros em Arquitetura, já envolvido em meu segundo grande amor, agora por uma mulher, que virá a ser mãe da minha filha.
Serei pai aos 23, e minha única certeza será a de ter reencontrado o caminho. Trabalharei unicamente para bancar as viagens a Buenos Aires, para administrar meu amor em pílulas por essa filha tão parecida comigo que chegará a me amedrontar. Farei a mãe dela sofrer, formar-me-ei entre os últimos da turma, embora reconhecido como ótimo profissional por professores e colegas. Ganharei pouco dinheiro trabalhando doze horas por dias, sete dias por semana, e perceberei que meu potencial permitir-me-á dar mais conforto pra minha filha, bastando pra isso que eu prostitua meus ideais profissionais, o que nem será tão grave.
Passarei em concursos públicos, trabalharei no Itamaraty, onde conhecerei mais amigos geniais e meu terceiro amor – esse bem efêmero –, viajarei ao Cazaquistão, e tornar-me-ei cada dia mais frio e distante, acreditando estar fazendo o necessário pra sobreviver.
Serei chamado pra trabalhar num lugar que parecer-me-á uma favela, passarei os sábados organizando arquivos e documentos, enfrentarei empreiteiras milionárias, comporei comissões com brilhantismo e chamarei a atenção pra minha capacidade profissional. Em dois anos virarei chefe da favela, terei dinheiro e status razoáveis, e parecer-me-á que valeu a pena ter aberto mão temporariamente dos meus sonhos.
Conhecerei e perderei, então, meu quarto e maior amor, desaparecerá meu chão e meus valores virarão de cabeça pra baixo, assim como o resto da minha vida. Perceberei que perdi novamente o caminho, deixando amigos, família e amores pra trás. Chorarei, alternarei noites acordado com noite de sono torpe, alcoolizado. Mas farei o possível pra reparar meus erros, dessa vez sem raiva e com muita paciência.
E em 29 de maio de 2009, comemorarei, junto com meus 33 anos de vida, seis meses de renascimento. Com minha família, amigos (antigos e novos) e amores, paz e dinheiros vindouros. E com festa, é claro...